Teatro e censura na Bahia dos anos 1980 são temas de livro

Paulo Atto lança Atto em 3 Atos & Memórias da Censura com peças que se relacionam com o momento enfrentado pelo Brasil na ocasião.

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Atto em 3 Atos & Memórias da Censura
Atto em 3 Atos & Memórias da Censura

O teatro brasileiro teve grande participação na resistência cultural durante o período de repressão militar violenta que o país viveu, dos anos de 1964 até o período da redemocratização, no ano de 1985. Durante esse período, diversos dramaturgos encenavam peças retratando a dura realidade brasileira, e muitas delas foram ameaçadas e censuradas em suas exibições, principalmente durante o AI-5.

Algumas peças até poderiam não ser censuradas, mas eram frequentes os questionamentos por parte dos censores militares e, consequentemente, a dificuldade para encená-las.

Foi sob esse difícil contexto que o dramaturgo Paulo Atto escreveu nos anos 1980, na Bahia, uma trilogia de espetáculos A Confissão, As Máquinas ou A Tragédia em Desenvolvimento e Até Delirar / O Banquete, que resultaram no livro Atto em 3 Atos & Memórias da Censura, pela Editora do Teatro Popular de Ilhéus.

A publicação

A publicação é como uma espécie de inventário emotivo, histórico, dramatúrgico e artístico daqueles anos em que um grupo de atores e artistas vivenciaram a sua produção. A obra recorre à trilogia inicial do autor para recuperar e contribuir com a história do teatro de grupo na Bahia. O livro é composto pelos textos dos espetáculos e uma série de memórias, registros de imprensa, fotos, cartazes, convites, folhetos e panfletos, entre outros.

Atto conta sobre as dificuldades do fazer teatral daquele período: “os artistas tinham que lidar com uma relação entre a criação e a Polícia Federal. Não cheguei a ter uma obra censurada, mas tive muitos problemas, utilizei de estratégias para não cair na malha censória, fui inquirido pelos censores sobre cenas de minhas peças, tendo que explicá-las, eles eram muito mal-informados e ignorantes. Era uma relação difícil e às vezes absurda, nonsense.

E completa: Narro alguns exemplos até ridículos que aconteceram comigo. O livro não é um estudo crítico ou acadêmico sobre a censura, é um testemunho em primeira pessoa de quem viveu aquele período enfrentando todos os desafios”.

O livro também traz curiosidades, como uma hilária situação envolvendo maneiras para driblar a censura e evitar cortes no espetáculo. Outra relíquia é uma carta que Paulo Autran escreveu para Atto, em 1987, sobre o texto de A Confissão. A partir desta correspondência, nasceu uma relação que perduraria por muitos anos de carinho, amizade e admiração entre os dois.

A publicação foi ganhadora do Prêmio das Artes Jorge Portugal e tem apoio financeiro do Estado da Bahia por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia, via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultural do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Paulo Atto dramaturgo

Mas se engana quem pensa que autor teve sua trajetória restrita ao período ditatorial. O dramaturgo também é produtor cultural e diretor teatral desde 1984, com participação em programas, festivais, seminários sobre artes cênicas e cultura na Alemanha, Estados Unidos, México, Rússia e Espanha.

É membro associado da SGAE – Sociedad General de Autores y Escritores de España, desde 2005, e também é membro fundador das redes: RIA – Rede Ibero-americana de Animação sociocultural, com sede em Salamanca, na Espanha. Ainda participa da REI – Red Escena Iberoamericana que conta com grupos, festivais e companhias da Argentina, Colômbia, México, Portugal e Espanha.

Desde 2010, Atto mantém na cidade de Irecê o Núcleo Caatinga da Cia Avatar, grupo criado em 1987, em Salvador e é o curador do Festival Internacional de Teatro da Caatinga, desde 2012.

Recentemente, o autor venceu o Selo Literário João Ubaldo Ribeiro na categoria de dramaturgia com a peça A Travessia do Grão Profundo. A premiação tem como finalidade o fortalecimento do campo da literatura baiana.

Outro projeto em vista é um livro sobre sua relação com Caio Fernando de Abreu (1948 -1996), que iniciou a partir da adaptação teatral do livro Morangos Mofados, em 1988, com material inédito de uma longa entrevista gravada por Abreu na estreia da montagem em Salvador.

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