Entrevista com Dulce Rangel, autora de Onde Está Você | e-Urbanidade

0

O livro fala sobre a perda e o luto, e é ideal tanto para crianças, quanto para adultos

Dulce Rangel – Foto: Lise Colette

Como lidar com a partida de um ente querido e a solidão de saber que ele nunca irá voltar? Foram com essas perguntas em mente que Dulce Rangel escreveu o livro Onde Está Você.

A obra, do selo Livre Pensar Editorial, está à venda no site da Amazon, tanto em sua versão física, quanto em e-book. Quem possui a assinatura do Kindle Unlimited pode ler o livro gratuitamente.

Além do texto escrito por Dulce, a obra também conta com ilustrações sensíveis em aquarela feitos pela designer Maria Diva. Apesar de ser apropriado para crianças a partir de 7 anos, o livro foi feito para todas as idades – seus temas são universais tanto para crianças, quanto para adultos.

A criação de Onde Está Você partiu de uma dor pessoal. Em 2016, Dulce Rangel perdeu o marido, Guy, após anos de luta contra uma doença grave. Quatro anos depois, o livro chegou ao mundo em meio a um momento de luto universal: a pandemia do novo coronavírus. Além de homenagem, a obra é um abraço carinhoso em qualquer um que já passou por uma perda de qualquer espécie.

Livro Onde Está Você

Voltado para o público infantil, Onde Está Você coloca em palavras vários sentimentos que envolvem o processo de luto, indo muito além da tristeza. Por meio do livro, o público jovem aprende a identificar a culpa, a raiva, a solidão e, acima de tudo, a sensação de finitude da vida. Tudo isso enquanto observa os “espaços vazios” das páginas e as ilustrações que vão ganhando cor do início ao fim da obra.

A ideia de Dulce é criar uma corrente com instituições que ajudem a lidar com o luto. “Boa parte da edição visa ajudar gratuitamente entidades que trabalhem diretamente com a perda, para isso estou buscando formas de contato com as mesmas para que livros sejam enviados e isso possa ser concretizado”, conta.

Falar sobre temas complexos para o público infantil não é novidade para Dulce. Em sua trajetória como escritora já lançou diversos livros em que ajuda crianças a lidarem com o trauma e elevarem sua autoestima. Uma de suas obras mais conceituadas é Um Amor de Confusão, lançada em 1994 pela Editora Moderna.

Após o lançamento do livro, Dulce Rangel conversou com o Blog e-Urbanidade sobre o processo de escrita do livro, seu significado em meio a pandemia, e muito mais. Confira a seguir.

#1 – Blog e-Urbanidade: Apesar de falar sobre o luto, Onde Você Está não se prende apenas à perda da morte. Como foi o processo de escrita do livro, para que ele fosse tão pessoal, mas ao mesmo tempo tão universal?

Dulce Rangel: O que me fez escrever foi primordialmente o amor. Foi o imenso amor que sinto por meu marido que me fez ter coragem de mergulhar na saudade e colocar para fora todo o duro caminhar que eu mesma percorri durante anos até que eu me reencontrasse como pessoa após sua partida. Também o amor pelos filhos que perderam um pai maravilhoso e companheiro, além de um amor solidário a todos os que passam pela dor da perda. Tanto que, apesar de ter feito o livro como homenagem a meu marido, ele é dedicado ao leitor ou, caso o leitor assim deseje, a quem partiu. Ou deixo o “para você” da dedicatória livre à decisão de cada um.

Falar sobre perda, luto e saudade de forma leve e bonita não é algo simples e da forma que eu desejava era mais difícil ainda.  Eu diria que exigiu muita força para fazer esse mergulho interno e criar. Quando Guy faleceu, eu perdi muito mais que o marido: o melhor amigo que pude ter na vida, aquele que por mais de 35 anos viveu a vida ao meu lado de uma forma inesquecível e me ensinou tantas coisas… Perdi meu braço direito e meu chão porque já nem sabia mais quem eu era, o pai de nossos dois filhos, o amor de minha vida e, como não poderia deixar de ser, perdi a mim mesma após sua partida.

O que está em Onde Está Você é exatamente o caminho interno que fiz até recobrar minhas forças. Os versos vão narrando tudo o que senti até conseguir me reerguer, por isso levou algum tempo até que eles saíssem.

Todos passamos por vários tipos de perdas e lutos durante a vida. Isso é inevitável e requer um longo aprendizado de como viver. Quando pensei na possibilidade de que o que estava sentindo, da dor de minha perda e a saudades infinitas de Guy virassem o livro Onde Está Você, eu já tinha em mente tudo o que desejava e não desejava nele, e para tal, além de outras questões, queria que fosse um livro de conteúdo aberto, abrangente para que cada leitor conseguisse se “ver” na própria história.

#2 – Onde Está Você foi escrito lançado em meio a pandemia, onde o sentimento de luto se tornou praticamente coletivo – o que torna o livro ainda mais necessário. O cenário atual a motivou a lançar o livro neste momento?

D.R.: Quando veio a pandemia, fiquei em tamanho choque e entristecida com o desenrolar de tudo, que me vi repentinamente sem condições de pensar mais no mesmo. Então, precisei dar uma pausa com as ilustrações porque, assim como todo mundo, me encontrei totalmente perdida em meio a tudo que ocorria. Precisei de dois meses para ter coragem de seguir com o projeto após reconhecer que falar sobre a perda era necessário.

#3 – Como foi o processo de criação da estética do livro, em relação às ilustrações?

D.R.: Desde o princípio eu queria que o leitor se encontrasse no que estava sendo descrito o que não deveria ser explícito e apenas sugerido. O que implicava numa não definição do personagem principal, mas apenas uma representação simbólica do mesmo por igual motivo. Queria que as ilustrações fossem apenas sugestões e não acompanhassem o que estava sendo descrito de forma que suas próprias emoções fizessem com que cada um entrasse na história com suas próprias experiências pessoais. Que suas memórias e as vivências com quem partiu estivessem ali sugeridas para que o leitor desse seu próprio mergulho individual em direção ao encontro de si mesmo no processo de leitura.

Também o livro deveria ser minimalista na forma para que possibilitasse livremente esse caminhar interno. E o leitor, gradualmente, descobrir como encontrar dentro de si maneiras de resgatar o que de melhor quem partiu legou. Encarando a ausência de modo lúdico e até mesmo mágico, como um jogo para o qual existe solução.

Como sou designer e também ilustradora, trabalhei dois meses nas ilustrações a lápis e fiz todo um trabalho de tratamento de imagens que, infelizmente, não chegou onde eu desejava. Então minha filha me propôs a criação de um conceito que seria um guia para o ilustrador contendo ao lado de cada verso o que e como ele deveria ser ilustrado, a distância das figuras, e outras especificações. Além disso, definimos como ocorreria a paulatina entrada das cores ilustrando o caminhar do próprio leitor diante da narrativa.

Na sequência convidei Maria Diva Tardivo que, além de artista plástica é psicóloga, não só se apaixonou pelo projeto como foi incansável em sua busca de estilo de traços que nos agradasse e atendesse ao que eu imaginava como o minimalismo de linhas, os brancos que seriam a meu ver as pausas que o leitor teria para seu próprio respiro e mergulho na história e em si mesmo. E a beleza e riqueza de seu trabalho fala por si mesma.

#4 – Qual era a ideia que você e Maria Diva desejaram passar com as ilustrações?

D.R.: Desde a concepção o mais importante eram mesmo as sugestões e indefinições de locais ou situações. Desde as primeiras artes do livro, como os traços, o labirinto, pequenos detalhes e as demais aquarelas, o que surgem são todas figuras simbólicas que apenas têm o intuito de levar o leitor ao seu próprio universo interior para que ele possa caminhar por sua experiência de forma que, através dos passos indicados pelo próprio livro, ele consiga chegar aos seus sentimentos mais profundos e assim, conquistar o respiro necessário. 

Na grande maioria dos livros infantis a ilustração acompanha simplesmente o que está sendo descrito, mas esse é um livro para VIVENCIAR e confio na percepção das crianças que, inúmeras vezes, sentem e compreendem as coisas mais singelas e puras muito mais que os adultos. Assim como confio plenamente em sua inteligência e queria que fossem despertadas para o que ocorre com elas nesse momento de dor e conseguissem se conhecer um pouquinho mais e, assim, valorizarem o que realmente vale a pena: ter tido aquele ser tão importante em sua vida. E digo ser, porque ela pode ter perdido, por exemplo, um animal de estimação, não? Seus pais podem ter se separado e ela estar vivendo um luto diferenciado. E a dor é muito semelhante!  As perdas na vida são inúmeras e busquei que de certa forma elas estivessem no livro representadas.

 #5 – Apesar de ser um livro infantil, Onde Está Você também conversa muito com o público adulto, por falar de temas que são universais. Você sente que há uma diferença na interpretação do livro, vinda de um leitor jovem e um leitor mais maduro?

D.R.: Adorei a pergunta e sim, tenho notado respostas diferentes à sua leitura, digamos assim. Porque a criança não tem bloqueios e é muito mais aberta a interpretações livres que os adultos. Principalmente às sugeridas pelas próprias ilustrações.

Mas sempre existe um lado de pureza em todo adulto. Tenho visto respostas bastante interessantes, muito bonitas com pessoas que se encantaram com o livro e o deram de presente a outros adultos que, por sua vez, vibraram e se emocionaram demais com a história.

#6 – Por que esse tema para o público infantil?

D.R.: Por ser um tema que muitos evitam, alguns temem, outros tantos não sabem lidar, mas que é extremamente necessário.

Todos encararemos a morte, todos viemos com prazo de validade, o que, a meu ver, não deixa de ser uma bênção, porque permite que valorizemos nosso papel no mundo e tenhamos a chance de fazer a diferença. E todos viveremos perdas e enfrentaremos lutos em suas mais diversas formas. Para que evitar falar sobre o assunto?

O evitar diz muito mais sobre o adulto que tem dificuldade de lidar com isso do que a maioria das crianças. Tenho absoluta certeza que elas compreenderão se a temática for apresentada de forma real e positiva, lhe dando chances de que ela trabalhe essa questão internamente. Dessa forma ela não só se conhecerá melhor como conseguirá enfrentar os desafios da vida da melhor maneira possível.

#7 – Você poderia nos contar um feedback que recebeu, de uma criança ou adulto que leu os seus livros, que mais te emocionou?

D.R.: De uma criança foi a interpretação que ela deu para arte da piscina vazia. Me emocionou demais a abrangência com que ela visualizou a cena. 

Quanto aos adultos tive vários feedbacks. Um deles me tocou demais porque a pessoa em questão, após várias perdas e lutos difíceis (uma filha e depois seu marido) há anos não conseguia chorar. A dor estava estagnada e, após ler o livro, o choro surgiu, e com ele ela pôde ter a leveza que tanto necessitava e da qual nem tinha consciência.

Mas existem adultos que não sabem enfrentar a dor e fecham seus sentimentos negando e os guardando em uma caixinha obscura dentro do peito. Estes terão dificuldades com o livro, porque esse pede abertura das emoções e coragem de se entregar aos sentimentos mais puros.

#8 – Qual foi o seu maior desafio?

D.R.: Acho que cumprir o que eu desde o início pretendia, porque sem isso de nada valeria eu me debruçar para fazê-lo. Nada. O maior desafio foi ter a simplicidade do texto, a verdade inserida de forma que cada um que o lesse conseguisse se conectar com a sua própria essência e alma.

Mas o maior desafio de todos foi ter a coragem de criar. Pode não parecer, mas falar sobre o livro me toca demais também. Nesse momento da entrevista tive de engolir a emoção muitas vezes para seguir em frente. Afinal, não é porque encontrei um caminho em mim mesma, uma conexão eterna com meu marido, que a saudade não exista. E cada vez que tenho de falar sobre o mesmo, o amor me inunda e me sustenta, mas a falta volta a surgir e a sensibilidade fica à flor da pele.

Como eu sempre vivi a vida intensamente, sei que vivê-la assim me permite rir ou chorar com igual intensidade e plenitude porque estou inteira e viva! E não abro mão disso por nada nesse mundo.

#9 – Por fim, qual mensagem você deixa para quem também passou pelo tipo de perda descrita em Onde Está Você

D.R.: Eu gostaria de repetir que o amor, o verdadeiro amor, é mais forte que tudo. Até da morte. Porque ele se sustenta, e não é só em memórias não, porque senão seria algo volátil e inconstante, digamos assim, mas é algo forte e interno mesmo. Tem a dor, e eu sinto muitas, muitas saudades de Guy mas ao mesmo tempo tem uma sensação de paz, de tranquilidade de que ele estará para sempre comigo.

Nós sabemos tão pouco sobre a vida, mas eu acho que as emoções puras e boas, quando a gente permite que elas ocorram e não tem receio de senti-las, mostram um caminho que não tem como a gente racionalizar, como tentar comprovar e, simplesmente, devemos apenas permitir vivenciar isso.

Meu maior desejo com o livro talvez seja esse: de que as pessoas permitam que as saudades se transformem numa coisa muito bonita e muito, muito poderosa. Não negando a dor mas a transformando em algo positivo alimentado pelo infinito amor por aquele que partiu. Que as pessoas permitam essa conexão, digamos assim, com aquele que amam, porque se permitirem, ela é forte, única, eterna e maravilhosa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui