Resenha: O Enigma do Quarto 622, de Joël Dicker

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Edição de O Enigma do Quarto 622 do Clube Intrínsecos – Foto: Gabriela Gonçalves

Uma obra surpreendente com dezenas de camadas e plot twists: essa é a melhor forma de começar a explicar O Enigma do Quarto 622, de Joël Dicker. O livro foi o romance mais vendido de 2020 na França, chegou ao Brasil em dezembro do mesmo ano, e desde então vem colecionando avaliações positivas da crítica especializada.

A aclamação não é por acaso. Após o sucesso de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e O Desaparecimento de Stephanie Mailer, O Enigma do Quarto 622 é a primeira obra de Dicker que se passa no seu país natal, a Suíça. E e traz uma trama intrincada que passa por temas que vão desde adultério e ganância até conspirações internacionais.

O Enigma do Quarto 622 inova ao trazer uma história dentro de outra história. De início, a obra fala sobre Joël, um jovem escritor que, em meio ao luto e uma desilusão amorosa, viaja para um hotel de luxo nos Alpes Suíços. Lá ele se depara com um mistério: um assassinato foi cometido, há alguns anos, no quarto 622, durante um evento do fictício Banco Ebezner. O autor do crime nunca foi encontrado.

A partir daí a história leva o leitor para uma narrativa fragmentada em diversas linhas do tempo, viajando constantemente do presente para o passado. É neste momento que descobrimos que os eventos que antecederam o assassinato envolvem a disputa pela presidência do banco fictício, um dos maiores da Suíça.

De um lado temos Macaire Ebezner, um ambicioso banqueiro que já tinha todo o seu futuro traçado: assim que seu pai, Abel, morresse, ele herdaria a presidência. No entanto, antes de partir, Abel deixou um testamento alterando a linha sucessória do banco, e deixando a decisão nas mãos de um conselho.

Com a perspectiva de perder a vaga para o carismático consultor Lev Levovich, Macaire corre contra o tempo para convencer os membros do conselho – em especial o ardiloso Sinior Tarnogol – de que é a pessoa certa para o cargo. Tudo isso antes do famoso Encontro Anual, em que o presidente do banco será enfim anunciado.

O livro usa com maestria uma das técnicas mais antigas e famosas da narrativa de mistério: o problema do “lugar fechado”, quando temos um número limitado de suspeitos do crime, e a historia se passa em um lugar de onde é difícil entrar ou sair. A técnica não é nova – Edgar Allan Poe e Agatha Christie a dominaram décadas atrás – mas Dicker dá um jeito de subvertê-la.

Além do mistério de quem cometeu o assassinato, o leitor também passa boa parte do livro sem saber quem foi a vítima. Também outro subterfúgio narrativo que não é exatamente inédito, mas que é bem mais complexo de se realizar.

O livro não é apenas uma carta de amor à Suíça, lugar onde Dicker nasceu e cresceu. É uma homenagem a Bernard de Fallois, o antigo editor de Dicker, que morreu há alguns anos. Joël se coloca na história como o escritor – de mesmo nome – que investiga o mistério do quarto 622. E e enquanto se debruça sobre o enigma, relembra fragmentos de tudo que passou ao lado de Bernard, que foi o grande responsável pela publicação de seu primeiro romance.

Apesar da surpresa de encontrar o próprio autor como personagem de sua obra, esse não é o ponto alto do livro. Embora a obra traga uma mensagem importante sobre luto e memória, nos momentos de maior tensão, quando estamos completamente envolvidos pela história de Macaire e Lev, a última coisa que queremos é ler sobre Bernard.

Mas as críticas a O Enigma do Quarto 622 param por aí. Ao ambientar a sua história na Suíça, Dicker se usa de um dos elementos pelos quais o país é mais conhecido: seus bancos sigilosos, perfeitos para qualquer pessoa que queira esconder dinheiro sujo. Isso dá margem para uma das tramas secundárias da obra, envolvendo o serviço de inteligência suíço.

Apesar de não ser o tema principal da história, a espionagem exerce uma forte influência na narrativa e é responsável por surpreender o leitor quando ele acha que já sabe o que esperar – uma comparação que pode ser feita é com Os Quatro Grandes, clássico de Agatha Christie que traz o famoso Hercule Poirot na investigação de uma conspiração internacional.

Dicker também faz um bom trabalho ao tratar com responsabilidade de temas como abuso e violência doméstica, ao mesmo tempo em que dá uma importância inegável às personagens femininas de sua história, que não são apenas apoios narrativos aos protagonistas homens. O livro discute as consequências de uma aristocracia decadente capaz de tudo para voltar ao topo do high society – inclusive submeter mulheres a casamentos violentos com homens poderosos.

Não é exagero dizer que O Enigma do Quarto 622 apresenta um pequeno mistério a cada página, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa propensa a tantos plot twists impensáveis que o leitor não faz ideia do que esperar. Depois do sucesso inegável de seus outros romances, o livro serve para marcar o nome de Joël Dicker, de vez, na história da literatura de mistério.

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