Uma crônica tardia de Deserto Particular

Escolhido para representar o Brasil no Oscar, filme de Aly Muritiba, com Antonio Saboia, Pedro Fassnaro e Thomas Aquino chega ao streaming.

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Deserto Particular - Foto: Divulgação
Deserto Particular - Foto: Divulgação

Existe uma turma por aí que age e pensa no 0 ou 1, direita ou esquerda, amigo ou inimigo, bem ou mal, homem ou mulher, conservador ou progressista, sul ou nordeste e assim por diante. Não existe qualquer complexidade na sua visão de mundo e que tem um representante nacional acertado, o atual Presidente da República Jair Bolsonaro.

E aí, para exercitar e propor possíveis aproximações entre esses extremos bipartidos, Deserto Particular, filme do diretor Aly Muritiba (Ferrugem, Carcereiro, O Caso Evandro); é sobre isso. Segundo Muritiba “é um filme sobre o amor” e que acaba de chegar ao streaming, após ter sido o representante do Brasil ao Oscar 2022, mas que não chegou a nomeação.

Obviamente, o leitor já sabe que para chegar pelo menos a uma nomeação a maior premiação do cinema estadunidense não basta ser um bom filme. É preciso fazer uma campanha árdua, com muitos cafés, almoços e jantares para que os acadêmicos assistam às produções estrangeiras.

A história

A história do filme começa com Daniel (Antonio Saboia) que mora em Curitiba e está afastado do trabalho de policial após cometer um erro. Com o pai milico aposentado e doente, passa a se relacionar com uma moça do interior da Bahia por mensagens e, que lá pelas tantas, some. Assim, ele pega sua D20 e atravessa o país para saber que história é essa.

A partir daí o roteiro de Muritiba e Henrique dos Santos está longe de qualquer esquematismo ou trivialidades. Avança entre buscas, cartazes espalhados pela cidade, amores perdidos e reconhecimentos. Tudo isso pelo olhar das singularidades das cidades pequenas, com seus espaços de lazer, igrejas, grandes construções e subempregos.

Diante de tantos prêmios em festivais de cinema LGBTQ, o leitor já deve imaginar o que acontece nesse encontro. Lá vamos a eles: Festival de Veneza (Prêmio de Público), Mix Brasil (Melhor Filme e Melhor Ator, para Pedro Fasanaro), TLVFest 2021 – The Tel Aviv Internacional LGBTQ Film Festival (Melhor Longa Internacional), e Premio Camilo (conferido ao melhor longa com temática LGBTQ), no Festival de Huelva – Cine Iberoamericano.

Pois bem, sem qualquer spoiler da nossa parte, Deserto Particular se intensifica nas transformações que são geradas nesse encontro de Daniel e Robson (Pedro Fasanaro). Reafirmando o seu plot central: uma obra sobre encontros. Incluindo ai a inesperada e certeira escolha da música Total Eclipse Of The Heart de Bonnie Tyler para criar o clímax necessário à trama, na trilha assinada por Felipe Ayres.

Elenco

Tanto Saboia, quanto Fasanaro entregam personagens fortes, críveis e prontos para essa transformação. A cena final, na rodoviária, além de decisiva na jornada de ambos e pouco esquemática, é comovente e trazem dois atores completos nessa construção.

Inclui-se no elenco, Thomás Aquino como o divertido e amigo Fernando, Zezita de Matos como a dura e evangélica avó Tereza, Laila Garin como a moça do interior Juliana e a pequena participação, mas feita de refinos de tons e olhares, de Flávio Bauraqui como “ex-gay” Oswaldo.

Estética

A estética vai do taciturno ao solar nordeste, numa mistura de gêneros, de road movie ao drama, lembrando Central do Brasil (1998) e Céu de Suely (2006), num mergulho nas desigualdades e do chamado Brasil profundo. Assim, a fotografia de Luis Armando Artega explora planos abertos em contraposição ao homem trancado dentro de si, na primeira parte.

Camadas

Obviamente há muitas camadas a serem observadas em Deserto Particular, como a “cura gay” ainda presente e aniquiladora nas igrejas protestantes; há no blackground de um homofóbico desejos não assumidos; a fragilidade aumentada das identidades lgbtqia+ nos pequenos centros e por aí vai.

Juntando a tudo isso, provavelmente a cena essencial do filme seja o encontro de Robson e Daniel sobre a cidade de Sobradinho. Como a sociedade constrói barragens para juntar rios, submergindo cidades e histórias, as estruturas sociais também são feitas afundando desejos, povos e individualidades.

Streaming

Felizmente Deserto Particular chega a HBO Max depois de um período difícil para o cinema, afinal diante da necessária reclusão durante a pandemia da covid-19, ir ao cinema foi uma atividade deixada para segundo plano.

Portanto agora o público tem a oportunidade de acessar essa jornada íntima, comovente e de amor. Necessária nesses tempos dramáticos em que o ódio, o racismo e homofobia existente, e até então velada, tornou-se política de governo e bandeira eleitoral.

E que Daniel e Robson inspirem novos encontros, sem ódio. Sem visões bipartidas. Em que o amigo não vire o inimigo se pensa diferente de mim. Mas que nossas heterogeneidades sejam consideradas virtudes e não fontes de extermínio.

Ficha Técnica
Direção: Aly Muritiba
Roteiro: Aly Muritiba, Henrique dos Santos
Produção:  Antonio Gonçalves Júnior, Luís Galvão Telles
Produtoras: Garfo, Fado Filmes
Elenco: Antonio Saboia, Pedro Fasanaro, Thomas Aquino
Direção de Fotografia: Luis Armando Artega
Direção de arte: Fabíola Bonofliglio, Marcos Pedroso
Figurino: Isabella Brasileiro
Montagem: Patrícia Saramago
Som Direto: Marcos Mana
Diretor de Produção: Max Leen, Thamires Vieira
Produção Executiva: Chris Spode, Raiane RodriguesPaís: Brasil, Portugal
Duração: 120 min.

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