Livro Garotas Mortas, de Selva Amada, ganha adaptação para o teatro

Coletiva Palabreria adapta as histórias verídicas do livro Garotas Mortas, de Selva Amada, para o teatro.

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Artistas da coletiva Palabreria. Foto: Sergio Silva
Artistas da coletiva Palabreria. Foto: Sergio Silva

A coletiva Palabreria, encabeçada pelas artistas pesquisadoras Fernanda Machado, Luiza Romão e Sofia Boito, está em processo de adaptação para o teatro do livro Garotas Mortas, de Selva Amada.

A obra não-ficcional investiga três casos de feminicídio ocorridos na Argentina na década de 1980 e revela o quanto a situação de insegurança e violência contra a mulher não mudou com o tempo.

Três assassinatos entre centenas que não são suficientes para estampar as manchetes dos jornais ou mobilizar a cobertura dos canais de TV. Três crimes “menores” enquanto a Argentina celebrava o retorno da democracia. Três mortes sem culpado.

Com o tempo, essas histórias se convertem em uma obsessão particular da autora, o que a leva a uma investigação bastante atípica. A prosa de Almada mostra como as violências diárias contra meninas e mulheres acabam fazendo parte de algo considerado “normal”. Com esse livro, a autora desbrava novos caminhos para a não ficção latino-americana.

Caso Andrea

Em palestra realizada através do YouTube, pela coletiva Palabreria, a autora conta que o livro conta com muitas memórias próprias, além de dar voz a essas outras mulheres. No caso dessas memórias, a autora se recorda do caso de Andrea, que aconteceu quando Amada tinha apenas 13 anos, e a garota assassinada vivia em um povoado próximo. Andrea foi assassinada em sua própria casa, enquanto dormia.

O choque foi tão grande para a autora, que 25 anos depois do caso, ainda tinha uma memória muito forte do acontecimento, e foi aí que ela decidiu começar a dar voz para essa e outras mulheres, investigando esse e outros casos.

“Na Argentina daquela época, dos anos 1980, era natural vermos notícias de crimes como esse, quando o feminicídio aumentava exponencialmente e aí começamos a nos preocupar com isso. Era muito habitual vemos notícias de meninas desaparecidas, mortas, em jornais, programas de televisão, na imprensa, quase todos os dias. E cada vez que eu voltava a ver algumas dessas notícias, só lembrava do caso de Andrea e que algo assim havia ocorrido, quando nem utilizávamos ainda a palavra feminicídio”, comenta Selva.

Feminicídio

Na obra, a escritora denuncia e investiga outros dois casos, além do caso de Andrea, que até hoje não foram solucionados. Apesar de não ser jornalista, a autora fornece aos leitores relatos detalhados sobre as vítimas.

O livro mostra que o feminicídio ainda é latente na sociedade e que o machismo deve ser combatido ao máximo no nosso cotidiano. A frequência com que ainda ouvimos notícias sobre violência contra a mulher ainda é assustadora. E nem sempre esses casos são resolvidos e tratados de acordo com a sua gravidade.

Muitos deles não são nem estampados nas manchetes dos meios de comunicação. Foi o que aconteceu com essas três histórias, e infelizmente, de muitas outras mulheres nessa época, já que esses crimes aconteceram em povoados no interior da Argentina, nos anos 1980.

“Nesse sentido o trabalho era muito difícil, já que eu não podia estando em Buenos Aires, colher material para o livro. Assim, eu tive que ir a cada um dos locais dessas histórias, buscando a familiares, amigos, juízes e até jornalistas que de alguma forma tivessem estado próximos dos acontecimentos naquela época. Por outro lado, já haviam passado tantos anos desses crimes que muitas desses pessoas já haviam se mudado, ou até estavam mortas, como no caso dos pais dessas meninas”, comenta a escritora.

Garotas Mortas, portanto, nos traz além de uma narrativa forte de não-ficção, o cuidado na apuração e investigação desses casos por parte da autora, que teve o cuidado de buscar a verdade dos casos de cada uma dessas mulheres, que em breve ganharão corpo, voz e denúncia através da adaptação do livro para o teatro.

Serviço

Garotas Mortas, de Selva Amada
Não-ficcção estrangeira
Editora Todavia
128 páginas

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