Panorama do teatro paulistano no 1º semestre de 2022

O e-Urbanidade registra os espetáculos que estiveram em cartaz a partir de suas concepções, temas e histórias.

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A primeira temporada de 2022 marca em definitivo a volta do teatro presencial na capital do estado de São Paulo. O público retornou ainda com a obrigação do uso de máscara facial, e mesmo liberada em espaços fechados, continuou sendo um acessório comum nas plateias. Mesmo que isso deva lá ter impacto na percepção dos artistas sobre a reação do público, algo que foi dito por Cássia Kis quando esteve no Teatro Vivo, em fevereiro.

Clássicos

Foi um semestre de grandes clássicos e textos. A atriz e diretora Clara Carvalho abriu a temporada dirigindo Brian Penido Ross e grande elenco em Escola de Mulheres de Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673), ou melhor, Molière. Meses depois, no mesmo palco da Aliança Francesa, Henrik Ibsen (1828-1906) foi montado com elenco diverso e acertado em Um Inimigo do Povo, numa direção singular de  José Fernando Peixoto de Azevedo.

A temporada do Aliança prosseguiu com quatro textos curtos do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989), em que a diretora Mika Lins denominou de Play Beckett. O teatro minimalista e não aristotélico de Beckett ganhou cores e silêncios para evidenciar os absurdos e o desamparo humano.

O autoengano humano foi tratado em Henrique IV, de Luigi Pirandello (1867-1936), pelo diretor mineiro Gabriel Villela, em mais uma de suas encenações de estética impecável, com figurinos sempre caprichados.

E o semestre terminou com um dos clássicos mais impressionante e perturbador do universo psicanalítico e familiar da dramaturgia norte-americana, com Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O’Neill (1988-1953), com direção de Sérgio Módena, de interpretações primorosas, com destaque para Ana Lúcia Torres.

Duas montagens voltaram ao poema de João Cabral Neto. Elias Andreato dirigiu a remontagem da versão clássica de Morte e Vida Severina, em que as músicas emblemáticas de Chico Buarque ganharam nova tessitura na direção musical de Marco França.

E aí, o grupo pernambucano Magiluth, sempre criativos e propositivos, produziram Estudo Nº1: Morte E Vida, com direção de Luiz Fernando Marques, o Lubi. Atualizaram a morte diária pela seca pela uberização, numa das montagens mais impactantes e cheias de boas e importantes discussões sobre o mundo capitalista pós-pandêmico.

Inéditos

Os textos inéditos também marcaram o semestre. Foi importado e traduzido o texto da estadunidense Cindy Lou Johnson, em Alaska, numa das montagens mais lindas e bem acabadas dessa temporada, dirigida pelo Rodrigo Pandolfo.

Já o texto Mike Barlett, um autor pra lá de conhecido, foi montado numa produção vultosa, com elenco e direção experiente, e que infelizmente decepcionou em Terremoto.

Dentro os brasileiros, Gustavo Pinheiro, em A Lista, ofereceu uma comédia divertida, retratando as incongruências diárias da recente pandemia da covid-19, estrelada pela grande estrela da televisão Lilia Cabral.

Zé Henrique de Paula e Anna Toledo apresentaram dois monólogos confessionais em Os Filhos, em que a paternidade foi o ponto de partida para tratar dos conflitos e da construção das afetividades.

E Luccas Papp segue a todo vapor. MEN.U explorou a selvageria humana no campo da gastronomia, numa montagem leve e dirigida por Ivan Parente. Continuemos seguindo o rapaz.

Dramaturgismo

O dramaturgismo coletivo, com suas questões próprias sobre nossa época, de um país em colapso, esteve em Sem Palavras com a companhia brasileira de teatro, direção e texto de Marcio Abreu.

Jé Oliveira lançou-se nas questões da América Latina em Mirar: Quando Os Olhos Se Levantam. Já Renato Tunes mergulhou em relatos de homens queers, com mais de 60 anos, em Homens Pink, para dar visibilidade e reconstruir os marcos históricos e sociais de homens gays nascidos nas décadas de 1960 e 70.

Com certeza uma das montagens mais marcantes deste primeiro semestre foi O Que Meu Corpo Nu Te Conta. Dezesseis artistas nus, do Coletivo Impermanente, contaram (ou ficcionaram) histórias suas (ou contadas). Então, o dramaturgismo e direção de Marcelo Várzea explorou narrativas e corpos para tratar sobre homofobia, gordofobia, racismo.

Ditadura militar

Se no início do governo Bolsonaro a cena paulistana trouxe novas versões dos textos de Bertold Brecht (1898-1956), com objetivo de evidenciar o fascismo e suas facetas, a proximidade da eleição para a presidência fez com que ditadura fosse um tema usual.

Maria Thereza e Dener, direção de Ricardo Grasson, rememorou os tempos duros na relação da primeira dama e do costureiro paulistano, com destaque no exílio compulsório da família Goulart.

Por sua vez, o Grupo Tapa produziu Papa Highirte, um dos textos mais potentes de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, e proibido pela censura da ditadura militar, com direção de Eduardo Tolentino de Araújo.

Adaptações literárias

As transposições também estiveram no palco neste semestre. O livro A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa, último livro publicado por Clarice Lispector (1920-1977), recebeu uma versão assinada por André Paes Leme. Com músicas de Chico César, estrelada por Laila Garin, foi uma das coisas mais lindas de se ver nessa temporada.

Dan Rosseto adaptou o texto teatral do poeta e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898- 1936), numa versão criativa e jovem, e marcou o primeiro trabalho da Cia 4 Nós. Uma companhia nova e que deve ser observada.

O dramaturgo norte-americano Mark. St. Germain partiu do livro Deus Em Questão, de Armand M. Nicholi Jr., para promover o fictício encontro entre Sigmund Freud (1856-1939) e o cristão C.S. Lewis (1898-1963), em A Última Sessão de Freud. A peça dirigida Elias Andreato caiu no gosto do público e já mudou quatro vezes de teatro para novas temporadas.

Duas adaptações voltaram aos palcos e, se não foram vistas, devem ser seguidas. A autobiografia de Eliana Zaqui (ou Lili), publicada em Pulmão De Aço e que ganhou versão teatral em A Valsa De Lili. O solo com Débora Duboc e direção de Débora Dubois é uma das coisas mais sensíveis e tocantes de se ver.

Memórias Inventadas, do poeta matogrossense Manoel de Barros (1916-2014), voltou por aqui em Meu Quintal É Maior Do Que O Mundo. O monólogo é adaptado por Cassia Kis Ulysses Cruz, também diretor.

Depois de uma estreia remota, Pós-F, solo com Maria Ribeiro, direção Mika Lins fez temporada presencial. A peça parte dos textos do livro Pós-F, Para além do masculino e do feminino, vencedor do Prêmio Jabuti em 2019, escrito por Fernanda Young (1970-2019).

Veteranos dos palcos

E a temporada foi de grandes atores em cena. A Pane, direção Malú Bazán e texto de Friedrich Dürrenmatt (1921- 1990), ostentou um elenco maduro, num texto memorável e estrelado por Antonio Petrin.

Por sua vez, Juca de Oliveira escreveu e esteve em cena na comédia A Flor Do Meu Bem Querer, direção Léo Stefanini, numa comédia esquemática, mas com divertidas críticas à política contemporânea.

O veterano ator Cacá Carvalho, dirigido por Márcio Medina, trouxe Leonardo da Vinci – a Obra Oculta, texto do dramaturgo italiano Michele Santaremo. No palco incluiu os elementos do chamado teatro mínimo, numa montagem singular que tratou da vida, pulsão e sentimentos universais.

Exercício não findo

Obviamente este panorama está bem longe de esgotar todas as possibilidades deste semestre festivo e revigorante, após dois anos de teatros fechados e uma situação extremamente difícil à classe teatral.

Por isso, é preciso dizer que foram muitos trabalhos inesquecíveis e potentes e que a efemeridade própria das artes da cena seja de alguma forma gravada neste breve compêndio.

Assim, seguem nos próximos dias nossa lista semestral com os destaques do teatro paulistano. A tarefa não foi das mais fáceis, pois em cada espetáculo assistido novos nomes foram tomando o topo das distintas listas.

Portanto, o que importa é que esse é o momento de comemorar e agradecer pelo trabalho e resistências desses intrépidos artistas.

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