Resenha: Um Homem Só, de Christopher Isherwood

Obra de 1964 de Christopher Isherwood recebe nova tradução da Companhia das Letras e conta sobre o dia do professor inglês gay de meia-idade.

1
51
Christopher Isherwood e capa de Um Homem Só - Fotos: divulgação
Christopher Isherwood e capa de Um Homem Só - Fotos: divulgação

Um dos maiores clássicos da literatura LGBT, publicado pela primeira vez em 1964, recebe nova tradução brasileira, assinada por Débora Landsberg. A publicação é da Companhia das Letras e trata-se da clássica história de Christopher Isherwood (1904-1986): Um Homem Só que acompanha um dia do professor inglês de meia-idade gay. Assim, voltam-se os olhares à obra adaptada para o cinema por Tom Ford, Direito de Amar (A Single Man), de 2009, estrelada por Colin FirthJulianne Moore.

O protagonista George tem em torno de cinquenta anos e perdeu o marido recentemente em um acidente de trânsito. A partir desse plot trágico, o leitor acompanha a rotina do professor, desde seu café matutino e relações com os vizinhos até o fim da noite. A jornada envolve o encontro com sua amiga Charley, suas aulas e até um encontro fortuito com um aluno.

Isherwood publicou mais de vinte obras, incluindo romances, autobiografias e também livros de viagem. Seu também conhecido livro Adeus A Berlim (1939) inspirou o musical Cabaret de 1972, que retratava a vida desses inferninhos na Alemanha nazista. Depois de quase trinta anos, publicou Um Homem Só e que trazia um protagonista homossexual, o que era uma raridade na literatura da época.

Conta-se que a relação solitária de George tem inspiração na separação do escritor com o companheiro da época Don Bachardy, o retratista americano e que fez uma curta participação na adaptação cinematográfica de Ford. Em seguida, eles retomaram a relação e ficaram juntos até a morte de Isherwood em 1986.

Sou um câmera com o obturador aberto, que registra em modo passivo, sem pensar“, explicou o escritor e que é, sem dúvida, seu traço marcante. Aqui o tom irônico segue toda rotina de George, em que o protagonista e narrador travam diálogos constantes sobre as escolhas e personagens que cruzam a tal câmera. Essa função de transformar e deslocar olhares e perspectivas no embate com o narrador é original e o traço mais revolucionário da obra.

Assim, o professor afirma: “Sem tirar os olhos do espelho, vê muitos rostos dentro do rosto— o rosto da criança, do garoto, do homem jovem, do homem não- tão- jovem— todos ainda presentes, conservados como fósseis em camadas sobrepostas e, assim como fósseis, mortos. A mensagem deles a essa criatura viva agonizante é: olhe para nós— nós morremos— temer o quê?” (pag.19)

Sobre Sra. Strunk, a simpática moradora da casa próxima e que tenta disfarçar o preconceito ao vizinho solitário e bicha, arremata: “ela é treinada na nova tolerância, a técnica da aniquilação pela brandura.” (pag. 33)

E também não deixa de fazer suas considerações sobre o seu lugar de gay, em pensamentos gestados durante uma das suas aulas: “Porque uma minoria só é considerada minoria quando constitui uma certa ameaça à maioria, real ou imaginária.” (pag.69)

O escritor João Silvério Trevisan assina o prefácio dessa edição da Cia das Letras e contemporiza Isherwood a partir das suas obras e tempo. Não há dúvida que ao tentar compreender o universo criativo e as relações pessoais e sociais do autor, isso ajuda a assimilar os elementos constitutivos da personalidade de George: o homem gay, cis e do século XX.

Aliás Trevisan retoma a adaptação do cinema de Ford e a considera estatizada demais. Nesse caso, aquele George solitário e até rabugento é substituído por uma figura sedutora e de roupas de grife. E diz ainda: “Não só a imagética exibicionista de Tom Ford mas também sua versão rasa da psicologia do protagonista despiram o romance de toda inquietação” (pag. 16)

Um Homem Só é uma obra necessária e provocadora nesta relação inédita entre protagonista e narrador. Mas o livro ganha potência mesmo nas questões existenciais apresentadas. Tanto para compreender a universalidade da solidão e suas questões do indivíduo quanto no olhar arguto e também misantropo da comunidade LGBT.

E pode-se dizer que há um valor pedagógico ao compreender do que é feita a geração LGBT (aquela que um dia foi classificada como GLS) que hoje envelhece. Em que a moçada contemporânea esnoba, sem conhecer as bases de pensamento e estruturais em que viviam.

A nova tradução é sim literatura gay, mas vai muito além disso, pois mergulha numa história e no ponto de vista de alguém que é marginalizado pela própria sexualidade. Por isso, é atual, necessária e fundamental nas discussões que ora travamos sobre corpos, sexualidades, desejos e identidades.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

The Boys In The Band - Foto: Divulgação/Netflix
The Boys In The Band – Foto: Divulgação/Netflix

Obviamente, e mesmo questionável, assistir Direito de Amar (tradução infeliz do título original) de Tom Ford é uma referência e tem valor. Além de Colin Firth e Julianne Moore estarem lindos e esteticamente montados para a versão, ambos foram indicados ao Oscar em 2010.

Sendo este articulista um homem gay de meia idade, nos últimos anos foi ficando inaceitável conviver com quem ainda diz “bicha afeminada” e mantém o tom de bicha-má, próprio daquela geração ainda chamada GLS, distante das novas letras que assumiram no LGBTQIA+.

Um Homem Só e o filme The Boys In The Band (2020), da Netflix e dirigido por Joe Mantello, revisita a sociedade preconceituosa em que se vivia ali. Portanto, decisões como não-dar-pinta ou parecer-se cis não era apenas um defeito ou demérito, o que faz total sentido atualmente.

Logo, era uma forma de sobrevivência e, por que não?, de resistência. Diante de qualquer possibilidade de conclusão do tema, talvez as duas obras possam ajudar a humanizar e até compreender essa geração que agora envelhece e precisa ser incluída, além de novos estereótipos.

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

1 COMMENT

  1. Resenha muito feliz no sentido de cativar mais um leitor. Certamente me interessa, mais que os modos tresloucados de meus contemporâneos, conhecer histórias sobre figuras comuns, complexas em suas existências ainda que indissociáveis de uma bandeira – ou uma mácula.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here