O documentário São Paulo em Hi-Fi – Blog e-Urbanidade

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Cartaz do documentário de Lufe Steffen
Cartaz do documentário de Lufe Steffen

Mesmo que São Paulo em Hi-Fi (2014) seja anterior ao documentário de Leandra Leal, Divinas Divas, é inevitável a relação entre as duas produções ao apresentar a cena gay de duas grandes cidades, entre os anos 1960 a 1980.

Enquanto Divinas Divas trata-se da reconstrução afetiva de personagens que marcaram a família Leal à frente do teatro Rival, Rio de Janeiro, o diretor de São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen, faz uma pesquisa também carinhosa da cena e a cultura glbt, tendo como mote as casas noturnas da capital paulista.

Lufe opta por contar a história a partir das falas dos seus personagens, sem a presença de um narrador, com entrevistador oculto. Apenas em duas cenas suas perguntas vazam nas conversas. A ligação entre documentarista e entrevistados é travada pela nostalgia e afetividade daqueles acontecimentos.

São Paulo em Hi-Fi conta a trajetória das principais discotecas do cenário paulistano a partir dos anos de 1960, quando ser gay era cool. Assim, bares e casas de shows vão abrindo e fechando, enquanto os entrevistados apresentam seus pontos de vistas, com humor, saudade e alguns devaneios. E entre as falas, o documentário traz imagens de vídeos e fotografias, não deixando dúvida que era uma época, também, de muito glamour.

O documentário também acerta em trazer entrevistas com personalidades que se tornaram importantes na cultura brasileira, além da glbt. Aliás, há uma sensação de não haver guetos no universo gay daquela época, antes AIDS. Então, a participação de nomes como João Silvério Trevisan, a ótima Kaká di Polly, Leão Lobo, Celso Curi, empresária Elisa Mascaro, Franco Reinaldo e muitos outros mostra a qualidade documental do diretor.

O roteiro e montagem de São Paulo em Hi-Fi, além de conseguir grudar o expectador na história, faz um corte dramático na euforia na cena e cultura gay com a chegada da AIDS nos anos de 1980. Assim, relatos emocionados da empresária Elisa Mascaro, por exemplo, criam camadas na narrativa, se aproximando de um leitura sociológica de uma época.

Não há dúvida que o filme é um importante relato de uma época, inclusive para entender sobre o movimento dos transgêneros, travestis e drag queens. Também ao de não resumir a luta glbt no Brasil a mercê de movimentos estrangeiros como de Stonewall, resgatando ações gestadas aqui na busca dos direitos civis, contra a truculência policial, censura e outras atividades que cerceavam a liberdade de gênero e diversidade.

E se existe algo que poderia ter um pouco mais cuidado no filme é a penúltima sequência feita com fotos, enquanto toca Flashdance. Porém, isso pode passar despercebido diante da qualidade documental e com a genial escolha da última cena: um vídeo antigo em que a travesti afirma que aquelas imagens farão parte da história do Brasil.  Ela estava certa, graças a São Paulo em Hi-Fi.

Lufe lançou em seguida A Volta da Paulicéia Desvairada, tendo como recorte dos anos de 1980 em diante. Ainda é difícil encontrar esse último trabalho em alguma plataforma, mas São Paulo em Hi-Fi está disponível para a compra no Now (TV Net e Claro) e vale muito a pena ser visto.

 

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