Quatro perguntas para a atriz Dinah Feldman

Atriz está em circulação com a contação de história Yentl, A Menina Que Queria Estudar e também com oficinas que tratam sobre a menstruação.

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Yentl - Foto Rogerio Alves
Yentl - Foto Rogerio Alves

Em 28 de maio deste ano, a Unicef lançou o estudo Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos, revelando que 713 mil meninas brasileiras vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em seu domicílio e, mais de 4 milhões, não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.

Diante de números tão aterradores, o tema não passaria em branco pela ótica artística, afinal, entre inúmeras importâncias da arte é que ela é feita para questionar o tempo em que vivemos, com todas as complexas questões sociais.

E foi a partir a partir de dados surpreendentes e de narrativas vindas da literatura de autora e autores que Dinah Feldman, ao lado da diretora Malu Bazan e também dos artistas Lucas Coimbra e Jefferson Bueno, idealizaram a contação de história Yentl, A Menina Que Queria Estudar. O conto é do escritor polonês Isaac Bashevis Singer (1904 – 1991), Prêmio Nobel de 1978.

Um dos pontos abordados por Feldman é o fato de muitas meninas deixarem de ter sua vida normal por conta da menstruação e por diversos fatores que acompanham essa condição.

Outro ponto importante é da demora no diagnóstico que muitas mulheres acabam sofrendo: “as meninas muitas vezes deixam de estudar porque elas não tem dinheiro para absorvente, ou porque elas têm muita cólica e um diagnóstico decente de saúde às vezes demora de quinze a vinte anos – muitas meninas até possuem endometriose – e com isso, elas deixam de estudar. (…)Há até histórias de mulheres que possuem endometriose, que até cometem suicídio, porque acaba casamento, acaba carreira e até deixam de se graduar”, pondera a atriz.

A atriz contou mais detalhes ao e-Urbanidade sobre o projeto.

#1 – e-Urbanidade: A contação de história Yentl, A Menina Que Queria Estudar foi inspirada tanto em um conto, como também em narrativas e poemas de Adélia Prado, Renata Stein, entre outros, assim como em vivências suas. Como essas narrativas se cruzam em uma história de uma menina que finge ser homem, para realizar o sonho de poder estudar?

Dinah Feldman: A estrutura do espetáculo segue a narrativa central do conto, no qual Yentl se finge de homem para estudar. Durante os ensaios, estavam à mão também esses outros textos, fruto da pesquisa da última década sobre a donzela guerreira e o universo feminino. E comecei a trançar de forma natural esses diferentes universos narrativos.

Em alguns momentos, para descrever o que acontece internamente com a personagem, entra um poema contemporâneo. Citações entram como comentários durante a história narrada. Em uma cena, quando Yentl cita algo que ela leu sobre a Índia, entra uma história que aconteceu lá e que dialoga com a questão central do conto – como mulheres são impedidas de existir da mesma maneira que homens.

Os ensaios foram fundamentais para experimentar esses trânsitos narrativos. E esse tecido dramatúrgico foi bordado artesanalmente a partir das leituras, inquietações e materiais reunidos ao longo da pesquisa.

#2 – Durante a pandemia você realizou diversas lives sobre o tema da menstruação, que ainda é um tabu em nossa cultura, mostrando que falta um espaço de discussão sobre o assunto. Na sua opinião, por que você acha que a sociedade ainda lida com tanto preconceito a um tema que é natural à todas as pessoas que possuem útero? 

D. F – Eu gostaria de saber a resposta. Mas eu parti das questões que a experiência me trouxe e das histórias que ouvi de tantas mulheres.

Nós discutimos tanto sobre educação sexual, mas hoje acredito que, antes, é preciso uma educação menstrual para todos os gêneros. A vergonha é algo que me marcou desde a menarca e vejo que as meninas ainda sofrem com ela. E vergonha de quê? A menstruação é um processo fisiológico do corpo, assim como a urina, fezes, gases e até respirar. A menstruação, inclusive, é um dos sinais vitais, pelo qual a mulher pode “ler” se sua saúde está bem, ou não.

Quando o menino entra na puberdade, ele ganha um passaporte para um mundo de prazer e virilidade. Mas quando a menina entra na puberdade, ela já recebe um rol de advertências: agora ela pode engravidar e tem que se comportar.

Temos preservativos distribuídos gratuitamente nos postos de saúde, estações de metrô. Mas não temos absorventes na cesta básica, sendo que a menstruação é uma certeza mensal, salvo questões de saúde que impeçam o fluxo. Conhecer o ciclo menstrual é conhecer e se conectar de uma forma profunda com o próprio corpo.

Por mais que avançamos nas discussões na sociedade em relação aos gêneros, as mulheres seguem sendo controladas a partir dos seus corpos. O sangue menstrual é considerado sujo em muitas religiões e na sociedade como um todo. Uma mulher vazar é um grande delito. Assim como uma mulher amamentar em público. Ou gozar com secreção em uma transa. Somos educadas de forma alienada dos nossos próprios corpos, para que eles não nos pertençam.

Veja só, ainda hoje, para fazer uma laqueadura ou colocar um dispositivo intrauterino, em alguns casos, é pedido o consentimento do companheiro ou marido. Nosso discurso se emancipou, mas na prática ainda uma grande parcela de meninas e mulheres segue sem acesso a produtos menstruais para poder sair para estudar ou trabalhar. Ou freada pela vergonha. Ou por questões físicas que demoram muito tempo para ter a atenção devida da saúde da mulher.

Conquistamos o discurso, e não em todos os lugares. Mas vejo que a prática ainda precisa de muito empenho. eu acredito na educação e na arte, para ser meio desse processo.

#3– Vocês já realizaram algumas apresentações circulando por diversos equipamentos culturais na capital paulista, junto com as oficinas. Qual foi a reação do público ao assistir uma contação de história e participar de oficinas com essa temática? Houve algum tipo de estranhamento ou receberam bem a proposta?

D. F – Fiquei surpresa com a boa aceitação. Tive retornos emocionantes de mulheres que se identificaram de maneira profunda com a história e com os textos poéticos que inserimos, relatando que as palavras dialogaram com questões individuais delas. E eu tenho certeza que o tema menstruação é para qualquer pessoa. A contação é uma forma de se relacionar diretamente com o público. Em duas apresentações, eu tive interlocutores homens que seguiram de maneira tão forte a história, que parecia um diálogo entre nós.

Contar histórias é parte da natureza humana. Um dos meus desejos com esse trabalho era proporcionar essa experiência para o público adulto. E tem sido potente.

#4 – Na sua opinião, que fatores contribuem para a pobreza menstrual e como as artes cênicas podem ajudar a elucidar o assunto?

D. F – Eu menstruo desde os 11 anos. Faço 44 anos hoje, 15 de julho. Ou seja, 33 anos de ciclo menstrual, mês a mês. Quando o assunto me chamou a atenção, me dei conta que em tantas narrativas que vi, assisti, ouvi ou li, a menstruação não aparecia. Como é possível?

Penso na tal da representatividade que falamos tanto atualmente. A gente menstrua, tudo muda no corpo e na vida, e não podemos falar, ver , trocar sobre isso? A pobreza menstrual começa aí. Muitas meninas, em relatos que colhi e li, achavam que estavam doentes quando menstruaram pela primeira vez. A informação é uma parte importante, mas a experiência também tem que ser acolhida.

A arte tem o poder de dialogar pela sensibilidade. Quando eu comecei a estudar sobre menstruação, pensei em fazer medicina, para poder ter uma ação no mundo. Mas isso me tomaria, no mínimo, 10 anos pra começar. Depois, pensei em nutrição, também não seria algo imediato. Parei, respirei e me lembrei que passei a vida estudando teatro para ter esse diálogo sensível com o mundo. E a partir daí tô mexendo o caldeirão das narrativas para trazer o assunto pra jogo.

Ficha Técnica

Adaptação e intérprete: Dinah Feldman
Direção Artística: Malú Bazán
Direção Musical: Lucas Coimbra
Músicos em cena: Jefferson Bueno e Lucas Coimbra
Cenário e figurino: Éder Lopes
Foto e vídeo: Rogério Alves
Interpretação em LIBRAS: Juliana Gonçalves
Oficina Papo de Menarca: Dinah Feldman
Oficina de Confecção de absorvente sustentável: Michele Carvalho, do Ateliê Pequenas Fofuras
Direção de Produção: Mariana Novais – Ventania Cultural
Idealização e Realização: Dinah Feldman e coletivo Culturas em Movimento

Serviço

Yentl, a menina que queria estudar

Dias 21 e 22 de julho, às 19h.
Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso – Av. Dep. Emílio Carlos, 3641 – Vila dos Andrades.

Dia 29 de julho, às 15h.
Biblioteca Pública Hans Christian Andersen – Av. Celso Garcia, 4142 – Tatuapé.

Oficina Papo de Menarca
Inscrições através do link: https://forms.gle/GE3t2m1UpMbZbCcg9

Dias 20, 21 e 22 de julho, das 14h às 16h.
Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso – Av. Dep. Emílio Carlos, 3641 – Vila dos Andrades.

Dias 27, 28 e 29 de julho, das 10h às 12h. Biblioteca Pública Hans Christian Andersen – Av. Celso Garcia, 4142 – Tatuapé.

Oficina de confecção de absorvente sustentável
Inscrições através do link: https://forms.gle/eXZVAseVRZ8jHFAs5

Dias 19 e 20 de julho, das 11h às 13h.
Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso – Av. Dep. Emílio Carlos, 3641 – Vila dos Andrades.

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