Entrevista com Arthur Haroyan, autor de O Armênico

0
92
Arthur Haroyan – Foto: Kim Leekyung

Já imaginou deixar a sua terra natal para seguir o sonho de viver do outro lado do mundo, em um país com costumes e língua completamente diferentes da sua? Essa é a história real que o ator Arthur Haroyan conta no livro O Armênico, que está em pré-venda no site do Grupo Editorial The Books.

Nascido na Armênia, desde cedo Arthur sonhava em morar no Brasil – feito conquistado em 2008, quando foi radicado cidadão brasileiro.

Na sua terra natal começou a perseguir a carreira de ator, participando de mais de 20 peças no Teatro Estadual Hovhannes Abelyan.

Por aqui fundou o grupo teatral ARCA e escreveu diversas peças, como 1915, dirigida por Rogério Rizzardi e Fora Desse Mundo, dirigida por Kléber Góes e Benjamin. Atuou em peças como A Escolha, Agreste e Malandragem S.A., e em curtas como Um Gole de Conhaque ou um Perfume Qualquer e Uma Chamada Perdida.

Essa trajetória deu origem ao livro O Armênico. Com muito bom humor, Arthur conta histórias divertidas sobre sua mudança pra cá.

Em 2020, por conta da pandemia e das fronteiras fechadas, ficou impossibilitado de encontrar a família, que estava sob ataque durante um conflito na Armênia. Como uma forma de ajudar neste momento difícil, doou os direitos autorais do livro para o Fundo Nacional da Armênia, que atende famílias atingidas pela guerra.

Arthur conversou com o e-Urbanidade e falou sobre sua trajetória, relação com o Brasil e muito mais.

#1 – e-Urbanidade: Como surgiu a ideia para a criação do livro?

Arthur Haroyan: Quando me mudei para o Brasil, em 2008, devido ao meu sotaque muita gente perguntava de onde eu era. Respondia que sou da Armênia e a pessoa perguntava: “A estação?”. As pessoas desconheciam meu país, não sabiam que o nome da estação é uma homenagem ao meu país. Essa pergunta me seguia em todo lugar. Um dia desencanei e concordei, dizendo que sim, sou da estação, das margens do Rio Tamanduateí. Vivia na plataforma do metrô (risos).

#2 – Por que decidiu lançar o livro neste momento?

A.H.: Chegou um momento em que quis compartilhar a minha história e a minha vivência com o povo que eu escolhi como meu. Juntei tanta história que os meus amigos me disseram “Está na hora!”. É sempre bom ouvir sobre outras culturas e tradições, e é melhor ainda quando você vem de um país totalmente diferente. Há um choque cultural! Inclusive isso pode virar um roteiro de filme, como o famoso Casamento Grego. Não há um momento certo para criação ou lançar algo, você faz quando sente necessidade.

#3 – O Armênico conta a sua trajetória de maneira leve e divertida, por meio de histórias engraçadas e inspiradoras. Qual foi a maior dificuldade na hora de escrever o livro e escolher quais histórias contar?

Capa de O Armênico

A.H.: Eu posso descrever o livro como uma comédia, porque com a minha família armênia exagerada, não podia ser outra coisa. Passei por cada situação! Às vezes nem essas situações são normais para os armênios, só que a minha família é uma exceção.

Eu tive que literalmente fugir dos meus casamentos arranjados, participar no “sequestro da noiva” para o meu amigo… Muitas coisas surreais que para o leitor brasileiro pode parecer uma ficção.

Rejeição, primeira maconha, trajetória artística e tudo isso contado de uma maneira leve, pois temos que levar a vida assim. Mas há dois capítulos que eu viro a página.

[Um deles é] sobre o terremoto que destruiu o norte do meu país e fiquei embaixo dos escombros por quase quatro horas, até ser resgatado. E a morte do meu cachorro, que virou a peça de teatro Benjamin. E ai, sempre no final do espetáculo havia um cão resgatado pelas ONGs parceiras e a plateia podia adotar.

Foram adotados 13 cachorros e deles foi amparado pelo Projota. Também arrecadamos duas toneladas de ração e doamos para as ONGs.

#4 – Sabemos que o Brasil e a Armênia são países muito diferentes. Mas, para você, o que os dois têm em comum?

A.H.: Há muitas coisas em comum, mas gostaria de sublinhar uma – o povo. Sim, meu povo é sofrido e durante séculos lutou muito para manter a sua identidade. Mas ambos são positivos, hospitaleiros, gostam de festas, são calorosos e adoram abraçar.

#5 – Além das situações divertidas que você viveu aqui no Brasil por conta do choque cultural, você sofreu algum tipo de descriminação no mercado teatral ao chegar por aqui?

A.H.: Sim, inclusive recentemente, nas redes sociais. Eu não divido os brasileiros entre nordestinos, baianos, gaúchos, negros, brancos, índios – todos são brasileiros e eu faço parte deste povo, pois escolhi me naturalizar. Tenho passaporte brasileiro. E quase sempre quando vou fazer um teste para alguma série, comercial ou filme, interpreto um gringo.

Gostaria de quebrar esse estereótipo um dia. Não gostaria de ser sempre o estrangeiro, o gringo. Vivo neste país, pago minhas contas, tenho um grupo de teatro, eu crio aqui. Tudo o que outro artista brasileiro faz. Quero quebrar este estereótipo.

#6 – Antes de chegar aqui no Brasil, você já tinha uma carreira como ator da Armênia. Para você, quais são as maiores diferenças entre o fazer teatral brasileiro e armênio?

A.H.: A minha carreira consciente e profissional começou no Brasil, pois nem falava português direito. Me formei em artes cênicas aqui. Mesmo que a minha carreira tenha começado por lá, não tive oportunidade de seguir carreira, porque minha família não queria filho artista.

Eu acho que lá, para os atores de teatro, é mais fácil de sobreviver. Não tem grupo de teatro, porque o teatro é estatal. Você tem um emprego, recebe salário e sempre está em cartaz. Aqui já é muito difícil, há muitos grupos que batalham para conseguir algum edital para ter dinheiro, alugar teatro e se produzir. É um desafio e eu o aceitei. Meu grupo de teatro ARCA existe há 11 anos – pesquisamos, criamos, montamos. Somos uma família. Lá eu não tenho este problema.

Serviço

Livro O Armênico, de Arthur Haroyan
Editora: The Books

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here