Entrevista com o cantor, compositor e produtor Muato

0
68
Muato e Carol Dall Farra – Foto: Paula Dias

Como as questões sociais da vida cotidiana influencia a forma de viver os amores? É com esse questionamento em mente que o cantor, compositor, produtor e ator Muato lança o seu mais recente projeto, AfroLove Songs ou A Canção Urbana de Amor Política.

Com uma mistura de ritmos, que vão desde música brasileira até rap, hip hop e jazz, o multiartista usa a sua música para gerar reflexão sobre como o amor e a resistência da comunidade negra se entrelaçam.

O mais recente lançamento de Muato é a música Me Respirar, gravada em parceria com a rapper, poeta e compositora Carol Dall Farra. A música traz os vocais fortes de Muato, e mistura a melodia de ritmos como jazz e hip hop com os versos de Dall Farra, que recentemente foi um dos personagens do documentário Falas Femininas, da Globo.

Me Respirar está disponível nas plataformas de streaming musical, e o clipe, gravado no teatro Sesi – Firjan, pode ser assistido no YouTube. Este é o primeiro dos cinco lançamentos de Muato até agosto, quando ele lançará o EP Live Session – AfroLove Songs ou A Canção Urbana de Amor Política.

Intervenção artística de Muato – Foto: Paula Dias

Um dos maiores artistas da última geração, Muato é conhecido por seu trabalho que transcende o mundo da música e se alia ao teatro, cinema e artes visuais, fator presente no projeto AfroLove Songs. Em paralelo aos lançamentos musicais, o artista realiza a sua primeira intervenção urbana, por meio de artes em estilo “Lambe Lambe” com trechos de poesias, que povoam a cidade de São Paulo.

Em meio ao ciclo de lançamentos do projeto AfroLove Songs, Muato conversou com o e-Urbanidade sobre a criação do trabalho, sua história como cantor e ator e muito mais. Confira a seguir:

#1 – e-Urbanidade: O AfroLove Songs e a música Me Respirar trazem ritmos como jazz, pop, hip-hop e música brasileira. Por que você decidiu por essa mistura de gêneros musicais?

Muato: O universo da música brasileira é algo que eu vivencio desde sempre, antes mesmo de começar a tocar. O jazz é um amor antigo, sobretudo no que se diz respeito ao espírito jazzístico, que propicia um mergulho profundo no desejo de liberdade. E o hip hop é uma paixão mais recente que influenciou muito minha forma de compor, em todos os aspectos. Mas eu gosto muito de ressaltar o valor da poesia do rap, a sonoridade das palavras, métrica e referências contemporâneas dessa linguagem.

Diria que inicialmente não foi uma decisão, e sim uma percepção do que já estava se manifestando em mim. Como eu sempre falo, minha produção artística, por uma questão de identificação, está alinhada à expressão afrodiaspórica contemporânea.

#2 – Além da música, que é o ponto central do AfroLove Songs, você também usa de várias outras linguagens nesse projeto, que vão desde as intervenções urbanas, até a parceria com a poeta Carol Dall Farra. Desde o início a sua ideia era unir todas essas linguagens diferentes em um mesmo trabalho? Como essa ideia surgiu?

M.: Exatamente. Dentro dessa ideia, deste conceito, existe a liberdade de expressar e gerar reflexões fazendo uso de diversas linguagens artísticas. Ao longo do processo eu venho sentindo qual é exatamente o “chamado” e aí corro atrás de suprir essa necessidade expressiva, e aí ir gerando cada vez mais camadas ao projeto. Agora eu tenho feito essa intervenção urbana através dos lambe-lambes, eu senti que poderia ser uma forma de espalhar poesias pela cidade e tem sido uma experiência muito valiosa.

#3 – Como o próprio nome já diz, o projeto AfroLove Songs fala muito sobre amor, algo que também pode ser visto na música Me Respirar. Só que, além do amor, ele também traz muito fortemente a ideia de resistência em relação às questões sociais que permeiam a sua vida. Como esses dois elementos se relacionam para você?

M.: A ideia é exatamente gerar essa reflexão. A pergunta que você me faz me deixa muito feliz, porque essa pergunta é justamente o que eu desejo que as pessoas façam ao entrar em contato com esse projeto. Como o amor se manifesta no dia a dia? Como se vive o amor dentro desse contexto social? Como essas questões se atravessam? O foco não é só o amor como um sentimento, não é o amor romântico. Me interessa muito pensar o amor na prática, o amor que se converte em ações.

#4 – Nos últimos anos se intensificaram muitas discussões a respeito da solidão romântica da comunidade negra. Como o seu trabalho como artista, principalmente no projeto AfroLove Songs, se coloca em meio a isso?

M.: É uma reflexão importante. Tudo é pensado pela perspectiva da comunidade negra. O amor pode ser revolucionário se a gente pensar nele com algo que está além dos sentimentos, que transcende o sentir e transforma de fato nossas vivências.

#5 – Como a sua história com a música começou?

M.: O envolvimento com a música sempre existiu, mas o estudo formal foi com cerca de 13 anos. Tudo começou com o violão clássico, na Escola de Música Villa-Lobos, depois veio a Universidade, também estudando música no bacharelado em violão, que tem foco no repertório da música de concerto. Aí depois tudo foi se desdobrando com o canto, composição, produção musical, arranjos… Mas o início foi dessa forma.

#6 – Além de músico, você também tem uma carreira extensa como ator. Como essas suas duas carreiras influenciam uma a outra?

M.: A música me levou pro teatro musical. A história com a atuação veio por causa da música, do canto, em especial. Mas os mergulhos nos processos criativos do teatro influenciaram na minha forma de me relacionar com minha criação musical. Por conta desse entrelaçamento, eu hoje não consigo mais me ver como um artista que usa apenas uma linguagem para se expressar. É um caminho sem volta, eu preciso mesmo me influenciar por tudo.

Foto: Paula Dias

#7 – Você já é um músico e produtor premiado tanto aqui no Brasil quanto internacionalmente. O que essas vitórias representam para você? O que você sente que elas representam para a comunidade negra, que é o centro de vários dos seus trabalhos?

M.: É claro que quando a gente está trabalhando por um propósito, qualquer reconhecimento representa um fôlego, um incentivo. Mas o mais importante é que os prêmios têm esse sentido de continuidade, é muito menos sobre o meu trabalho e muito mais sobre a luta dos que vieram antes de mim.

#8 – Após vencer tantos prêmios tão importantes, o que você ainda sonha em conquistar?

M.: Minha relação é mesmo com as pessoas, a arte que faço só faz sentido quando alguém se conecta com ela. Então meu objetivo é chegar cada vez mais nas pessoas, e em mais pessoas. É criar conexão. Os prêmios só fazem sentido porque eu sei que tem pessoas por trás deles, se conectando com aquela produção artística, se emocionando e se manifestando através de uma premiação.

#9 – O que podemos esperar dos seus próximos lançamentos e do EP Live Sessions?

M.: Vamos lançar uma música por mês até agosto para então fechar o EP. No fim do ano ainda estou planejando um outro lançamento. Sobre isso eu ainda não posso falar muito, mas vai ser uma obra bem aprofundada sobre essa temática.

#10 – Sabemos que a pandemia tem sido especialmente cruel com a comunidade negra e periférica brasileira. Qual conselho você daria para os artistas que se inspiram no seu trabalho e estão passando por momentos difíceis, por conta das incertezas da indústria musical neste momento?

M.: Eu não diria que é um conselho, mas posso falar um pouco do que eu estou buscando fazer. Existem vários caminhos indicados pelos especialistas do mercado musical, eu acredito que a gente tem que buscar entender qual é o nosso próprio caminho, formar nossas redes de trabalho, de articulação e principalmente, de pessoas que se conectam com o que estamos expressando. Isso que vai nos dar fôlego para seguir, é nisso que invisto.

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here