Resenha: Em Águas Profundas, de Patricia Highsmith

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Foto: Gabriela Gonçalves

Será que é possível perdoar um assassinato? Será que o crime maior e indefensável pode ser justificado, à luz de constantes golpes contra o orgulho e o ego de uma pessoa acima de qualquer suspeita? Esses são alguns dos questionamentos que permeiam a mente de qualquer um que lê Em Águas Profundas, de Patricia Highsmith.

Lançado em 1957, a obra serve de pontapé inicial para uma série de relançamentos previstos para 2021, pela editora Intrínseca. As edições especiais servem para honrar o legado de uma das maiores autoras de suspense policial e drama psicológico de todos os tempos.

Em Águas Profundas conta a história do casal Victor e Melinda Van Allen, que vivem uma vida confortável em um subúrbio nos arredores de Nova York. Apesar de não nutrirem mais nenhum sentimento um pelo outro, para ambos o divórcio é algo impensável – seja pela filha, pela estabilidade financeira ou pelo ego ferido.

Como uma forma de evitar o divórcio, Vic aceita que Melinda saia com quem bem entender. Tudo muda quando Vic, tentando afugentar o mais recente affair da esposa, inventa que assassinou um dos casos anteriores da mulher. A brincadeira acaba fugindo do controle, ganhando contornos cada vez mais sombrios.

Assim como todo drama psicológico com ares de suspense, Em Águas Profundas é uma obra que se sustenta basicamente em seus diálogos afiados e divagações. Ou seja, quem prefere tramas mais aceleradas e repletas de ação facilmente achará o livro monótono.

Sem contar que a obra não segue moldes tradicionais dos mistérios policiais. Aqui não há dúvidas sobre quem cometeu os crimes, e Highsmith está muito mais preocupada em dissecar as relações e vulnerabilidades de seus personagens, do que em guardar segredos. Não é exagero dizer que até mesmo Hercule Poirot (um dos detetives mais famosos da ficção) seria feito de bobo nesta trama.

Apesar de ser escrito em terceira pessoa, Em Águas Profundas assume um lado óbvio, o de Victor. Se fosse um reality show, as câmeras estariam sempre seguindo Vic, enquanto Melinda permanece nos pontos cegos.

Sobre ela só sabemos o que é pensado por Victor e dito por outros personagens: que é uma mulher sem grande profundidade intelectual, impulsiva, uma esposa e mãe negligente. Os casos de Melinda não são segredos para ninguém e os olhares constrangidos que ela recebe dos amigos de Victor são o suficiente para que a vejamos como uma pessoa de caráter duvidoso e digna de pena.

Victor é visto por um olhar bem mais gentil. Ele é amável com os amigos, uma ótima companhia em festas, cuida da casa e da filha enquanto a esposa está mais preocupada com seus amantes, e aceita as traições.

Ao mesmo tempo em que é visto como um coitado, Vic também é considerado um homem apaixonado, que espera pacientemente essa fase “rebelde” de Melinda passar para que os dois possam ter uma vida feliz juntos.

No entanto, o livro também mostra doses do que se passa na cabeça de Victor. É por meio de seus pensamentos que percebemos que o homem não nutre nenhum amor pela mulher. Pelo contrário, conforme a história vai ganhando contornos cada vez mais sinistros, o protagonista se anima com a infelicidade da esposa.

Águas Profundas coloca o leitor em um conflito moral. Victor passa boa parte sendo humilhado pela esposa, até o momento em que explode e comete um crime. Apesar de não ter agido de caso pensado, ele não tem nenhum ressentimento ou medo em relação ao ato. Ao invés disso, sente-se sente cada vez mais confiante e de bem consigo mesmo. De forma íntima, Highsmith apresenta ao leitor o nascimento de um psicopata.

Só que, no momento em que Victor é realmente exposto, o leitor já comprou sua narrativa e está do seu lado. O crime, então, se torna apenas um acidente de percurso. Victor pode ser ruim, mas foi provocado. De repente, começa-se a relativizar o pior do crimes, enquanto demonizamos o adultério, a humilhação e o ego ferido.

Em Águas Profundas vai até as últimas consequências para levar o leitor a torcer pelo vilão. E perceber-se desenvolvendo empatia por alguém como ele é um sentimento extremamente desconfortável.

O ambiente da obra também causa desconforto. O subúrbio americano, tão retratado em filmes, livros e séries como um lugar opressivo e de onde se deseja fugir, é um palco certeiro para esse tipo de drama psicológico repleto de ambiguidades.

O lugar passa segurança, por conta dos fortes laços de Victor com os outros habitantes, mas ao mesmo tempo dá uma sensação incômoda de que alguém está sempre espreitando nas sombras.

O livro de Highsmith cria um pacto profundo entre leitor e vilão, ao mesmo tempo em que discute temas atemporais, como o adultério e os relacionamentos despedaçados. Enquanto internaliza os sentimentos mais cruéis de seu protagonista, a obra coloca o leitor em uma situação delicada, o obrigando a confrontar suas próprias contradições. Por isso, a leitura é pra lá de interessante.

Em Águas Profundas – Patricia Highsmith, Roberto Muggiati (Tradutor)
Editora Intrínseca – 1ª edição (3 dezembro 2020)
304 páginas

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