Três perguntas para Norma Blum sobre carreira e o teatro brasileiro

Atriz veterana dos palcos brasileiros, Norma Blum, conta sobre o retorno ao teatro, como diretora da peça Amantes Irmãs.

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Norma Blum - Foto: Betania Betcher
Norma Blum - Foto: Betania Betcher

Em cartaz até 28 de julho, o espetáculo Amantes Irmãs, da Cia Coreutas de Teatro, tem direção da icônica Norma Blum, atriz que conta com 70 anos de carreira em teatro, cinema e televisão.

A peça trata de temas delicados e necessários para debate e reflexão social: e se reaparecesse, na sua vida, um irmão que você não vê há mais de 20 anos por conta de uma briga familiar? E se esse irmão agora fosse uma mulher transexual e prostituta? E se você descobrisse que ela é amante do seu marido? A partir disso, três irmãs (Ariel, Carmem e Inês), filhas de um casal religioso, protagonizam uma realidade familiar bastante curiosa. 

A obra tem como objetivo a crítica à hipocrisia da sociedade, assim como fazia Nelson Rodrigues. Os conflitos dos personagens também trazem influências dos autores Federico García Lorca e Chico Buarque, além de grande inspiração nas obras existencialistas de Jean Paul Sartre. “Questões como transfobia, machismo, misoginia, fanatismo religioso e recusa ao direito do aborto serão tratados no texto de forma a fazer o público questionar se realmente são contra ou a favor de tais temas”, completa Fellipe Defall, autor do texto e fundador da Cia Coreutas de Teatro.

E é nesse contexto que a atriz Norma Blum retorna aos palcos, mas desta vez como diretora. Além de ser atriz, também é escritora com livros publicados tanto no Brasil como na Espanha. Foi justamente por dedicar-se também à carreira literária que a atriz teve um hiato de 10 anos longe dos palcos. Ela conversou com o e-Urbanidade sobre essa e outras questões:

#1 – e-Urbanidade: Como está sendo para você retornar aos palcos após 10 anos de afastamento e agora no papel de diretora de uma peça, com temáticas que ainda são consideradas tabus em nosso país?

Norma Blum: Está maravilhoso! O contato com o teatro é sempre uma iluminação pra mim. É sempre muito bom e estive afastada durante um tempo, porque me dediquei à minha outra carreira de escritora.

Lancei vários livros pela Editora Hércules. Então minha vida virou pra outro lado, e isso foi intensificado pela pandemia, pois ficamos por dois anos pelo menos com os teatros fechados e com os canais de televisão exibindo só reprises. Nos primeiros anos me afastei porque tive que me dedicar aos livros e às palestras que eu estava dando em conjunção dos livros, com temas diversos.

O Felipe Defall, que é um grande amigo, me convidou para dirigir a peça que ele escreveu, com temáticas tabus – algumas sim, outras não –  trata-se de uma peça difícil, com bastante texto.

Isso representou um grande desafio, mas eu tive uma felicidade muito grande de contar com um elenco extremamente dedicado, muito comprometidos com o projeto e então pudemos crescer.

No começo foi muito difícil, porque durante muitos meses só fizemos ensaios online, sem o presencial, e o teatro precisa da presença, tanto do público, tanto dos atores entre si e da direção com os atores. Então isso foi uma fase difícil em que eles estavam estudando os personagens e fazíamos reuniões frequentes em lives. Mas, nada se compara quando você tem o ensaio presencial.

Além do elenco participativo, tive grandes ajudas, porque o trabalho de Amantes Irmãs foi um trabalho coletivo com dedicação de toda a equipe, que envolve iluminação, sonoplastia e, principalmente, o trabalho de corpo que foi importantíssimo nessa peça.

Tive a ajuda do Roberto Farias, que pôde estar presente quando eu tinha que estar em outras atividades, e que deu muitas sugestões incríveis. Toda essa ajuda mútua de todos foi importante para conseguirmos essa sinergia entre todos os envolvidos, e isso, foi muito enriquecedor.

#2 Como você pensa que será o teatro nesse período após – ou entre – pandemias?

N.B. – O teatro é uma coisa tão viva que ele, tanto assim como nós seres humanos, se modifica, se reinventa. Então felizmente eu participei, minha vida longa permitiu isso a fazer parte do teatro como atriz, quando o teatro era muito, muito popular, isso nas décadas de 1950 a 1970. Tínhamos casa cheia e o trabalho para o ator e diretor era uma maravilha, porque nós fazíamos sessões lotadas, geralmente.

Em quase todas as peças que eu fiz, eram sessões lotadas com o calor do público, com aquela nossa vida que era totalmente dedicada ao teatro. A gente não podia viajar para lugar nenhum e só tínhamos folgas às segundas-feiras, fazendo nove sessões por semana. Isso era muito rico para desenvolver os personagens, o jogo teatral e cênico, uma grande escola. Trabalhei com alguns dos maiores monstros do teatro brasileiro da época.

E o teatro político nessa época também foi muito forte, já que tínhamos autores maravilhosos, muitos autores criativos e muitos desafios, além de shows-teatro, que eram uma mistura de música com teatro. Então foi uma fase muito rica e muitos artistas também se dedicavam a montar os clássicos.

Depois, acho que começou a se criar uma barriga, já que o teatro foi ficando muito voltado à apelação, assim como foi com o cinema nacional nas décadas de 1980 e 1990. Passou-se a ter espetáculos muito mais ralos do ponto de vista da alma e da interpretação, visando um dinheiro mais fácil.

Mas aí depois voltamos a ter mais autores criativos novamente, buscando outras modernizações, com as quais nem todas eu concordo. Eu acho que está faltando muito para as nossas plateias peças de grandes autores nacionais e internacionais, onde é muito exigido do ator que ele coloque a alma e as vísceras nesse trabalho, e isso não está acontecendo mais.

Com a pandemia tivemos uma parada total, então não sei como o teatro voltará agora, mas tenho certeza de que ele voltará revitalizado. Tenho convite para fazer três peças daqui até o final do ano como atriz, mas enquanto isso vamos ver quem mais escreve peças de teatro.

Tenho dois textos de peças que nunca foram montados e nem se podem montar, porque eu como autora escrevo peças com muitos personagens. Um dos textos é um musical em versos que retrata um reino onde só existe corrupção e um menestrel cego tem que resgatar o reino através da realização de uma jornada da alma.

Também escrevi o texto De Bruxa E Louca Todo Mundo Tem Um Pouco, com a poeta Sheila Gomes, com vários atores em cena e conta a história de vários bruxos que moram juntos em um loft e há mil peripécias e loucuras. Mas para realiza-lo precisaríamos que o teatro volte a ter aquele vigor que ele teve, em que se possa ousar montar uma peça com muitos atores.

Agora vamos ver muito nesse período de pós-pandemia peças com dois, três até quatro atores, como é com o nosso espetáculo Amantes Irmãs.

#3 – Que recados você daria para artistas mais jovens, que estão iniciando na carreira teatral?

N.B. – Para os jovens, eu tenho um recado muito importante para dar. Para começo de conversa, hoje em dia, devido à grandes problemas que temos no setor educacional e que ficou extremamente pobre nas últimas três décadas, temos jovens intectualmente despreparados. Podem ser jovens com muito talento artístico para o teatro, porém, a maioria dos jovens que acabo conhecendo são de pessoas que não leem. Não leem os clássicos, não leem as grandes comédias, não se aprofundam, ficando com uma formação carente.

Então a primeira mensagem que eu dou para os jovens artistas, seria de se debruçarem nas peças que foram escritas pelos grandes autores nacionais e internacionais, a lerem livros de autores como Dostoievski, Balzac, Moliére e Shakeapeare, muito Shakespeare. Porque o trabalho do ator é um trabalho de mergulho profundo na alma humana. Mas esse mergulho é tão profundo que vai lá no útero, nos intestinos.

E eu acho que os grandes autores de romances e de teatro, escreveram coisas que mergulharam muito na alma humana, e coisas que deram um panorama grande das trevas das almas, daquilo que vai no fundo, como disputas de poder. Qualquer peça… Pode ser uma comédia, como Moliére, pois ali encontramos umas descrições muito importantes da alma humana para o ator assimilar.

Então, além do empenho e da disposição que eu tive a sorte de ter no meu elenco agora de Amantes Irmãs, é preciso muita cultura, muito conhecimento, muito estudo. Existem bibliotecas onde se podem ir e pegar livros ou até ler lá mesmo, busquem isso. Há também grandes filmes internacionais e brasileiros em que os jovens podem mergulhar para conhecer.

Um autor que é chamado de maldito, mas que é maravilhoso com essas questões, porque ele monta uma carpintaria teatral maravilhosa e também disseca os porões da alma humana nos seus personagens é  Nelson Rodrigues. Vamos ler também Graciliano Ramos e todos os autores importantes! Atores jovens, comecem a ler muito Fernando Pessoa e procurem recitar os seus poemas.

Primeiro, você tem que ser apaixonado pelo teatro, ponto número um.

Segundo, você tem que ser apaixonado pelo que faz. Pegue textos menores, pegue uma peça pequena. Se te convidarem para uma peça para dizer somente “O jantar está servido”, como numa peça de Agatha Christie, por exemplo, e isso é tudo que seu personagem falará naquela peça, invente como é a vida desse personagem.

Busque sentir isso em você, porque a peça não te dirá isso mas poderá buscar em livros que você leu. E você poderá dar sua fala com um peso, com uma verdade, porque o personagem estará lá. Não será apenas um figurante que irá entrar para dizer que o jantar está pronto. Ele entrará com uma carga.

Então, em cada personagem que você for fazer ou estudar, busque essa carga, busque essa profundidade, aí vocês terão sucesso a vida toda. Desejo uma boa sorte a todos os jovens atores que vão enfrentar essa carreira difícil, que é a carreira teatral. Difícil, mas gloriosa.

Serviço

Amantes Irmãs
De 2/6 a 27/7. Quinta-feira, 20h30.
Cabaret da Cecília – Rua Fortunato, 35 – Santa Cecília
18 anos
R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia-entrada)

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