Entrevista com a atriz Nicole Cordery | Blog e-Urbanidade

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Nicole Cordery - Foto: Patricia Canola
Nicole Cordery - Foto: Patricia Canola
Nicole Cordery - Foto: Patricia Canola
Nicole Cordery – Foto: Patricia Canola

Pandas, ou era uma vez em Frankfurt é teatro, mas não é teatro. É uma experiência teatral online ao vivo, porém tem elenco, dramaturgia e diretor. No entanto, não tem palco, já que é feito em casa. Então, pra entender tudo isso, a entrevista desta semana é com a atriz Nicole Cordery, idealizadora do projeto, ao lado de Mauro Schames.

Com direção de Bruno Kott, com duração de quarenta minutos e feito no aplicativo Zoom, o texto do dramaturgo romeno Matéi Visniec conta sobre o encontro de um saxofonista com sua namorada.

Venha entender tudo isso.

#1 – BLOG e-Urbanidade: Você falam que Pandas, ou era uma vez em Frankfurt não é teatro, mas definem como teatro on-line. Esta reclusão não é uma oportunidade de pensar uma nova forma de pensar e fazer o teatro?

Nicole Cordery: Nós definimos o que estamos fazendo como uma Experiência Teatral online, com microfones abertos para o público. Eu acredito que não seja teatro se pensarmos no espaço físico teatral. Estamos em casa, em lugares distintos, eu, o outro ator e o diretor. Mas o que eu faço, em termos de atuação, internamente, é teatro.

Minhas escolhas físicas para interpretar pertencem ao campo do teatro e não ao campo do cinema ou do vídeo. A estética, sim, é híbrida. Mistura interpretação teatral com fundos e câmera parada. Mas, acho que o mundo em que estamos inseridos agora está mais para o híbrido do que para definições estanques. Portanto, é e não é teatro.

#2 – O dramaturgo Matéi Visnic tem uma visão muito frequente sobre a imigração e os reflexos do capitalismo. Pandas, ou era uma vez em Frankfurt vai também por essa temática?

N.C.: O Matéi tem uma produção dramatúrgica bastante extensa. A peça A História dos Ursos Pandas (contada por um saxofonista que tem uma namorada em Frankfurt) fala do encontro de dois seres. Ela poderia ser a morte. A nossa adaptação, com dramaturgismo do Bruno Kott, se chama Pandas ou Era uma vez em Frankfurt. Ela faz um recorte a partir da peça do Matei.

Nossa proposta dura quarenta minutos, tempo que consideramos justo para atenção de um público que está em casa e precisa se conectar conosco através de uma tela. Ele e Ela se encontram, cada um na sua tela, mas estranhamente acordaram juntos.

O texto absurdo vai se revelando real e pertinente para o período de pandemia. Não acredito, que, como atriz, eu escolhesse esse texto para uma montagem formal no teatro, mas essa adaptação e esse recorte me parecem extremamente pertencentes a esse momento de quarentena.

Pandas ou Era uma vez em Frankfurt - Foto: Bruno Kott
Pandas ou Era uma vez em Frankfurt – Foto: Bruno Kott

#3 –  Qual a urgência do texto de Matéi para esses dias de Covid-19?

N.C.: Falar de encontros, virtuais ou não. Falar do humano, de esperança, de afeto. De conexão, em seu sentido mais amplo. Conexão humana, conexão de internet, conexão planetária. É urgente para mim estarmos juntos. A sociedade nos apresenta a necessidade de nos isolarmos para não nos contaminarmos.

Muitos amigos estão atravessando momentos de depressão, de solidão e desesperança. Pandas, ou era uma vez em Frankfurt traz a possibilidade do encontro. Seja entre esses dois personagens absurdos, seja entre um público de 25, 30 pessoas que escolheu estar junto com a gente, ao vivo, online. Respirando com seus microfones abertos e dialogando com a gente ao final de cada apresentação.

#4 – Como nasceu a ideia deste projeto? 

N.C.: Foi uma loucura. Muitas horas diárias de ensaio. Eu e o diretor, Bruno Kott nunca nos encontramos pessoalmente, ele já me viu em cena, mas eu não o conhecia.

Quem trouxe o texto foi o Mauro Schames, esse ator que eu sempre admirei, mas não tinha muita intimidade. Nos conhecíamos, mas não éramos amigos. Logo no começo da quarentena trocamos mensagens pelo Instagram e ele perguntou se eu conhecia esse texto. Eu não conhecia e nós o lemos via Zoom. Eu gostei do texto, achei que poderia ser um bom exercício de quarentena.

Apareceu o Edital do Itaú Cultural e pensamos em adaptar aquela história. Mauro sabiamente sugeriu o Bruno Kott, um artista que já pesquisava cinema no teatro e linguagem teatral no cinema. Bruno é um artista autoral, ator, diretor de teatro, diretor de cinema, autor teatral.

Bruno rapidamente fez uma proposta de dramaturgismo, sugando do texto do Matei o que era mais potente e pertinente ao nosso momento. Trouxe a estética kicht dos fundos, uma linguagem pop, que vai caminhando para o mais simples. Dois seres humanos e uma vela acesa que se apaga.

#5 – E como o período de pré-produção e, agora, durante as apresentações?

N.C.: Ao sabermos que não fomos selecionados, percebemos a riqueza que tínhamos nas mãos. Ensaiamos diariamente, como se ensaia uma peça que vai estrear. Quem faz a iluminação, cenografia somos nós.

Bruno orquestra tudo. Ele recebe o público. Dá as instruções, é o bilheteiro e administrador do teatro. Coloca o vídeo de abertura e as saídas de áudio. Eu e Mauro trocamos os nossos fundos, administramos a iluminação da nossa casa, nossos figurinos e objetos de cena que entram e saem do campo do visão do espectador. É tudo bastante artesanal, na verdade.

#6 – Assim como no teatro ao vivo, uma apresentação é única e a montagem sofre mudanças no contato com a platéia, no teatro online isso é possível?

N.C.: Sim, completamente. Tudo interfere. Os microfones do público ficam abertos. Se uma pessoa boceja, fala sobre outro assunto e nós ouvimos, isso interfere no jogo. Se no meio da peça está acontecendo um panelaço e de vários lugares ouvimos panelas e gritos, isso interfere na peça.

Se uma risada alta invade, isso interfere. Cada apresentação até agora foi diferente da outra. Dependendo da chegada do público, das perguntas que eles fazem, se alguém demora a chegar, tudo isso interfere no estado emocional dos atores. Estamos vivos, ali, naquele momento. Essa é a proposta.

#7 – O que a Nicole espera pessoalmente e para o teatro depois do fim da reclusão?

Eu espero voltar aos palcos e eu espero a cura da humanidade, em todos os sentidos. Confesso que vejo essa nossa proposta como algo que possa ser levada aos palcos no futuro. Que possamos reproduzir essas células de existência paralela de cada ator na sua bolha.

Não vejo problema em, no futuro, continuar fazendo os Pandas online. Uma coisa que essa experiência trouxe, e que eu julgo positiva, é o fato de pessoas de qualquer lugar do mundo poderem nos assistir ao vivo. É tudo muito novo pra mim, mas acredito no caminhar, no desbravar.

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