O Estranho Mundo de Grimm, direção Ronaldo Saad

Grupo de atores e atrizes amadores do Centro de Pesquisa em Arte (CPA) atualiza fábulas clássicas em O Estranho Mundo de Grimm. 

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O Estranho Mundo de Grimm - Foto: Lucival Almeida
O Estranho Mundo de Grimm - Foto: Lucival Almeida

Terminar 2022, um ano tão desafiador para as artes da cena, assistindo a montagem dos e das jovens do Centro de Pesquisa em Arte (CPA) é alentador e estimulante. O Estranho Mundo de Grimm é a atualização dos contos A Gata Borralheira, João e Maria e A Bela Adormecida pelo viés das identidades diversas e do machismo estrutural presente nessas histórias universais, numa montagem criativa e atual, mesmo diante de alguns acertos a serem feitos.

Os moradores do condado de Hesse-Darmstadt, atual Alemanha, Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) Grimm escreveram fábulas infantis, constituídas por reis, princesas e príncipes, fadas e madrastas malvadas. Tudo isso numa forma de registrar e perpetuar narrativas folclóricas do seu e de outros povos.

A partir daí a dramaturgia de Ronaldo Saad, Vinicius Nunes, May Crepaldi e Alessandro Lopes avança numa releitura de alguns desses clássicos, propondo novas questões.

Assim, príncipes e fadas têm suas sexualidades e expressões integradas à fluidez da teoria queer. As princesas, como aquelas inesquecíveis das adaptações de Walt Disney, encobrem o machismo dispondo as mulheres sempre passivas e a serem salvas por homens da realeza.

Os três quadros não são uniformes nas apresentações das jornadas, mas têm a comédia como elemento central. A Gata Borralheira é a mais descritiva e cheia de peripécias, tanto com as reviravoltas já conhecidas, quanto em novas nuances. 

Diante do ineditismo de um príncipe longe do estereótipo do macho cisgênero, a dramaturgia poderia dar alguma autonomia redentora à Borralheira e propor uma grande virada ao final. Mas, isso é meter-se na história alheia e cada contador tem lá seus pressupostos.

João e Maria é mais curta e o drama dos meninos abandonados na floresta é solapado por uma bruxa perversa. Aqui é a pobreza, essa que está estampada nas ruas do centro de São Paulo, feita de falta de oportunidade e desemprego, o ponto nevrálgico. E um caldeirão cheio dessa desigualdade, que poderia ser chamado de Brasil, é montado e a vilã aniquilada.

Por fim, A Bela Adormecida é uma cena curtinha, sem qualquer jornada e é preciso que o espectador já conheça a história, o que é óbvio. Então, dois monólogos são apresentados sobre a fêmea que aguarda pelo homem, salvador, belo e cisgênero, porém violento e estuprador. Falta dramaturgia nessa propositura tão original.

Perante o trabalho de um grupo amador, há honestidade e verdade nas interpretações, porém são irregulares. Nas personagens oblíquas, a máscara da madrasta perversa, as meias-irmãs folgadas e as bruxas asquerosas são os primeiros registros notórios, o que é alcançado aqui.

Logo, a linearidade por parte de alguns intérpretes não acostumados a tarefas tão complexas está presente, mas isso não chega a ser um ponto fraco de O Estranho Mundo de Grimm

Para dizer a verdade é isso que estimula o assistidor costumas de teatro. Afinal, é esse sangue-no-olho, sinceridade e intuição dos artistas iniciantes em encarar personagens diante de um público, de amigos e desconhecidos, que engrandece e reforça o poder ancestral das artes da cena. 

Tem a ver com a potência motriz das artes, que coloca seus realizadores a pensar, mexer-se, esforçar-se, estruturar-se, rivalizar-se e se jogar nessa arena de medos e bravuras para criar.

Saad, que assume várias funções, inclusive como diretor, apoia o elenco na compreensão de suas personas e absorve o carisma e o talento de cada intérprete para compor o tom divertido e despretensioso da comédia. Propõe marcações sem grande firulas e usufrui de estética de vaudeville, com coros, coreografias, assinadas por Tilly Garcia, e apoteose.    

Sendo uma sala de apresentação tão tradicional da cidade de São Paulo, o Commune precisa atualizar e renovar alguns dos seus equipamentos, o que limita até mesmo os grupos profissionais, como no recente Olhares De Perfil – O Mito de Greta Garbo que fez temporada por lá.

Assim, a iluminação e o som de Saad e Nunes ficam prejudicados, com poucas possibilidades no desenho de luz e a reprodução da trilha e instrumentos musicais apresentam falhas e chiados.  

A execução ao vivo dos músicos Lin, Lucas Lima e Rafael Soares corrobora no clima de teatro de revista, o que poderia ser melhor explorada, indo além da música incidental. Por exemplo, no acompanhamento aos números musicais e que são feitos à capela.

Chama a atenção o visagismo acertado de Hello Santana. Os figurinos e cenografia diminuta de Ângela Schoendorfer e Saad colaboram à dramaturgia e ajudam o espectador na construção do universo. Com figurinos tão funcionais e bem feitos, talvez um melhor cuidado ao apresentá-los perderia o ar mambembe à encenação, desde que essa não seja a intenção do encenador.

O Estranho Mundo de Grimm deve seguir temporada em 2022, com algumas mudanças de elenco, afinal é um texto e encenação que precisa realmente voltar. Afinal, precisamos revisitar nossos clássicos como recentemente fez a sueca Sara Stridsberg em Terra Medeia (leia a crítica) com o mito clássico da mulher que mata seus próprios filhos e Antígona Terceirizada, de Victor Nóvoa e Luís Mármore, que traz a trágica ausência do luto para esses tempos da covid-19.

As fábulas das mulheres que esperam pelo homem para salvá-las dos seus desfortúnios precisam ser revistas, para que uma nova sociedade brote, menos desigual, misógina e de respeito ao diverso. Onde o machismo estrutural seja exposto, discutido e arrefecido. Dessa forma, O Estranho Mundo de Grimm já tem lugar certo nessa demanda.

Na próxima temporada, não deixe de ver. 

Ficha Técnica
Direção e Concepção: Ronaldo Saad
Dramaturgia: Ronaldo Saad, Vinicius Nunes, May Crepaldi e Alessandro Lopes
Contribuição: Giovana Santiago
Revisão final: Ronaldo Saad e Vinicius Nunes
Produção: Centro de Pesquisa em Artes
Elenco: Alice Caffagni, Alessandro Lopes, Bárbaro Xavier, Claire Silva, Danilo Rezende, Gio Cípola, Jhonata Souzaa, Lucas Camilo, Lucas Lima, Luiz Vieira, May Crepaldi, Micaela Rodrigues, Myra Saturnino, Nathalia Mayumi, Patrícia Oliveira, Rafael Soares e Sofia Falastro.
Figurinos e cenografia: Ângela Schoendorfer e Ronaldo Daad 
Músicos: Lin, Lucas Lima e Rafael Soares
Coreografia e limpeza: Tilly Garcia 
Maquiagem: Jhonata Souzaa, May Crepaldi e Hello Santana  
Preparação vocal: Robson Guedes
Desenho de luz e Som: Ronaldo Saad e Vinicius Nunes 
Cabelo: Hello Santana
Assist. Produção: Mariah Saphira
Cenário: Danilo Rezende 
Contrarregra: Vitor Hugo

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