Resenha Literária: Pai, Pai, de João Silvério Trevisan

Obra acompanha os relatos de João Silvério Trevisan, filho mais velho de José, um homem rude, violento e homofóbico.

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João Silvério Trevisan Foto: Rede Social
João Silvério Trevisan Foto: Rede Social

A individualidade (ou self) é construída no emaranhado das relações e dos chamados complexos humanos, nos quais estão os vínculos familiares. Desde a expulsão de Adão do Paraíso, o consentimento do pai Deus na morte do seu filho na cruz até a clássica história de Édipo Rei, várias histórias ficcionais ou mitológicas passam pela relação entre pai e filho. E o tema do livro Pai, Pai, do autor paulista João Silvério Trevisan, lançado em 2017, é sobre isso.

Diante daquele genitor extremamente inábil nos seus vínculos afetivos, juntando aí a família (pais, irmãos, esposa e filhos), Trevisan faz uma imersão nas (im)possibilidades reais, e até ficcionais, de quem é José, o pai. É exatamente assim que o autor nomeia e chama o procriador.

Já perto dos setenta anos, enquanto me tratava de uma depressão reincidente, comecei inopinadamente a escrever sobre esse homem chamado José, que me marcou com o ferro em brasa do seu sobrenome. Não me perguntei por que escrevia. Apenas decidi ir adiante.” (pag.5)

Escava e reconstrói sentimentos e acontecimentos desde sua infância aos exílios compulsórios para escapulir das figuras interditoras que marcam a vida do autor: pai, Igreja, Deus e o estado brasileiro.

O primeiro exílio é para o seminário, aos dez anos de idade, para estudar. E assim fugir do vínculo com o alcoólatra José e os amigos dele que o chamam de “marica”.

Amarra-se às relações de poder e de impedimentos da Igreja Católica no seminário em São Carlos. E aí, desenvolve um rompimento gradativo com a congregação impetuosa e castradora. A porta-voz do Deus supremo, onipresente e onisciente.

Fora de lá, Trevisan encontra o estado ditatorial brasileiro, parido num estrato colonial, machista, brutal e, mais uma vez, que interdita. Então, esse novo banimento o leva por países da América Latina e pelos Estados Unidos da América.

Por fim, de volta ao Brasil, após o fim da ditadura, o autor tenta restabelecer algum contato com o então José, agora velho e debilitado pelo alcoolismo.

Nesse ciclo final, o autor propõe uma provável redenção ao pai cruel. “Ao minar minha fé e minha esperança, ele me empurrou para saídas inacessíveis no seu mundo. A arte, por exemplo. Grande parte dessa luz sobreviveu em mim graças à arte. Meu pai me deixou o veneno e o antídoto” (pag. 260)

É verdade que em certo ponto o leitor pode se sentir esgotado nessa terapia em praça pública feita por Trevisan. Sem pressa alguma, traz cartas e poesias; conta, narra e indica ensaios psicanalíticos, desde Freud (obviamente!) até o junguiano James Hillman.

Dessa forma, não há como o leitor atento não rever seus próprios complexos familiares diante de tal imersão. Trevisan se salva pela literatura e, de alguma forma, propicia isso ao leitor.

Ainda o autor aproveita para fazer o que se chama de metaliteratura. Assim, indica os processos de gênese de alguns dos seus contos, incluindo da seleção do texto que integrou a coletânea Os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século XX.

Conta inclusive sobre a escrita do seu livro Seis Balas Num Buraco Só, um estudo sobre a crise do masculino e que teve uma edição revisitada e lançada em novembro de 2021. O que é leitura pra lá de necessária e atual para esses dias cheios de machos tóxicos.

O autor de um dos livros basilares da cultura e história lgbtqia+ brasileira, Devassos no Paraíso, também expõe os preconceitos e sistemas excludentes da academia e das instituições literárias. Conta na página 223: “em diferentes circunstâncias, tenho sido desautorizado como escritor de literatura brasileira e relegado a um nicho — o de ‘escritor de viados‘”

Ganhador de três prêmios Jabuti e da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), Pai, Pai é um livro de um escritor bravo e generoso. Sim, ao compartilhar sua dor e redenção, leva o leitor a reboque. É leitura para gente feita e crescida. Ah, e corajosa, é importante informar.

Editora: Alfaguara; 1ª edição (28 setembro 2017)
Idioma: ‎Português
252 páginas

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