Entrevista com a escritora Amara Moira, autora de Neca

Novo livro de Amara Moira, reúne a primeira versão do seu monólogo experimental em pajubá e 20 poemas seus sobre vivências travestis.

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Amara Moira - Foto: Cintia Antunes
Amara Moira - Foto: Cintia Antunes

Amara Moira é travesti, feminista, doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e acaba de lançar seu terceiro livro: Neca. Lançamento da Editora O Sexo Da Palavra, conta a história de uma travesti que vivia da prostituição e passa a refletir sobre amor, hipocrisias e fantasias sexuais.

Neca tem importante participações. Amanda Palha assina o prefácio, Caia Maria Coelho, o posfácio e Lino Arruda, duas ilustrações. O escritor Marcelino Freire escreveu a contracapa da obra.

Moira que é também autora do livro autobiográfico E Se Eu Fosse Pur(t)a, lançado em 2016, conversou com o e-Urbanidade sobre seu novo livro.

#1 – e-Urbanidade: Neca é um livro de poesias escrito em pajubá. Explica para o nosso leitor o que é o pajubá.

Amara Moira: Pajubá é uma língua que foi se forjando no seio da cultura travesti, com um propósito de segurança. A ideia era conseguirmos nos comunicar sem que quem fosse de fora entendesse.

A base é o iorubá dos terreiros (erê, ajeum, padê, etc), mas tais palavras foram ganhando outros significados na comunidade travesti. Significados que apontam para as questões que atravessam as vivências desse grupo. Além disso, a língua foi se expandindo pela incorporação de falares de todo o Brasil, pois a comunidade travesti é muito marcada pela migração, podendo-se escutar o português de todos os cantos do Brasil num mesmo lugar.

E, por fim, num gesto que entendo como antropofágico, o pajubá ainda foi se apropriando de palavras dos idiomas de países onde há uma forte presença de travestis brasileiras, como o francês, o italiano e o espanhol. Um caldeirão linguístico, portanto, no qual se inscreve a história do nosso país.

#2 – Tanto James Joyce, como Guimarães Rosa, exploraram uma nova linguagem em sua literatura. Há algumas semelhanças em Neca desta busca de inaugurar uma nova linguagem?

A.M.: São duas das referências mais importantes para toda a minha escrita. Dois escritores que pautaram sua escrita pela experimentação, pela fusão de linguagens, de registros, pelo ouvido atento para com a oralidade, para com as palavras que sequer conheciam registro escrito ou definição em dicionário.

#3 – Neca traz poemas feitos durante 15 anos, antes mesmo do seu processo de transição. Como o público pode perceber seu processo nas diferentes páginas?

A.M.: Muitos dos poemas foram escritos antes da minha transição, mas quando eu já possuía um contato vivo com a cultura travesti. Relacionamentos que vivi lá atrás foram a minha porta de entrada e o maravilhamento que senti à época ficou registrado nesses poemas que trago agora em Neca + 20 Poemetos Travessos.

É interessante pensar nas mudanças que há entre os poemas que escrevi lá atrás e os de depois da minha transição. Ao meu ver, essas duas fatias da minha produção se complementam. Uma falando do fascínio que eu sentia pela travestilidade antes de conseguir me imaginar/me aceitar travesti. Outra da vida que passei a enfrentar a partir do momento que me fiz Amara.

#4 Qual foi o papel da literatura e da sua escrita no seu processo de transição? 

A.M.: A transição me fez conhecer um mundo completamente desconhecido. Um mundo que eu julgava conhecer, mas que eu conhecia só de fora, e a partir dela eu o conheci de dentro também.

Escrever sempre foi algo que deu sentido à minha vida, mas antes a escrita era pura experimentação, como se eu estivesse treinando para o momento em que encontrasse o meu propósito enquanto escritora. E, com a transição, é como se eu encontrasse esse propósito: dar a conhecer a realidade travesti, convidar as pessoas a vivenciarem experiências travestis pelas minhas palavras.

#5 – Na sua opinião, qual a intencionalidade de Guimarães Rosa ao criar um personagem trans em Grande Sertão: Veredas?

A.M.: Possível que ele nem soubesse o que estava forjando, como eu própria não tenho muita consciência a respeito do monstro que acabei de publicar. As obras literárias são assim: vão se reinventando conforme o tempo passa, conforme as palavras se transformam.

A questão é que, hoje, com a emergência incontestável de subjetividades transmasculinas (os homens trans), não é possível mais dizer que Diadorim é somente uma mulher travestida de homem, uma mulher se passando pelo que não é. À época já existiam sujeitos que tais, mas suas existências eram completamente apagadas, a ponto de quase ninguém ser capaz de ver um desejo de se afirmar homem, de ser reconhecido como homem, de viver como homem, em Diadorim.

Uma obra que, meio século depois, passa a sugerir novos e inesperados sentidos, uma obra que foi heterossexualizada para não chocar a sociedade da época. Mas hoje não precisamos mais desse tipo de proteção, certo?

#6 – É possível já dizer o que interessa a ser dito na literatura feita por Amara?

A.M.: Tenho tanta coisa pulverizada em revistas, antologias e sites, que provavelmente encheriam mais vários livros. Não estou com pressa, porém, pois quero ser capaz de pensar cada publicação, pra não me arrepender de tê-las publicado posteriormente.

Com relação ao que pode ser encontrado nas minhas obras, penso que, assim como Joyce tinha uma obsessão por Dublin e quis que toda a humanidade conseguisse se enxergar a partir de suas personagens de lá, eu pretendo escrever sobre travestis por toda a vida. Tudo isso na expectativa que um dia a parcela não-travesti da sociedade consiga se ver nas minhas personagens, consiga vê-las (e ver-nos) como tão humanas quanto as de Joyce e outros escritores.

Serviço
Neca – 20 Poemetos Travessos
Amara Moira, 2021.
64 páginas.
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