Panorama do teatro paulistano no primeiro semestre de 2021

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Iniciamos o novo ano com certa esperança que viriam dias melhores, porém a falta de vacina e a chegada das mais de 500 mil vítimas de Covid-19 tornaram o primeiro semestre de 2021 ainda muito duro. E difícil também para as artes e o teatro. Algumas montagens foram aos palcos com apresentações presenciais, seguindo padrões sanitários rigorosos. Mesmo assim, cancelaram essas temporadas com a chegada da segunda onda da pandemia que levou os números diários a mais de 3 mil mortes.

Aviso Prévio - Foto: Heloisa Bortz
Aviso Prévio – Foto: Heloisa Bortz

Dentre os tantos que se foram, a cena paulistana e nacional despediu-se de Ismael Ivo, Gésio Amadeu e tantos outros. Paulo Gustavo e sua comédia nos fizeram perder além de um comediante, um membro da família. Coisas das artes!

E Nicette Bruno, a pequena atriz que era um monstro nos palcos, se foi ali, quase ao fechar das cortinas de 2020. Uma perda irreparável! E foi também sua companheira de cena, Eva Wilma, com complicações de um câncer. Sem dúvida, não tem sido um tempo fácil.

As leis de incentivo garantiram montagens e, porque não, a sobrevivência de muitos dos seus criativos. A Lei Aldir Blanc, que apoiou financeiramente vários projetos, foi fundamental. Inclusive a SP Escola de Teatro realizou a primeira Mostra Aldir Blanc com produções de todo o país e com mesas redondas em que o e-Urbanidade foi gentilmente convidado.

Quanto a dramaturgias, já por algum tempo os palcos paulistanos vinham apostando nas distopias e tornaram-se frequentes no último semestre. Os Fins Do Sono, com direção de Francisco Turbiani, do Coletivo Cardume, inspirou-se no polêmico livro de Jonatham Crary para apresentar um lugar sem noite. Portanto, nada mais atual do que mergulhar nas teorias da sociedade do cansaço.

(Ouça o podcast do Rolê Urbano - #37 - Sociedade do Cansaço que discutiu o assunto e entrevistou o diretor da peça.)

Não faltaram tentativas presenciais. Simplesmente Clô, texto de Bruno Cavalcanti que apresenta a trajetória de Clodovil Hernandes, interpretada com semelhança impressionante por Eduardo Martini, deve ter temporada estendida, pois merece encontrar mais público. Luccas Papp felizmente continua a todo vapor. Ao lado de Leonardo Miggiorin, em mais uma das suas dramaturgias, estreou A Bicicleta de Papel.

A Bicicleta de Papel - Foto: Davi Gomes e José Sampaio
A Bicicleta de Papel – Foto: Davi Gomes e José Sampaio

Ainda no presencial, o casal Fernanda Couto e Kiko Vianello encararam Aviso Prévio, texto de Consuelo de Castro, dirigido por Clara Carvalho. Foi uma daquelas boas montagens com poucos elementos em cena, direção inventiva e elenco maduro.

Tal plenitude também foi vista em Para Duas com Karin RodriguesChris Couto e Cláudio Curi. A montagem teve curta passagem no Teatro Sérgio Cardoso, seguindo uma temporada iniciada remotamente no ano passado.

E aí, o cineteatro foi um dos formatos mais preeminentes, tanto com produções feitas especialmente para apresentar com hora marcada em alguma plataforma, tanto com a apresentação gravada de uma temporada anterior. O monólogo com Fernanda Azevedo, Os Grandes Vulcões, sobrepôs realidade e não-ficção com competência milimétrica, tomando partido de um discurso do escritor Harold Pinter (1930 – 2008).

Sede de Eugene O’Neil reforçou a pesquisa da Cia Triptal nos clássicos do realismo, trazendo os náufragos interpretados por Camila dos Anjos, Fabrício Pietro e Diego Garcias. Por sua vez, Baby, o solo escrito e interpretado por Erika Puga, além de rápido e divertido, nos levou para outros assuntos da vida, aquela em que a gente vivia além das máscaras, álcool em gel e calendário de vacinas. Naquela vida que podíamos bater na porta do amor, depois de um baile de Carnaval, quando levávamos um pé na bunda.

E ainda em Sônia – Um Ato Por Tolstói, Mariana Muniz interpretou com consciência a esposa de Liev Tolstói, autor de clássicos como Guerra E Paz e Anna Karênina. E personagens históricos também se encontraram em Freud-Einstein, Maio de 1933, cartaz da companhia Circo Mínimo, num filme bem produzido, em que a estética circense ajudou na compreensão do denso texto.

Por sua vez, as apresentações feitas ao vivo, com o elenco postado em janelas do Zoom continuaram frequentes. Terra Medeia revisitou o clássico de Eurípedes, atualizo pela sueca Sara Stridsberg, numa versão precisa e incrementada a partir do não-lugar imposto aos refugiados.

Pink Star - Foto: Sílvio Eduardo
Pink Star – Foto: Sílvio Eduardo

Destaque para as experimentações d’Os Satyros que, além de inaugurar em definitivo uma plataforma online para manter-se pós-pandemia, fez teatro remoto e explorou linguagens. Sua versão de Pink Star, peça montada em 2017, com dramaturgia Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez mergulhou na fluidez da sexualidade, amparada nas reflexões de Judith Butler e Paul B. Preciado. As atividades do coletivo devem ser seguidas pelo público.

Discutiu-se sobre novas possibilidades das artes cênicas. Eventos como o Ocupação FaroFFa e Crítica e Mediação Teatral, promovido pela FALE/NELAP/UFMG, mostraram a potência da criação e da crítica em tempos difíceis.

Ainda a atriz Sofia Boito, ao lado Carolina Mendonça e Miguel Caldas assinaram Nós não estamos em nenhum outro lugar, numa criação auditiva potente de confinamento. Acredita-se que as peças sonoras apareçam com mais frequência daqui para frente, algo que companhia brasileira de teatro já vinha se dedicando.

Aqui e ali já se veem atores, atrizes e equipe técnica fotografando suas carteiras de vacinação e prometendo voltar presencialmente em breve. Por isso, há uma esperança de que o segundo semestre termine com algumas estreias.

Há de se dizer que o e-Urbanidade procurou apoiar, pautar, agendar e colaborar com a discussão de algumas montagens. Sim, poderia ter prestigiado mais, porém tem uma verdade aqui: esses formatos possíveis causam certo esgotamento ao espectador no decorrer do confinamento.

Que o segundo semestre venha, antes de mais nada, com vidas. Afinal, seus artistas mostraram-se criativos diante da diversidade e o público lá esteve. Somos testemunhas de dias terríveis e que, além de um vírus, resistimos a um governo federal vil e perturbador. E felizmente a arte e o teatro mostraram-se fortes e inventivos.

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