Entrevista com Rodrigo Giannetto, diretor de Histórias e Rimas

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Pôster de Histórias e Rimas / Rodrigo Gianetto. Foto: Divulgação
Pôster de Histórias e Rimas / Rodrigo Gianetto. Foto: Divulgação
Pôster de Histórias e Rimas / Rodrigo Gianetto. Foto: Divulgação

Muito mais poesia do que ritmo, o rap é pluralidade e compromisso e uma infinidade de novas histórias. É isso que o diretor Rodrigo Giannetto fez entre 2009 e 2019. Registrou de perto mais de 50 MC’s e medalhões do rap em busca de reflexão sobre os cenários onde cresceram e se tornaram poetas urbanos.

Com depoimentos de renomados nomes da cena, como Racionais MC’s, Emicida, Negra Li, Projota, Thaíde, Karol Conká, Projota, The Pharcyde, Dexter, Tássia Reis, Black Alien, GOG, entre outros. O filme Histórias e Rimas faz um mergulho na intimidade e na realidade desses artistas que transformam rimas autobiográficas em música. 

De São Paulo ao Rio de Janeiro, Los Angeles à Nova York, Gianetto entra no universo desses artistas desde o início de suas trajetórias. E assim, investiga como buscam por espaço, em cenários tão desiguais e estigmatizado.

No geral, com rimas autobiográficas, esses jovens retratados colecionaram fãs e quebraram barreiras sociais ao conquistar, desde as periferias onde cresceram, até aos palcos de grandes festivais.  

O filme, que estava previsto para estrear em 2020, teve o lançamento adiado por causa da crise global causada pela COVID-19. “Seria a primeira vez que os maiores artistas do rap nacional ocupariam salas comerciais de cinema. Como sempre mereceram e ainda merecem. Mas temos a honra de estrear no grande festival que contempla produções dedicadas à música, é uma honra”, comenta Rodrigo.

Tassia Reis no documentário Histórias e Rimas. Foto: Reprodução

Em seu currículo, Giannetto também conta uma lista de prêmios importantes, em Cannes na categoria Branded Content of the Year pela CIAwards 2019, VMB Video Music Brasil 2006 e 2007, Prêmio Multishow 2005 e 2007, Grammy Latino Melhor DVD, e por quatro vezes também ganhou o Prêmio Quality —  conhecido como o Oscar do empreendedorismo no Brasil.

Criado na zona Sul da capital paulistana, o diretor Rodrigo Gianetto conversou com o e-Urbanidade sobre o documentário Histórias e Rimas, a importância do rap em sua vida e a idealização do projeto. Confira:

#1 – Blog e-Urbanidade: Gostaria de saber, qual sua ligação com a música e com o rap? Como o documentário se relaciona com a sua vida?

Rodrigo Giannetto.: Eu morava na Zona Sul quando moleque, na Vila Vera, especificamente próximo ao Heliópolis, Favela do Boqueirão, Vila Brasilina. De um lado as quebradas e do outro as classes mais altas. E ali a galera se misturava.

Onde eu vivia os jovens escutavam samba ou rap. Eu fazia parte do movimento, tive grupo de rap aos 14 anos. Com 16 já organizava eventos e pude conhecer de perto muita gente legal e um movimento que eu me identificava.

Ao longo dos anos, quando me tornei diretor, decidi filmar da forma com que eu sempre enxerguei nos bastidores, na intimidade de uma forma que nenhuma reportagem de televisão teve acesso. Algo próximo e inédito dos MC’s com uma visão sobre a rima e suas histórias.

#2 – Como o projeto Histórias e Rimas foi pensado e idealizado?

R.G.: A ideia surgiu em 2009 quando eu e meu amigo, e produtor artístico Pablo Marques, decidimos abordar de forma mais intimista as histórias e rimas tratadas com um outro olhar, mais próximo e poético. 

A gente conhecia vários artistas mais próximos e partimos para realizar uma experiência em documentar com a forma com que víamos tudo isso. Assim como nos bastidores de forma solta, leve e descontraída.

Claro, com a força que o rap traz em suas mensagens, mas desvendando um pouco mais próximo o universo. Daí partirmos para acompanhar de perto em uma linguagem com jogo de câmeras que acompanhassem lado a lado esses mc’s. Fazendo com que o espectador se sinta lado a lado com eles, num role cotidiano.

Eram inicialmente poucos artistas, mas a vontade foi crescendo de cada vez ter mais histórias e estilos diversos. E e vários nomes foram topando contribuir. É incrível hoje olhar pra trás e ver mais de 50 rappers juntos nessa.

#3 – Quais são suas principais referências no cinema?

R.G.: Curto muito documentários. Minhas maiores referências são o Asif Kapadia (Amy, Senna, Ronaldo), Petra Costa e o João Wainer “Pixo”. Fora isso sou fã dos dois Spike’s ; Spike Lee e Spike Jonze.

#4 – Quais foram os desafios na hora de editar o documentário? Vocês encontraram muito material de arquivo?

R.G.: Imaginem gravar 10 anos e resolver editar tudo isso? rs

Pra ter uma idéia tive que desligar o telefone por dois meses e me isolei em Santa Catarina para chegar num primeiro corte de 8 horas de material “possível”. É muita coisa!

Chegamos em 84 minutos algo confortável de assistir e quem quiser continuar acompanhando eu devo soltar muita coisa inédita e exclusiva no IGTV @HistoriaseRimas, pois sobrou muita coisa legal e artistas diversos nacionais e gringos.

#5 – Histórias e Rimas foi gravado entre 2009 e 2019. Como foi a experiência de trabalhar por tanto tempo neste projeto?

R.G.: Como não tive apoio ou patrocínio, precisei trabalhar duro. Sou diretor de realities, séries televisivas, shows e videoclipes, mas nessa década sempre reservava tempo e organizava flights para gravação do filme. Não podia deixar a peteca cair, havia expectativa dos artistas que toparam e eu sempre prometi que iria concluir esse sonho. Mas quando a grana apertava eu pausava o filme para correr atrás do pão de cada dia. Deixei rolar e fomos até o fim com isso. 

#6 – Num contexto em que o rap é visto como algo criminoso e marginalizado, como você vê a importância do rap como instrumento social na sociedade?

R.G.: O rap e as rimas foram a luz pra muito jovem de periferia. Não apenas como arte, mas como instrumento social. A caneta e a aptidão para escrever o que eles vivem ou acreditam foi a arma que escolheram para lutar.

Sim uma arma que amedronta, que ensina, que protege, que consola e que muitas vezes choca!

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