Entrevista com Tata Amaral, diretora de As Protagonistas

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Tata Amaral. Foto: André Michiles
Tata Amaral. Foto: André Michiles

Percorrendo a história de 70 cineastas brasileiras em 13 episódios com narração e comentários da diretora Tata Amaral, a série As Protagonistas conta a história do audiovisual brasileiro a partir da produção das cineastas mulheres.

A cineasta visita diversas obras, utiliza trechos de filmes e obras audiovisuais, documentos, fotos, recortes de jornais, depoimentos das autoras e de pesquisadores para contar a história de cineastas como: Adélia Sampaio, Helena Ignez, Helena Solberg, Sandra Kogut, Letícia Parente, Sonia Andrade, Ana Maria Magalhães, Tizuka Yamasaki, Suzana Amaral, Lucia Murat, Carla Camurati, Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Viviane Ferreira, Eliane CafféYasmin Thainá, Graci Guarani, Julia Rezende, entre outras.

Foto: Acervo Cinédia/Alice Gonzaga

Desde os anos 1930 até os dias de hoje, as cineastas assumem o protagonismo de suas carreiras, suas produções e constroem as políticas de valorização do audiovisual brasileiro. A série se inicia em, de 1931, com o filme de Cleo de Verberena, O Caso Do Dominó Preto, e percorre a produção das cineastas até os dias atuais. 

Os episódios vão ao ar todos os sábados, às 21 horas,  com reprises todos os dias, no Cinebrasil TV e também pode ser assistido online nas plataformas Divertenet e Oi Play.

Para falar sobre a série, cinema e cultura e as mulheres no meio cinematográfico, o e-Urbanidade conversou com a cineasta Tata Amaral. Confira:

#1 – Blog e-Urbanidade: Como foi o processo de criação da série? 

Tata Amaral.: Intenso. Nós havíamos idealizado uma série de 13 episódios que contasse a história do audiovisual a partir da produção dos mulherões. Havíamos escrito os argumentos e roteiros, Caru Alves de Souza, Eliana Natividade e eu. E quando o canal Cinebrasiltv se interessou pela série, pudemos propor sua realização através do Fundo Setorial do Audiovisual. O primeiro passo que demos foi contratar pesquisadoras e a figura principal na reconstrução desta história foi Eloa Chouzal que coordenou a pesquisa.  

Além disto, em conversas com a curadora e gestora cultural e presidente do Videobrasil, ouvi muito sobre a produção das videoartistas dos anos 1970 e as videomakers do início da era do vídeo nos anos 1980 e nas décadas que se seguem. Pensei que raramente estas são consideradas na historiografia do audiovisual, muito embora e, obviamente, sua produção é audiovisual. 

Por outro lado, queríamos tratar da produção contemporânea das séries, do surgimento das cineastas negras, da produção indígena, ao mesmo tempo, olhar para as cineastas que fizeram (e fazem) sucesso de bilheteria. E ainda para aquelas que se inscrevem na história do audiovisual pela originalidade de suas obras. 

Com estes elementos, Eloá se pôs a campo com Flora Rouanet e nos trouxe uma linha do tempo poderosa. A seguir, tratamos de reescrever os roteiros. Estes ficaram a cargo de Josephina Trotta, Pedro Riera, Eliana Natividade e eu. Desde sempre, propúnhamos que eu fizesse a narração desta história, assumindo um ponto de vista, a existência de um olhar.

#2 – Quando As Protagonistas foi pensado e idealizado?  

T.A.: Desde sempre percebo uma lacuna quanto à produção das mulheres no cinema, no vídeo e na videoarte. Acho absurdo que as obras das cineastas, videoartistas ou videomakers não sejam estudadas nas universidades e raramente são recomendados nos vestibulares.

Mais absurdo é o fato de que os textos das pesquisadoras e ensaístas também não sejam recomendados ou estudados nas escolas e universidades de audiovisual. É como se as mulheres não existissem. Nós só conhecemos o audiovisual através da produção dos homens e a academia perpetua esta lacuna.

Por outro lado, fui inspirada por um seminário organizado pelo Coletivo Vermelha, do qual minha filha, a também cineastas Caru Alves de Souza, fez parte. Este seminário se chamava Quem Tem Medo Das Mulheres No Audiovisual e mergulhou, durante uma semana, nas questões de gênero, raça e representatividade.

Todo o seminário está gravado e disponível na página do Coletivo no Facebook. Durante este seminário, me dei conta de que poderia conhecer mais da produção contemporânea nas séries, games e outros formatos e, principalmente, pude conhecer a produção das cineastas negras e suas reivindicações. 

Propus à Caru realizarmos uma série que contasse a história do nosso audiovisual a partir da produção das mulheres. Como seria esta história se levássemos em conta apenas a produção das mulheres? O que esta produção nos revelaria? 

#3 – De que maneira você vê o cinema e a cultura como uma ferramenta para ampliar o espaço das mulheres? 

T.A.: Não sei se é uma ferramenta, mas é uma linguagem. As mulheres de todas as raças e gêneros precisam estar representadas nela. Não apenas porque somos mais de 50% da população, mas também porque precisamos construir nossa representação e não deixar à cargo dos cineastas homens. Precisamos exercer nossa autoria e expor nossas narrativas.

#4 – As Protagonistas percorre a história de 70 cineastas brasileiras desde os anos 1930 até os dias de hoje. Quais as principais mudanças que você pode notar entre as produções ao longo dos anos? 

T.A.: São inúmeras, mas posso destacar os anos 1960 quando cineastas como Helena Solberg, Ana Carolina dentre outras trouxeram uma linguagem moderna, contemporânea para o cinema. Na década de 1970 a repressão e o moralismo definiam a vida social. Paradoxalmente, o corpo da mulher foi exposto como nunca antes.

As mulheres deram respostas potentes: Leticia Parente com Marca Registrada e Tereza Trautman com seu longa Os Homens Que Eu Tive. Toda a obra seguinte de Helena Solberg, Ana Carolina, Ana Maria Magalhães que escreve a primeira historiografia do ponto de vista da produção das mulheres com o filme Mulheres de Cinema, dentre muitos outros.

Nos anos 1980, as cineastas assumem a questão de gênero e travam uma jornada coletiva pela representatividade. Entram em cartaz e fazem sucesso: Mar de Rosas de Ana Carolina, Gaijin de Tizuka Yamazaki, A Hora da Estrela de Susana Amaral, Que Bom Te Ver Viva de Lucia Murat inspiraram muitas gerações, inclusive a minha.

Durante a chamada Primavera dos Curtas, as mulheres também chegaram ao público local e internacional. Na década de 1990, após intensa campanha de desqualificação da produção brasileira de filmes, foi o filme de uma mulher que foi responsável pela reconciliação do cinema brasileiro com seu público: Carlota Joaquina de Carla Camuratti.

Sandra Kogut renova a linguagem do vídeo como ninguém e, para dar um enorme salto, foram as mulheres negras que protagonizaram o chamado “levante do cinema negro”.

#5 – Como é o cenário para cineastas mulheres no Brasil? Elas têm mais dificuldades que os homens? 

T.A.: Sem dúvida: apenas 20% dos filmes brasileiros são dirigidos ou roteirizados por mulheres. Estes números precisam mudar!

#6 – As Protagonistas é um título que traz à tona a importância das mulheres no meio cinematográfico. O quão importante é mostrar a história de cineastas que em sua grande maioria não receberam o devido reconhecimento? 

T.A.: Trazer conhecimento, reconhecimento, inspiração e fazer justiça histórica.

SERVIÇO
As Protagonistas 
Cincebrasil TV – sábados, às 21h.
Reprises: Segunda às 9h30 – 21h30| Terça às 20h30| Quarta às 13h| Quinta às 23h| Sábado às 12h.
Assista online: divertenet.com.br/cinebrasil

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