Entrevista com Pedro Granato, diretor de Descontrole Público

O e-Urbanidade conversou com o diretor Pedro Granato sobre seu novo trabalho, Descontrole Público, inspirado em games.

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Pedro Granato - Foto: Victor Otsuka
Pedro Granato - Foto: Victor Otsuka

O novo projeto do diretor Pedro Granato apropria-se da narrativa entre teatro, cinema e a interatividade digital, por meio da estética dos games. Descontrole Público convida os espectadores a interagirem com as personagens, dando poder para mudar as narrativas e interferirem diretamente nelas.


As pesquisas recentes dos encenador sobre a interatividade resultaram em um espetáculo que estabelece a relação entre espectador e personagem por meio de comandos de voz. Com 20 atores, todas as cenas acontecem simultaneamente em 6 salas, e o público escolhe qual grupo acompanhar e controlar.

A dramaturgia é de Beatriz Silveira e Felipe Aidar, e está no elenco Agnaldo Moreno, Álvaro Leonn, Andressa Lelli, Bea Carmo, Bela Tortato, Celina Vaz, Guilherme Trindade, Heloísa Pires, Julia Terron, Manfrin, Mariane Aguiar, Maysa Nanci, Natália Correa, Paloma Alecrim, Priscila Paes, Renata Xá, Taiguara Chagas, Talita Torrecillas, Victor Moretti e Well Bakari.

Para falar sobre o novo projeto, o e-Urbanidade conversou com Granato.

#1 — Blog e-Urbanidade: Como está a expectativa de interação do público durante o espetáculo?

Descontrole Público - Foto: Victor Otsuka
Descontrole Público – Foto: Victor Otsuka

Pedro Granato: A expectativa é grande, por o jogo ser muito aberto.

Dessa vez a peça está mais interativa ainda e podemos ir para qualquer lugar. Da mesma maneira que a gente já tem uma experiência de diversos espetáculos, ações interativas, fica uma curiosidade de como é que as pessoas irão engajar. Se ficarão tímidos, se irão se jogar, se irão fazer coisas absolutamente inusitadas.

A gente fez alguns ensaios abertos que foram muito ricos. Essa é uma das peças com menos controle que a gente tem, por isso mesmo o nome, né? Entã, estamos bem ansiosos para ver as múltiplas visões. Porque acredito que cada espetáculo vai ser completamente diferente do outro.

#2 – Como foi o processo de criação para propor essa nova forma de relação público/personagens?

P.G.: Olha, foi um processo bem aberto, já que pesquisa era experimentar novas formas. Então a gente experimentou todas as diferentes maneiras de interagir na casa. Num primeiro momento de um isolamento mais radical e, depois, conseguimos fazer uns experimentos. Às vezes unindo um ou dois atores, seguindo as fases da pandemia.

Mas a primeira coisa que a gente queria era fugir do ator em frente ao computador, que a gente vê tanto em teatro online, sabe? Queríamos fazer algo novo, e, nessa altura, surgiu essa ideia da exploração espacial, numa estética de plano sequência.

Uma lógica mais cinematográfica, em que você possa explorar mais o ambiente, acompanhando alguém que está mudando de cenário. Fugindo do palco fechado.

E aí surgiu essa ideia da interação, da condução, e a gente fez experimentos muito legais ao longo do processo,. Como de um ator mesmo chegar e ser controlado em uma praça pública. Ele estava numa cidade que não tinha aglomeração, uma cidade menorzinha, e com poucos casos de COVID-19 ali no começo.

#3 – Como se construiu a relação e processo com o uso da voz para dar vida e movimentação ao espetáculo?

P.G. : Foi justamente experimentando maneiras de interagir. Primeiro com espaços que contariam a história sem os personagens, em que a gente podia a partir do cenário já contar o que aconteceu ali. E depois fomos trabalhando essa ideia do público dar comandos por voz.

Depois a discussão foi pelo ângulo de visão do espectador e testamos alguns formatos. Como da câmera onisciente de cinema, que mostra o cenário como um todo; da subjetiva total, que reproduz o olhar da personagem, e, por fim, da câmera na mão. Assim, chegamos no formato final de uma visão acoplada ao ator.

#4 – Como essa produção contribui para as novas formas de se fazer presente o teatro atualmente?

P.G. Espero estar contribuindo para o avanço das estéticas e dos caminhos.

Eu vejo que o teatro tem várias camadas. Alguns celebram os clássicos e falam para um público restrito ou para quem já é da classe. Às vezes estabelece certo preconceito com outras linguagens ou outras formas de convívio, que foge um pouco desse universo mais consagrado.

Eu tenho trabalhado com referências do cinema. E procuro trazer o universo das festas, dos HQs, e agora dos vídeos games. Muitas vezes as pessoas se perguntam: vídeo game e teatro? Sim!

Muita gente, e mais do que nunca, jogou vídeo game nessa pandemia. E aquela visão do jogador de games como o sujeito absolutamente isolado caiu por terra. Eles eram as pessoas mais articuladas, porque existem enormes comunidades de troca, de encontro, ritos e celebrações.

E também fiquei pensando no teatro que passamos a fazer na pandemia, muitos eram iguais o de sempre, mas feito na frente de uma câmera. E para mim isso é absolutamente fora do que eu estou pesquisando. Procuro realmente alargar os limites e abrir novos caminhos, novos públicos, novas estéticas. Inclusive que podem ser incorporadas no teatro presencial, pós-pandemia.

#5 – Qual é a mensagem do espetáculo para a sociedade atualmente?

P.G.: Eu cada vez mais discuto essa ideia da mensagem. É eu acho que às vezes a gente faz muito teatro que poderia ser um artigo ou outra coisa. Eu procuro construir mais experiências, formas de relação, sabe?

Tenho questões sobre como o público pode experimentar novas formas de se relacionar com os artistas e como podemos criar em ambientes não habituais.

Tirar o público desse lugar passivo, e torná-lo ativo é uma forma de estimular essa participação. O que o Boal chamava de espect-ator. Também o Teatro Imersivo traz isso muito forte, como trouxe as peças do [Coletivo] Vertigem.

Eu trabalho muito com jovens atores e criadores. Busco muito contato com esse público. Então, primeiro o espeço é de escuta ede troca com essa geração. Principalmente de não julgar o que eles gosta.

Também de acreditar no caminho da interação, da escuta e de que ninguém detém o poder da palavra. O artista não veio para ensinar ninguém.

Meus espetáculos querem radicalizar a ideia de encontro, de comunhão, de experiência, de interação, de troca. E isso é um preceito político possível no caminho da transformação.

Serviço
Descontrole Público
De 20 de agosto a 5 de setembro– Sextas e sábados as 21h e 23h, domingos as 19h e 21h. (Mais informações, clique aqui)

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