Entrevista com o ator Renato Chocair

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Foto: Sergio Santoian

Com mais de 30 anos de carreira, Renato Chocair vive uma ótima fase profissional: no dia 4 de março, o ator entrou em cartaz com a comédia Lucicreide Vai Pra Marte. No longa ele interpreta Arnaldo, patrão da protagonista interpretada por Fabiana Karla, e responsável por dar o pontapé inicial para tudo o que acontece no filme.

Mas não é só isso. Em 2020 Chocair enfrentou um novo desafio, ao interpretar o seu primeiro vilão no terror O Cemitério das Almas Perdidas. Com direção de Rodrigo Aragão, o longa rodou o Brasil em diversos festivais e tem sido bem elogiado pela crítica. No filme interpreta Cipriano, um jesuíta corrompido por forças malignas.

Sem contar seu trabalho na televisão. Participou da série Hebe interpretando um diretor de um programa de TV e também está na novela As Aventuras de Poliana.

No entanto, um de seus trabalhos mais lembrados pelo público é em Chocolate com Pimenta. A novela de Walcyr Carrasco, que estreou em 2003, em pouco tempo se tornou um dos grandes clássicos contemporâneos da dramaturgia brasileira e atualmente está disponível no Globoplay.

Na novela, Chocair interpretou Eugênio, um funcionário da fábrica da cidade que é empurrado pelo pai de Márcia (personagens de Osmar Prado e Drica Moraes, respectivamente) a se casar com ela para limpar sua reputação.

Em meio a tantos sucessos, Renato conversou com o e-Urbanidade sobre seu trabalho na comédia Lucicreide Vai Pra Marte, lembranças de Chocolate com Pimenta, e muito mais.

#1 – e-Urbanidade: O que você pode adiantar para nós sobre o seu personagem em Lucicreide Vai Para Marte?

Renato Chocair: Nós tivemos uma pré-estreia maravilhosa dia 2 de março no Rio de Janeiro, com a Fabiana Karla, com o diretor Rodrigo César, com o editor-executivo Tom Nogueira e elenco. Foi incrível, eu tive uma surpresa fantástica, o filme é surpreendentemente bom, uma comédia muito interessante porque fala de uma mulher, a Lucicreide, que a Fabiana criou maravilhosamente, do Zorra Total. E é uma homenagem a todas as mulheres que batalham, guerreiras, nordestinas que saem à luta e que tem que colocar a cara pra bater no sol pra poder fazer o seu ganha-pão. Não é só uma comédia, tem uma grande homenagem à mulher brasileira. Também mostra um filme onde as pessoas podem voltar a sonhar, uma grande homenagem aos cientistas.

O primeiro filme brasileiro a filmar no foguete de gravidade zero. Desde Armageddon, de 1987, não tinha ninguém filmando lá. E Lucicreide estava lá. Há um resgate dos sonhos das crianças, de conhecer uma profissão tão importante como o astronauta.

O meu personagem é o Arnaldo. [Ele] é um diretor da Nasa, tem uma família, está em conflito familiar, tem um filho. E está pesquisando pra poder compor a equipe que vai para Marte. É um presente dos deuses do cinema. Eu consegui fazer de uma maneira bem crível. O Arnaldo é um batalhador também, que precisa trabalhar pra sustentar a família e tem uma responsabilidade muito forte por trás.

Na pré-estreia eu fiquei muito feliz, porque a Fabiana Karla, antes de entrar na sala de cinema, disse: “Você está ótimo no papel, você vai ver”. E isso foi um grande presente pra mim. Eu sempre carrego por trás dos meus personagens a história que eu tive no teatro, principalmente com o Antunes Filho. Meus personagens tem toda essa bagagem por trás. O personagem foi um presente do Rodrigo César, jovem e talentoso.

Eu espero que as pessoas se inspirem no filme, no que está por trás do filme e que voltem a sonhar, que acreditem no potencial de cada um, e acima de tudo se divirtam, porque o mundo está precisando de humor e diversão.

#2 – Em um momento de tantas incertezas em relação ao futuro do cinema e entretenimento brasileiro (tanto por questões políticas, quanto por conta da pandemia), como você acha que Lucicreide Vai Pra Marte se coloca?

R.C.: Lucicreide vai pra Marte nos coloca em um lugar muito importante na fase que estamos passando. Eu acredito que seja um resgate dos valores humanos, o respeito às diferenças sociais, de gênero, de respeito à mulher, da valorização da ciência e vai na contramão de tudo o que vem sendo imposto como a misoginia, a homofobia, o negacionismo à ciência.

Fala das diferenças das classes sociais. É um filme que fala de respeito ao próximo. E sim, o filme é um grande entretenimento. Acredito muito nesse filme. É o filme certo, na hora certa.

#3 – Você esteve recentemente em dois filmes bem diferentes: Lucicreide Vai Pra Marte e O Cemitério das Almas Perdidas. Quais são as principais diferenças entre fazer longas de comédia e terror, no que diz respeito à produção?

R.C.: As produções são bem diferentes, mas na minha visão de ator, eu fiz os dois com muito amor e vejo mais como a composição de personagem de cada um. Fui muito bem recebido pelos dois. O Cemitério teve um orçamento de 2 milhões e 100, maior filme do Espírito Santo. Teve uma estrutura muito boa e que deu toda a possibilidade de criar o meu personagem, de estar bem pra realizar o trabalho. Lucicreide também, um produto enorme da Globofilmes, com uma infraestrutura maravilhosa.

Com relação às produções, a composição de personagem é muito interessante, porque [para] o Cipriano, do Cemitério, eu tive que fazer um estudo muito forte por trás. É um vilão que o Rodrigo Aragão flerta desde os primeiros filmes, tinha uma responsabilidade muito grande. Eu estudei latim para interpretar os rituais, português de Portugal. E principalmente ter muita boa vontade pelo tempo de realização das maquiagens, pelo excesso de sangue cenográfico. E isso passou no filme. Foi uma honra fazer esse trabalho. A crítica gostou bastante.

Mas o Arnaldo da Lucicreide não foi diferente. Um produto grande como a GloboFilmes. O elenco foi escolhido a dedo. Quando fui ler o personagem, todo mundo reunido, um misto de responsabilidade e alegria. Isso motiva o ator. Tivemos uma preparação muito grande de elenco com a Renata Roberta. Eu compus o Arnaldo com mais naturalidade. O grande desafio foi trazer a simplicidade nas relações, com amor. Lembrei muito de O Carteiro e Poeta, com a simplicidade do filme. Trazer todo o turbilhão de emoções, mas não mostrar muito. Equilibrar, isso é um desafio muito grande pelo ator. Fui elogiado também.

#4 – Existe alguma semelhança em relação aos longas de terror e comédia?

R.C.: Quem conta uma história sonha que todos escutem essa história. Sem julgar muito, sem preconceito. São públicos distintos, a turma do horror a da comédia, isso tem que ser quebrado. Que forme mais público. Que esse público se misture, que gostem de todos os gêneros.

#5 – Quais foram os principais desafios em interpretar um vilão no cinema, em O Cemitério das Almas Perdidas?

R.C.: Nossa, foi um grande desafio. Quando cheguei em Guarapari, no galpão pra fazer o teste de maquiagem, fiquei impressionado com a estrutura. Foi uma responsabilidade muito grande, todo o trabalho de composição de personagem. Tive que emagrecer 10 quilos. Estudei português com um professor angolano. O Rodrigo não queria uma interpretação muito exagerada. [Aprendi] os rituais em latim. [Foram] dois a três meses de estudos do personagem. Fui também criando toda uma estrutura inconsciente pra fazer esse vilão. Foi considerado um dos maiores vilões desde Zé do Caixão.

Recebi o roteiro por uma agência. Quando li eu pensei: “estou em Hollywood com tantos detalhes de figurino e de maquiagem, eu preciso desse personagem”. Liguei para o Rodrigo e disse que eu tinha que fazer esse personagem. Comecei a decorar o texto e gravar cenas pelo WhatsApp.

Acho que foi um grande diferencial. Ele demorou um pouco pra responder, mas depois entrou em contato. O ator não pode ter muita frescura pra fazer esse tipo de personagem. O rosto [fica] quase todo coberto de gesso. Teve todo um processo da intuição até a realização racional. Muitos desafios. E acredito que não tenha decepcionado. Muita gente gostou. Na hora da gravação, quando a gente ouve a voz do diretor, percebe que está acertando. Essas pausas nas vogais, nas consoantes. A composição corporal. Teve muito do Antunes Filho nesse personagem.

#6 – Você teve um papel de destaque em Chocolate com Pimenta, novela que se tornou um clássico da teledramaturgia. Quais são as principais recordações que você tem da época de gravação da trama?

R.C.: Primeiro tenho que agradecer a oportunidade ao genial autor Walcyr Carrasco, por ter escrito o Eugênio pra mim. É um clássico. Foi a mais pedida no Viva, está agora no Globoplay. Cheia de humor, leveza, com temas sérios para uma novela das 18h. A gente não desgrudava o olho. Foi muito gostoso ter feito, teve um encanto. Eu tive as melhores experiências possíveis. Imagine, contracenando com Laura Cardoso, com quem estive em Vidas Cruzadas, na TV Record, foi um reencontro. Drica Moraes arrebentou como a Márcia. Ela me ajudava, a gente ria, decorava os textos juntos, brincava bastante na hora das gravações.

Ter também contato com Osmar Prado, Murilo Benício, Mariana Ximenez, Marcelo Novaes, Fúlvio Stefanini, Lilia Cabral, Ary Fontoura, Elizabeth Savalla. Elenco sensacional. Reverenciando toda essa galera talentosa. Foi uma grande honra. Em uma cena eu tinha que jogar torta na cara da Elizabeth e ela falou ‘faz pra valer’. As cenas de bicicleta que eu fiz com a Drica. Tinha uma cena de sedução na bicicleta, quase caímos, mas deu tudo certo, foi divertidíssimo. Com a direção do saudoso e talentoso Jorge Fernando, que era uma explosão de alegria e talento.

#7 – Na época em que a novela foi gravada, vocês esperavam que ela se tornaria uma produção tão icônica e lembrada?

R.C.: Quando fazemos um trabalho, gravando, ensaiando, nunca sabemos o que vai acontecer. Tem um feedback da cena, mas o futuro é muito difícil de prever. Eu sabia que estava em um campo sagrado especial, mas não imaginaria que seria tão forte o sucesso. Novela icônica que foi eternizada. Sou um ator de muita sorte. O grande fenômeno dessa novela é que você descobre algo novo sempre que revê, se entretém, com muito humor e muita leveza. Vem da genialidade do Walcyr Carrasco.

#8 – Qual recado você gostaria de mandar para os jovens atores e atrizes, que estão enfrentando esse momento delicado de incertezas na área?

R.C.: Essa pergunta é tão importante. O recado que gostaria de mandar é que nunca desistam dos seus sonhos, acreditem na sua sorte. É uma energia que você acumula pelo seu trabalho. Momentos ruins todos passamos, principalmente nesse momento atual. Se você faz tudo com amor, as coisas acontecem. Uma hora você vai ser visto. Tem muita diferença entre talento e vocação. Tem gente muito talentosa que não é muito vocacionada. A persistência no trabalho acaba sendo vista. Nós artistas temos uma importância muito grande. Contamos histórias, mexemos com sonhos. Essa área é muito glamourizada, não imaginam a dificuldade de conseguir um trabalho. Pé no chão, humildade. Estamos lidando com o humano. Temos que ir onde o povo está. Vendo conflitos dos outros. Fé, persistência, humildade, que chega lá. Tudo chega a seu tempo.

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