Uma crônica tardia sobre Nomadland, de Chloé Zhao

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Nomadland - Foto: Searchlight Pictures
Nomadland - Foto: Searchlight Pictures

Entre elogios e desafetos, Nomadland levou 3 Oscar, como Melhor Filme, Direção e Atriz. A história da mulher, interpretada por Frances McDormand, que deixa sua casa, após o falecimento do marido e falência da indústria em que ele trabalhava, e vai morar numa van, é um contraponto a visão de mundo de sucesso que durante gerações nos impregnou.

O mundo do capital levou para o âmbito do trabalho o conceito de desempenho, mérito, coachs, trabalhe-como-dono e chegou até à imagem perfeita, própria das redes sociais, no LinkedIn. E aí, quando as crises financeiras chegam, em Nomadland retratado na recessão norte-americana de 2008 e que facilmente pode ser transposta para tantas que temos passadas no Brasil, percebe-se facilmente que tudo isso é quase sempre pura falácia. Assim, rejeita-se e desampara-se qualquer indivíduo quando ele não é mais capaz de gerar lucro. É a regra do mercado!

O filme de Chloé Zhao inspira-se no livro de Jessica Bruder que conta histórias verdadeiras de nômades espalhados pelas estradas dos Estados Unidos. Homens e mulheres desempregados ou que deixaram suas casas para viver um dia de cada vez, sobrevivendo entre empregos temporários. Então, o longa-metragem nasce da fricção entre realidade e ficção, o que já tem sido uma linguagem constante na literatura e no teatro.

Ali, McDormand é Fern, ficcional, mas apropria-se de um apelido real dela que, por outro lado, contracena com figuras não-ficcionais que vivem nas estradas. Nomadland é um documentário ficcional, se formos tentar classificar.

A crítica elogiou, mas também questionou o ar romântico dado por Zhao à rotina composta por também perigos das estradas e desses trabalhos transitórios. Ocupações oferecidas e comandadas por grandes empresas, sem direitos e segurança ao trabalhador.

Sendo aquariano – desculpe-me pelo tom pós-moderno (ou decolonial)! -, confesso que saí admirado pela possibilidade de prazer na solidão e da bicuda definitiva às regras da vida burguesa. Então, aquele réveillon solitário e as conversas soltas com transeuntes, mesmo fantasioso, revela autodeterminação e uma possibilidade. Uma confrontação entre Nomadland e A Assistente, com Julia Garner e direção de Kitty Green, é um exercício que recomendo ao leitor.

Nessa crítica tardia não acrescento novidades do que já foi dito sobre McDormand, sobre sua atuação econômica, mas potente. Mesmo assim, fico feliz que a Academia goste do trabalho da atriz, que por outro lado não consegue premiar grandes estrelas, como Glenn Close que sai novamente de uma festa sem uma estatueta.

A direção de Zhao é certeira, ao investir nesse hibridismo de ficção e realidade. E sendo a primeira asiática e a segunda mulher a receber um Oscar de melhor direção, reforça à Academia como uma instituição que vem buscando a pluralidade. O que já a Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, responsável pelo Globo de Ouro, vem sendo criticada pela sua falta de diversidade e ética.

Nomadland é um filme bem diferente de outros seus companheiros de nomeação, como o chatinho, porém belíssimo Mank. Sendo assim, neste ano tão difícil, tê-lo como ganhador legitima e potencializa espectadores para uma visão de vida menos ambiciosa. Mesmo romantizado, pode ser um filme tardio sobre Woodstock, da contracultura. Por isso, sua mensagem soa crua, mas, quem sabe, como uma utopia, porém necessária.

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