It´s A Sin, série de Russel T Davies na HBO Max

5 amigos nos anos de 1980, em Londres, têm suas vidas impactadas pela chegada de um vírus desconhecido: HIV.

0
126
It´s A Sin - Foto: Divulgação
It´s A Sin - Foto: Divulgação

Boas e tristes narrativas já foram contadas sobre o assombro do HIV/AIDS entre as décadas de 1980 e 1990. Mesmo que It´s A Sin da HBO MAX retrata a história corriqueira de um grupo de amigos desta época, aqui no Reino Unido, a série felizmente não é mais sobre o mesmo. Obviamente emociona, faz chorar e refletir sobre preconceitos, mas a inventividade fica por conta, nesses tempos de COVID-19, do diálogo com alguns temas atuais como os negacionistas, fake news, remédios milagrosos e, claro, muita intolerância.

Neil Patrick Harris participa de It`s A Sin - Foto: Divulgação
Neil Patrick Harris participa de It`s A Sin – Foto: Divulgação

O programa é uma criação de Russell T Davies que assinou a direção e roteiro Queer as Folks e as ótimas CucumberBanana e Tofu, programas inesquecíveis sobre a comunidade LGBTQIA+. Davies recentemente assinou o script da distopia Years And Years, programa também da HBO. Talvez tenha sido uma das melhores séries de 2019 e que nos ajudou a perceber os mecanismos da direita “sincerona” genocida que passou a despontar pelo mundo.

It´s A Sin é sobre 5 amigos que dividem apartamento em Londres. O protagonista Ritchie Tozer (interpretado por Olly Alexander) é um garoto do interior que decide mudar-se para estudar e fugir da família conservadora. Lá conhece a carismática Jill (Lydia West), que se torna amiga de toda trupe, mesmo não sendo gay.

Chegam ainda no apartamento mais 3 personagens: Roscoe (Omari Douglas) que abandona a casa dos pais, quando descobre que seu pai, pastor protestante, pretende levá-lo de volta para a Nigéria para convertê-lo; o tímido Colin (Callum Scott Howells) que é contratado por um alfaiataria da Savile Row, bairro reconhecido por tais serviços; e, por fim, o bonitão Ash Mukherjee (Nathaniel Curtis) que apaixona-se por Ritchie.

Fala-se que Davies teve o programa rejeitado por alguns canais e, quando aprovado, reduzido para 5 episódios, ao invés dos 8 iniciais. Provavelmente seja por isso que algumas camadas ficam sem ser tratadas, como uma vida amorosa para Jill, deixando-a totalmente entregue aos amigos e a causa do HIV/AIDS.

Angels In America ambientada nos Estados Unidos de Ronald Reagan, 120 Batimentos Por Minuto, nos movimentos da Act Up na França, e tantas outras histórias têm semelhanças com a série da HBO Max. Imediatamente as mortes vão sendo apresentadas, inclusive com o elenco principal, e as intolerâncias históricas da sociedade homofóbica vão aparecendo.

E é neste ponto que It´s A Rain torna-se original, ou seja, ao dedicar-se a revelar como os elementos estruturais tomam novas ou não tão inéditas configurações para rejeitar a diversidade. Mesmo que as questões sociais estejam presentes em outras séries e filmes, aqui Davies ocupa-se da pandemia da AIDS pela perspectiva das famílias. De dentro da casa, sendo lidada na cozinha, extrapolando ao coletivo.

As famílias são apresentadas desde as mais conservadoras às mais abertas, sendo que é na jornada de Ritchie que a série faz seu principal arco. E a atriz Keeley Hawes, que interpreta Valerie, mãe do rapaz, toma para si o último episódio. A sequência no hospital com jeito de plano sequência, além de muito bem escrita e dirigida, expõe a incompreensão de uma época.

Não há dúvida que o embate final entre Valerie e Jil tem muito do que It´s A Sin queria dizer. Em que a vida convenientemente camuflada dos LGBTQIA+ e até mesmo as pulsões tornam-se consequências compulsórias da discriminação.

Já dissemos em outras críticas, pois é preciso que novas histórias cheguem ao grande público sobre o HIV/AIDS, já que hoje os tratamentos com antirretrovirais permitem vida normal aos infectados. Mesmo assim, It´s A Sin parece ecoar com duas questões bastante importantes com este momento.

Primeira, a inevitável relação com a pandemia da Covid-19 e que as mortes e atenção da indústria farmacêutica passam sempre pelo viés de quem está sendo infectado. E temas que pareciam novidades dessa nossa época percebem-se corriqueiros e voltam sempre à baile nos surtos, incluindo até kits curandeiros como da hidroxicloroquina.

Outro ponto relevante é do reconhecimento das novas gerações sobre o terror dessa época, pois tratando-se de uma doença sexualmente transmissível esteve sempre revestida de estigma. Acrescenta-se o feito pedagógico em explicitar do que é feita esta sociedade intolerante que ainda habita entre nós.

Muitos e muitas daqueles que perambulam hoje pelas cozinhas e salas de estar têm muito dessa época. Essa geração que comemorou a justiça divina, pela AIDS, está hoje com suas famílias, filhos e netos e, talvez, estejam vestindo de verde-amarelo e pedindo a volta da ditadura. Assim, esse núcleo de 5 jovens londrinos tem bastante a nos mostrar em como uma sociedade chega a Years And Years.

Por isso, mesmo triste, e fala-se que a última temporada de Pose (Netflix) também venha com essa temática, é importante ser visto. Tanto para que se reduza o estigma ao HIV e chegarmos finalmente à cura, tanto para que as novas gerações chegam aos movimentos de resistência sabendo de onde viemos e quem pode ser o nosso vizinho.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

No texto mencionamos filmes e séries que mostram a pandemia de HIV/AIDS em outros países. Para compreender a atual situação do vírus no Brasil, assista Carta Além Dos Muros. O diretor André Canto convidou personalidades importantes e tiveram voz ativa nas décadas de aparecimento da doença por aqui. Assim, o documentário atualiza e revive momentos marcantes, como a questionável capa da revista Veja com Cazuza. O doc está disponível na Netflix.

E também ouça o episódio do Rolê Urbano#31 – Novas Narrativas sobre o HIV – que trilha sobre as novas, mesmo poucas, narrativas sobre o HIV, após 40 anos.

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here