Olhares De Perfil – O Mito de Greta Garbo, de Roberto Cordovani

A peça com direção de Roberto Cordovani, com Ruben Gabira e Alan Ferreira, usa o mito de Greta Garbo para falar sobre ambiguidade.

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Olhares de Perfil - Foto: Marisa Pereirinha
Olhares de Perfil - Foto: Marisa Pereirinha

A montagem Olhares de Perfil – O Mito Greta Garbo volta aos palcos paulistanos sob boas expectativas. O premiado texto de Alejandra Guibert e Roberto Cordovani, que também interpreta a protagonista e dirige, não é sobre a atriz sueca que fez sucesso em Hollywood até os anos de 1930. Mas, sim sobre a ambiguidade que provavelmente seja uma das maiores impossibilidades existenciais do homem moderno

A história é de Greta Gustafsson, uma atriz que se apresenta em um pequeno teatro em Nova Iorque. Lá ela responde cartas sentimentais e assume uma persona enigmática. O texto apropria-se do aparecimento real na off-Broadway, na década de 1940, dessa persona que usava um dos sobrenomes de Greta (Greta Garbo Gustafsson), enquanto a grande atriz tinha sumido dos olhos dos produtores da Metro e da mídia.

Conta-se que a diva, homossexual, estava cansada de interpretar personagens rasas e fêmeas fatais, o que levou a especular que, na verdade, a tal figura andrógena no pequeno teatro era própria dama. Lugar em que podia dedicar-se a personagens mais complexas como Hamlet, Dorian Gray e São Francisco de Assis.

Nesse lugar impreciso e de poucas respostas, atritam um manequim e a amiga/amante, que escreve os textos levados ao palco, interpretados por Ruben Gabira e ainda o belo fotógrafo Jorge, vivido por Alan Ferreira.

OLHARES DE PERFIL – O MITO GRETA GARBO - Foto: Marisa Pereirinha
OLHARES DE PERFIL – O MITO GRETA GARBO – Foto: Marisa Pereirinha

A partir daí, a dramaturgia coloca em indeterminação temas como masculino e feminino, mito e realidade, divino e gente ordinária, amor e desejo, verdade e mentira. Num texto muito bem atado, as ambivalências tão difíceis de se conviver em uma sociedade determinista e cartesiana, do penso-logo-existo, são colocadas em xeque.

Greta Gustafsson é a personificação do desejo de romper com essa coletividade restrita, mas é sucumbida tanto pela atração por Jorge, quanto pela cobrança por uma definição nítida sobre tais temas, feita pela amiga. Portanto, pode-se dizer que a dramaturgia explora conceitos mais amplos sobre a complexidade humana de Edgar Morin, como ainda a intrincada teoria queer de Judith Butler.

Partindo daí, a estética proposta também por Cordovani, como encenador e iluminador, aplica-se na dualidade do preto e branco, escuro e iluminado. A simplicidade do jogo de sombras e dos elementos cênicos austeros datam e colaboram na compreensão do texto.

E na composição do universo dos anos de 1940 de Garbo, colaboram ainda Suely Portela, na restauração do imagético e belo figurino da protagonista, Anderson Bueno no visagismo, Fabiano Monreal, cabelos, e Juliana Monreal, sobrancelhas. 

Na preparação do elenco há também uma uniformidade dos intérpretes, mesmo diante das possibilidades distintas oferecidas a eles. Ferreira apropria-se do tom impostado dos atores nas décadas de Garbo para compor o galanteador fotógrafo que se aproxima da protagonista. Gabira assume, mesmo calado, o alter ego de Gustfsson e domina a cena no último ato.

E mesmo depois de 1800 apresentações, em nove países e 14 prêmios internacionais, Cordovani é certeiro e, é preciso dizer, sublime. É vigoroso, mas também ínfimo. É duro, mas sensível. É lascivo, mas casto. Portanto, assume para si todas as contingências das ambivalências impostas na montagem.

Se Greta Garbo fugiu da mira da Metro para assumir a complexidade da sua existência, Olhares De Perfil – O Mito Greta Garbo tem o efeito pedagógico de colocar o espectador sobre a risca dos limites sociais.

Como a ambiguidade é um conceito tão pouco usual da modernidade, que alguns ainda gritam e fazem passeata em favor do status quo da única definição, Olhares De Perfil torna-se necessária e inquietante. Por isso, não pode ser perdido neste retorno gradativo das apresentações presenciais em São Paulo.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

Além da já comentada literatura de Morin e Butler, seguem alguns produtos culturais que dialogam com a peça:

Documentário Revelação/ Netflix. O programa investiga a presença dxs transgênerxs na cena de Hollywood e na televisão norte-americana. Importantes nomes trans do showbiz contemporâneo, como Laverne Cox, MJ Rodriguez, Chaz Bono, Jamie Clayton e Leo Sheng, comentam sobre a relação de ambiguidade de personagens clássicos em seus processos pessoais de reconhecimento.

Judith Butler e a Teoria Queer (de Sarah Salih). É um bom ponto de partida para quem quer compreender os conceitos da pensadora e pode atrapalhar-se nas obras originais e densas. Seus conceitos sobre ambiguidade, gênero, sexo, sexualidade e linguagem ganham importância nos estudos de feministas, gays, lésbicos e queer. Além dos termos chaves, a autora examina os debates e críticas sobre esse conteúdo, oferecendo roteiros complementares.

Serviço
De 31/07 a 17/10, sábados às 20h e domingos às 19h. (clique aqui para saber mais)
Indicação etária: 16 anos
80 minutos

Ficha Técnica
Texto – Alejandra Guibert e Roberto Cordovani. Direção – Roberto Cordovani. Elenco – Roberto Cordovani, Ruben Gabira e Alan Ferreira. Figurino – Acervo C.I.T Arte Livre. Restauração Figurino – Suely Portela. Visagismo – Anderson Bueno. Cabelos – Fabiano Monreal. Sobrancelhas – Juliana Monreal. Trilha Sonora e Iluminação – Roberto Cordovani. Mixagem – Bruno Portela. Responsável Técnico e Supervisão da Temporada – Victor Nunes. Administração do Projeto – Michelle Gabriel. Assistente – Felippe Limonge. Designer Gráfico e Foto Cartaz – Bruno Portela. Fotografias de Cena e Vídeos – Marisa Pereirinha. Videomaker – Tácio Murillo. Mídias Sociais – Rita Malot. Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta.

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