#MinhaLista do escritor Zé Irineu Filho de filmes sobre a masculinidade

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Zé Irineu Filho – Foto: divulgação

Fazendo sua estreia no mundo da literatura, Zé Irineu Filho lançou há algumas semanas o livro O Homem Sem Malícia. Primeiro da trilogia O Homem, a obra (publicada pela Editora Córrego) analisa as principais inquietações e bagagens de um homem do século XXI. Reflete sobre temas como masculinidade, monogamia e relações abusivas.

A obra é uma ficção erótica que, por vezes, se confunde com a vida real do autor. Conta a história de Gabriel, um homem mulherengo, adepto ao amor livre e com aversão ao mundo corporativo. E ainda se entregou ao mundo competitivo do pôquer, tornando-se uma estrela do jogo.

O protagonista vive o dia a dia de uma São Paulo noturna, com tudo que esse cenário oferece: o álcool, as drogas, o sexo, o bar e a ressaca.

Apesar de seu tom erótico e despretensioso, o livro pode ser caracterizado como uma autoficção. Afinal, muito do que acontece com Gabriel também fez parte da vida de Zé Irineu.

Filho do sambista José Irineu, o autor jogou basquete profissionalmente até os 22 anos e passou mais de uma década jogando pôquer. Atualmente se dedica ao estudo do ocultismo e apresenta o podcast PodZé.

De acordo com Zé Irineu Filho, a principal dificuldade na escrita do livro foi justamente dividir o real da ficção. “Esse estilo de escrita autorreferente é uma armadilha perigosa“, conta.

A memória humana não é tão confiável, de forma que se deixar, criamos histórias sobre nós mesmos que não condiz com a realidade. Lembrar das coisas como elas aconteceram e não como gostaríamos que tivesse acontecido por vezes é bem doloroso“, completa.

Zé conta, ainda, que em alguns momentos chegou a chorar e vomitar durante a escrita. Mesmo assim, a recepção do público tem compensado pelas reações não tão prazerosas que teve durante sua produção.

Como um homem negro, Zé também busca refletir sobre a forma que a masculinidade afeta homens como ele, e permeia todas as suas relações. De acordo com o autor, a ideia para o livro surgiu durante uma “cerimônia xamânica em 2011“, em um momento em que estava cheio de dúvidas sobre o que significava ser um homem.

Sem dar grandes spoilers, Zé afirmou que o segundo livro se chamará O Homem sem Religião, e o terceiro será O Homem sem Culpa.

Para discutir mais sobre a questão da masculinidade, o Blog e-Urbanidade convidou Zé Irineu Filho para fazer a #MinhaLista com cinco filmes que refletem sobre o tema. Mas antes de começar, o autor já avisa: “O conceito de masculinidade é individual e os filmes listados se referem basicamente a como eu lido com isso. Não é uma lista definitiva, pelo contrário, é uma lista bem autorreferente“.

VICKY CRISTINA BARCELONA

#1 – VICKY CRISTINA BARCELONA (2008), de Woody Allen

Eu não me identifico com o Woody Allen, e só assisti esse filme por insistência de uma cinéfila com quem eu me relacionava na época. E ainda bem.

Aos 28 anos eu me encontrava com muitos dilemas sobre relacionamento, a monogamia não me era atrativa, mas ao mesmo tempo falar abertamente sobre minhas paixões me gerava problemas.

Assistindo ao recorte da vida do Juan Antonio, eu percebi que boa parte dos problemas era minha falta de espontaneidade para me expressar e minha falta de tranquilidade quando não ia tudo bem. A cena em que ele convida a Vicky e a Cristina para tomar vinho e fazer amor em Oviedo é para mim uma das mais inesquecíveis do cinema“.

BARFLY: CONDENADOS PELO VÍCIO

#2 – BARFLY: CONDENADOS PELO VÍCIO (1987), de Barbet Schroeder

O nome do filme em português passa longe da proposta do único roteiro escrito por Charles Bukowski. A história passa mais pela boêmia do que pelo vício em si.

Minha relação com Bukowski começou aos 30 anos, no excelente Californication, escrito pelo também fantástico Tom Kapinos.

Assisti esse filme por volta dos 35 anos, quando minha vida se resumia ao bar. Tirando a disposição para trocar socos a qualquer momento, Henry Chinaski é um personagem que me ensina a lidar com as grandes merdas que acontecem na vida de um boêmio com certa elegância e dignidade“.

OS DONOS DA NOITE

#3 – OS DONOS DA NOITE (1989), de Eddie Murphy

Foi o primeiro ‘filme de adulto’ que meu pai me chamou para assistir, ali pelos 12 anos. Precisei assistir depois de adulto para entender a mensagem do filme e porque meu pai gostava tanto.

Em 1992 meu pai, um homem negro, era dono de uma das maiores casas de samba de São Paulo, e que funcionava desde o início dos anos 80. Guardadas as proporções de uma Harlem [bairro negro de Nova Iorque], cheia de assassinatos em 1918, para uma São Paulo, do início dos 1980, os problemas de ser um homem negro e comandar um entretenimento noturno se assemelham muito com a realidade que meu pai viveu. É um filme importante para minha construção como homem negro“.

O JOGADOR: A HISTÓRIA DE STU UNGAR

#4 – O JOGADOR: A HISTÓRIA DE STU UNGAR (2003), de A. W. Vidmer

Dessa lista, esse é o único que tenho como exemplo do que não fazer com a vida e o talento. O filme em si é razoável para ruim, mas é fiel à história de Stu Ungar, uma lenda do pôquer, dono de cinco títulos mundiais. E que morreu precocemente aos 45 anos.

Assistir esse filme no início da minha carreira profissional de pôquer teve um impacto positivo no deslumbramento do que uma quantia alta e repentina de dinheiro pode causar na psique. O roteiro retrata bem a batalha que Ungar vivia para conseguir ser normal e se encaixar na sociedade. Por exemplo, na cena em que ele, milionário, tem a energia elétrica de casa cortada por não conseguir se organizar“.

Denzel Washington

#5 – Toda a filmografia de Denzel Washington

Daria tranquilamente para fazer uma lista só com filmes do Denzel. Seus personagens, invariavelmente, transmitem segurança e confiança. Na hora do sufoco, você vai querer contar com algum arquétipo que ele interpretou. Pode ser do psicopata Alonzo Harris, em Dia de Treinamento, o piloto adicto em O Voo, ou ainda o violento Frank Lucas de O Gângster Americano.

Eu gosto desse conceito de personagens porque ele vai além da masculinidade e serve como modelo para o ser humano, independente do gênero. É sempre bom saber que alguém ao seu lado é confiável na hora de um problema grande“.

O Homem Sem Malícia – Zé Irineu Filho
Editora Córrego – 1ª edição (20 novembro 2020)
114 páginas

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