Entrevista com Lúcia Kakazu, criadora de Mabui

Com espetáculo em cartaz no jardim do Teatro João Caetano, Lúcia Kakazu conversa sobre seu mergulho nos rituais e tradições da espiritualidade de Okinawa, que possui protagonismo feminino.

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Mabui - Foto: Suellen Leal
Mabui - Foto: Suellen Leal

Uma pulsação, um fluxo de algo não visto, que se encontra no ‘entre’. No ser humano é a característica daquilo que o torna original: é a sua essência vital. Essa é a definição de Mabui, de acordo com a espiritualidade Okinawa, e é o tema do novo espetáculo do Núcleo Lúcia Kakazu, que segue em cartaz no jardim do Teatro Popular João Caetano.

Contemplado na 29ª Edição do Programa Municipal de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo, a pesquisa levou em conta o reconhecimento, feito há alguns anos pela Organização das Nações Unidas (ONU), de Okinawa como uma etnia indígena no Japão.

Em São Paulo, há uma grande comunidade, com a língua e a cultura do arquipélago ainda vivos e preservados. “Percebi os movimentos migratórios que formam essa comunidade no Brasil e passamos a observar as formas de reinvenção de uma cultura diaspórica, com forte expressividade na cidade de São Paulo”, diz Lúcia Kakazu.

Mabui tem como recorte em sua pesquisa a espiritualidade presente nessa comunidade. Dois encontros foram decisivos para a criação: o contato com Beatriz Nagahama, Kamintyu (sacerdotisa da espiritualidade de Okinawa) e o texto Se Tornando Uma Xamã Étnica Okinawana No Brasil – Xamanização Como Um Processo Subjetivo E Criativo De Re-culturalização, autoria de Koichi Mori. Mori foi membro de corpo editorial da Estudos Japoneses (USP), da University of Tokyo e da Universidade de Kanagawa.

A partir disso, o Núcleo chegou a histórias das Yutás e Kamintyus, espécie de xamãs, que sustentam essa forma de culto aqui no Brasil, com incorporações, ao longo de décadas, de atualizações e hibridizações culturais entre os dois países.

A nova criação aborda essa prática com procedimentos de intensificação da vibração do corpo, da voz e da respiração, um mergulho nas imagens e conexões corporais que emergem a partir de um estado de escuta sensível do corpo. Além do espetáculo, o projeto conta com workshop e palestras, como Corpo Selvagem | Mente Desperta, com o artista Elias Cohen, e outro presencial, Liminaridades Ancestrais, com Lúcia Kakazu, e também uma palestra online Caminho do Dançante, com Elias Cohen e mediação de Lúcia Kakazu.

Kakazu conversou com o e-Urbanidade e contou sobre as aproximações da espiritualidade de Okinawa com matrizes religiosas brasileiras, e também sobre a força das mulheres okinawenses em conseguirem perpetuar essa tradição, no Brasil.

Entrevista

#1. e-Urbanidade: Vivemos em uma sociedade que cada vez mais está hiper conectada com a tecnologia, principalmente após a pandemia. Uma das consequências desse comportamento é que temos nos distanciado da natureza e da relação com o próprio corpo. Como você percebe essa nova realidade e como ela pode se relacionar com o espetáculo?

Lúcia Kakazu: Acredito que por mais apartados de ambientes verdes e por mais reclusos que tenhamos vivido esse período difícil nesta pandemia, nunca estamos verdadeiramente distanciados da natureza. Somos um organismo que o tempo todo troca com o ambiente e se forma a partir dessa interação.

Daí que a pergunta que podemos fazer é: quais as trocas que fizemos nesse período e o que se transformou no mundo e na gente mesmo a partir disso?

A minha sensação é que muita coisa já mudou em nós, nessa relação corpo e ambiente, mas também que a natureza não é algo apartado porque somos parte dela. E o espetáculo Mabui também tem a ver com essa mudança de perspectivas, de um chamado a olhar nossa presença neste mundo de outra forma. Menos predatória e mais co-criativa.

É o que eu sinto que aprendi ao estudar sobre a espiritualidade de Okinawa e ao conversar com mulheres que atuam com isso dentro da comunidade okinawana presente em São Paulo.

#2. Você vê aproximações entre a espiritualidade Okinawa e alguma religião brasileira?

L. K.: Estudando e conversando com algumas dessas mulheres percebo que para essa espiritualidade conseguir se estabelecer aqui houveram, em algumas práticas, um processo de hibridação com outras matrizes religiosas daqui do Brasil.

Há tanto uma aproximação com matrizes afro, quanto cristãs e até mesmo espíritas. Mas na raiz das práticas eu vejo mais próximas a matizes que cultuam a relação com a natureza e também a relação com os antepassados.

O professor Koichi Mori, que estudou sobre essa espiritualidade denomina como sendo uma espécie de xamanismo. Já Victor Hugo Kebbe , também pesquisador dessa área, aponta que o termo talvez não seja o mais apropriado. Eu acho muito difícil e não assertivo fazer qualquer aproximação rasa. Acho que cada espiritualidade tem suas especificidades, mesmos que elas se pareçam em muitos aspectos.

#3. As Yutás e Kamintyus são mulheres responsáveis pela manutenção da espiritualidade Okinawa, cuidando dos processos de luto e da comunicação com o mundo dos mortos. Paradoxalmente, hoje ainda vivemos em sociedades patriarcais, que trazem a narrativa histórica de perseguição e violência feminina, principalmente com foco em mulheres que cuidavam da espiritualidade e eram tidas como “bruxas”. Como você vê a superação dessas mulheres em conseguir perpetuar esses ensinamentos, mesmo diante de todos esses contextos?

L. K.: Acho uma potente forma de resistência. Em Okinawa, diferente de muitos outros lugares no Japão, essas práticas são regidas predominantemente pelas mulheres. Existem cultos que se um homem chegar perto o rito não acontece, pois a energia para de circular, me contou a Beatriz Nagahama, que é a Kamintyu que está orientando esse processo.

Aqui no Brasil a entrada dessa espiritualidade também não era bem aceita, muitas dessas mulheres que tinham esse tipo de mediunidade eram vistas como loucas e tiveram que se entender e construir tudo isso do zero, em um país majoritariamente cristão.

Então essas mulheres foram as responsáveis pela manutenção dessa espiritualidade aqui no Brasil, país que tem uma comunidade okinawana bastante expressiva fora do Japão.

Para mim todas elas foram muito fortes e encontraram suas formas de resistir às dificuldades. São elas que seguram nosso céu aqui! Eu agradeço demais a todas elas, pois sem isso eu talvez nem tivesse tocado nessa parte tão importante da minha identidade.

#4. O espetáculo Mabui é realizado no jardim de um teatro. Como se deu essa escolha cênica?

L. K.: Desde o começo por saber dessa relação forte com a natureza que essa espiritualidade carrega, eu já imagina que teria que encontrar algum lugar muito especial nessa relação. Todo o treinamento e criação do espetáculo aconteceu em retiros, áreas verdes e no parque Augusta.

Em Okinawa, os utakis (locais sagrados) são em lugares de natureza muito forte! Queria sentir algo assim de um espaço e o jardim do Teatro João Caetano junto com a árvore que ocupa esse espaço foi nosso maior presente para esta temporada. Nos sentimos acolhidos nesse espaço!

#5. A dança presente em seu primeiro trabalho autoral Oba Nu Mun, teve impacto com as memórias da relação com sua avó, já falecida, que imigrou de Okinawa ao Brasil após a Segunda Guerra. Como foi revisitar essas memórias pessoais e familiares que confluem com a história de muitos imigrantes que chegaram ao nosso país?

L. K.: Foi um processo longo, dolorido, mas também muito luminoso! A relação com a minha obá, minha avó, era atravessada por muitas questões de divergências de gerações, mas também por muito amor! Muitos silêncios, coisas não ditas.

Obá Nu Mun para mim foi um processo de cura da nossa relação, foi um processo de escutar o que eu tinha que aprender com isso que emergiu a partir da nossa relação e após a morte dela. E sinto que tudo isto foi me conduzindo para descobrir cada vez mais sobre essas histórias sobre Okinawa, sobre aspectos da imaginação e essas relações.

Serviço
Mabui, do Núcleo Lúcia Kakazu
Até 24 de abril. Sextas e sábados, às 19h e domingo, às 17h. 
Teatro Popular João Caetano – Jardim (área externa) – R. Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo – SP 
60 minutos.
12 anos.

FICHA TÉCNICA

DIREÇÃO, CONCEPÇÃO E PERFORMANCE – Lúcia Kakazu
PERFORMER E MÚSICO (SANSHIN) – Ricardo Kakazu
ORIENTAÇÃO ARTÍSTICA – Elias Cohen
ASSISTENTE DE DIREÇÃO e FOTOGRAFIA – Suellen Leal
PROVOCAÇÃO ARTÍSTICA – Emilene Gutierrez
DIREÇÃO MUSICAL – Victor Kinjo
TRILHA SONORA – Victor Kinjo e Ricardo Kakazu
FIGURINO – Andreia Hiromi
CENÁRIO – Catarina Gushiken
ILUMINAÇÃO – Mauro Martorelli
APRIMORAMENTO TÉCNICO – Beatriz Sano, Bruna Oshiro, Inês Terra e Satoru Saito
CONVERSAS RITUAIS – Beatriz Nagahama, Laís Miwa Higa, Karina Satomi, Gabriela Shimabuko, Victor Hugo Kebbe, Victor Kinjo
ENCONTROS HÍBRIDOS – Urubatan Miranda e Fredyson Cunha
DESIGN GRÁFICO – Satsuki Arakaki e Shima
PRODUÇÃO EXECUTIVA – Mariana Novais – Ventania Cultural

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Bacharela e licenciada em Letras Português-Espanhol, pela FFLCH-USP é redatora, tradutora, professora de espanhol e de português como língua estrangeira. Também é atriz com formação pelo Senac e pela Oficina de Atores Nilton Travesso. Ama o mundo da comunicação e das artes, a cultura brasileira, espanhola e latinoamericana, (além de teatro e performance, literaturas dos mais diversos tipos e lugares, filmes e natureza.) E claro, também ama viajar, como uma boa alma inquieta e wanderlust. @samnascimentoarts

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