Entrevista com Thiago Franco Balieiro diretor de APOCALIPSE DE UM DIRETOR – Blog e-Urbanidade

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Thiago Franco Balieiro - Foto: Angela Ribeiro
Thiago Franco Balieiro – Foto: Angela Ribeiro

O diretor Thiago Franco Balieiro fala com o Blog e-Urbanidade sobre a peça Apocalipse de um Diretor, atual cartaz no Auditório do MASP.

A montagem retrata as crises, as memórias, as reflexões e obsessões de um/alguns artista(s) em colapso, durante a montagem de Hamlet. Em cena, um diretor real, um diretor ficcional e os atores. Assim, até que ponto trata-se de ficção ou realidade?

Balieiro é criador do grupo Eco Teatral, Apocalipse de um Diretor, sendo essa a quarta produção do conjunto independente criado em 2012 dentro da  Escola de Arte Dramática da USP. Na trajetória, as peças Sala de Espera (2012), Edgar (2014) e Homo Patitur (2017).

 

e-Urbanidade: Diante da fratura entre ficção e realidade cada vez mais presente no teatro pós-dramático, não se corre o perigo do ator sobrepor à personagem e o teatro virar mais um espaço do “show do Eu” do ator?

Thiago Franco Baliero: Acredito que sim, é uma das tantas armadilhas que o pós-dramático nos impõe. O teatro sempre acompanha seu tempo, e se ele corre esse risco atualmente nada mais é do que um reflexo direto do risco que estamos correndo fora dele, ou seja, vivemos a preponderância do Eu em cada atividade humana que realizamos em sociedade, como diria Shakespeare, “Aí está o obstáculo”. Então, como manter coesa a mensagem de um grupo ou uma obra como Hamlet em um tempo onde tantos “Eus” tem tanto a dizer/mostrar sobre si? Optamos pela ficção.

Dentro da peça, quando se trata dos atores, há uma pseudo quebra da ficção, pois os depoimentos ditos por eles na verdade ainda são ficção, pois se trata dos personagens atores daquele processo. Podemos falar então em camadas de ficção. É claro que, para a construção dramatúrgica dos depoimentos, nos aproveitamos de elementos reais dos atores da peça, mas no momento em que eles dizem, eles são personagens atores.

A quebra entre ficção e realidade acontece em apenas dois momentos dentro Apocalipse de um Diretor, na minha fala inicial, mas que é percebida apenas mais tarde quando o ator que interpreta o personagem Diretor a reproduz, e na última cena da peça quando o mesmo reproduz o monólogo da Hécuba, pois ali é o ator Romario Lopes falando.

O que Hamlet tem ainda para dizer nos dias de hoje?

T.F.B.: Eu acho que Hamlet vai ter algo a dizer sempre, ou pelo menos enquanto vivermos num contexto onde as escolhas que fizermos pesarem sobre nós, o texto de Shakespeare permanecerá atual. Trata das escolhas e das suas consequências, trata de pensarmos demasiadamente sobre um tema, nos decidirmos e na hora oportuna fraquejarmos, termos dúvida, mesmo tendo certeza que precisa ser feito. Há algo mais humano que isso? Não é por menos que para alguns estudioso Hamlet funda o pensamento do homem moderno. ,

Nós o lemos e ao mesmo tempo somos lido por ele. Nos atentamos por exemplo o monólogo “Ser ou não ser”, que em tão poucas linhas Shakespeare parece dar conta de toda a complexidade humana, e se teatro é poder de síntese, aí está o melhor exemplo que o teatro pode oferecer.

Todas as vezes que leio ainda fico tocado, e me pergunto como palavras escritas a mais de 400 anos podem nos emocionar tão fortemente? Imagine por um momento conviver com uma questão, uma dúvida, que clama diariamente para ser resolvida por 10 anos. Pensar, pensar, e pouco agir. Não somos nós? A diferença, creio eu, que as questões do Príncipe são vitais, e no nosso caso a grande parte, infelizmente, é trivial.

O que de novo Shakespeare pode nos dizer ao sair da encenação tradicional?

T.F.B.: Talvez potencializar o quanto Hamlet faz parte da nossa vida cotidiana.

O diretor teatral é sempre uma figura egocêntrica? Qual é seu apocalipse?

T.F.B.: Depende, hoje existem muitos processos de criação teatral, e dependendo do tipo de processo e da pessoa que assume essa função, essa característica pode ser mais ou menos acentuada.

Se considerarmos o diretor como aquele que artisticamente dá a palavra final, creio que sim, o diretor sempre será egocêntrico, para o bem e para o mal. Para o bem porquê pode conduzir aqueles que participam do processo a uma visão de mundo/personagem que talvez sozinho o interprete não conseguiria, e para o mal porquê a forma de condução pode ser uma castração para alguns ou todos, e também sempre existe possibilidade do diretor estar errado e conduzir todos para o abismo junto com ele.

É uma função que tem que ser levada com seriedade, sempre há grandes riscos. Maquiavel tem uma frase que sempre me coloca em vigília “Dê o poder ao homem, e descobrirá quem ele realmente é”. Talvez seja essa minha visão de apocalipse – que etimologicamente significa revelação em grego – me revelar algum dia um tirano. Por isso, foi preciso falar da sombra que me habita, e que é tão sedutora as vezes.

O poder é o canto das serias, sabendo que vai ouvi-lo, é preciso se amarrar como Odisseu para não se afogar nele.

Serviço
Apocalipse de um Diretor
Temporada até 26 de maio – Sábado, às 21h, e domingo, às 19h30. (Clique nos dias da semana para ter acesso a agenda do blog)
Indicação Etária: 18 anos.

Ficha técnica
Dramaturgia: Angela Ribeiro e Thiago Franco Balieiro
Direção: Thiago Franco Balieiro
Assistente de Direção: Fernanda Borella
Elenco: Alexandre Menezes, Fernanda Assef, Gabriela Roibeiri, Gisa Araujo, Gustavo Mereghi, Lisandro Leite, Marco Canonici, Roberto Borenstein, Romario Lopes e Zenaide Denardi
Músicos: Alberto Eloy, Ana Guariglia e Chico Ribas
Iluminação: Felipe Tchaça
Assistente de Iluminação: Paula da Selva
Operação de Som: Fernanda Borella
Direção Audiovisual: Santiago Paestor, Vitor D’Angelo
Elenco (vídeo produtor): Fernanda Borella e João Mazini
Figurinos: Thiago Franco Balieiro
Costureira: Vera Luz Santos Araújo
Cenário: Thiago Franco Balieiro
Designer Gráfica: Angela Ribeiro
Produção: Eco Teatral
Assessoria de Impressa: Canal Aberto (Márcia Marques | Daniele Valério)

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