Entrevista com a atriz, dançarina e cantora Mariana Gallindo | Blog e-Urbanidade

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Mariana Gallindo - Foto: Karen Gadret
Mariana Gallindo - Foto: Karen Gadret
Mariana Gallindo - Foto: Karen Gadret
Mariana Gallindo – Foto: Karen Gadret

Imagine um espaço em que mulheres idosas podem praticar exercícios e, ainda, se sentirem atraentes: essa é a premissa do projeto SEXagenárias, criado pela atriz, dançarina e cantora Mariana Gallindo. Por meio de aulas de dança presenciais e, agora, onlines, a bailarina devolve a autoestima para senhoras com mais de 60 anos de São Paulo.

Por conta da pandemia, as aulas estão sendo feitas por videoconferência. Além disso, Mariana também disponibiliza aulas de 30 minutos gratuitas em seu canal de YouTube.

Mariana possui um vasto conhecimento tanto em dança, quanto em atuação. Estrela dos musicais, ela já trabalhou em produções como Hair e Chacrinha: O Musical. Formada em ballet clássico pela Royal Academy of Dancing, em Nova York, a atriz também já foi stand-in de Claudia Raia em Cantando na Chuva e Ingrid Guimarães em Annie.

A paulistana ainda tem um novo projeto em mente: em fevereiro de 2021 planeja abrir a Casa Henriquieta, ambiente também voltado para a terceira idade, onde ministrará aulas de crochê, dança, teatro musical, canto e coral. As turmas terão no máximo seis alunas, seguindo todos os protocolos de segurança referentes à Covid-19.

E essa não é a única novidade. No dia 19 de janeiro a atriz estreia na novela Gênesis, da Record, interpretando a personagem Zade. Tudo isso enquanto mantém o projeto Bug do Milênio – shows mensais feitos pelo Instagram ao lado do marido, Marcel Octávio.

Em meio a todas essas novidades, o Blog e-Urbanidade conversou com Gallindo sobre o projeto SEXagenárias, seus trabalhos mais desafiadores e próximos passos na carreira. Confira a entrevista completa a seguir.

#1 – Blog e-Urbanidade: Como surgiu a ideia de dar cursos de dança para mulheres mais velhas?

Mariana Gallindo: O começo de tudo foi o aniversário de 60 anos da minha mãe. Eu via nela uma mulher forte, poderosa, linda, mas ela não se via assim. Eu queria que ela se sentisse da maneira que eu a enxergava, e não da maneira que ela se cobrava por não ser. Então resolvemos juntas celebrar essa passagem com uma festa SEXy, SEXagenária.

A brincadeira logo contagiou todas as amigas dela, resolvemos fazer uma apresentação surpresa para os convidados do aniversário e foi um sucesso! A partir de então dei continuidade aos ensaios, agora no formato de aulas mesmo e assim surgiu este projeto que eu amo.

#2 – Qual é a importância dessas aulas para as alunas da “melhor idade”?

M.G.: Tenho uma aluna que fala que “melhor idade” é só para quem não chegou lá, porque a dor é grande. Mas a ideia é exatamente mostrar que essas dores e as mudanças óbvias, tanto físicas como de rotina, são parte da vida, e aceitar com leveza a nova realidade que aparece.

O que noto nas alunas é um novo olhar que elas dão para si mesmas ao perceberem que são capazes de fazer uma atividade tão diferente de sua rotina. Nas aulas elas têm a possibilidade de se experimentar como mulheres, de explorar uma faceta diferente e isso dá confiança e energia para todas as áreas da vida.

Outro item que acho extremamente benéfico é a criação de um grupo, seja ele presencial ou online. A possibilidade de saber que existem outras mulheres da mesma idade passando pela mesma situação é confortante e juntas elas conseguem se apoiar e se divertir.

Então acho que a maior importância das aulas é o aumento da autoestima por meio do autoconhecimento, da autoaceitação e da sensação de pertencimento.

#3 – Suas aulas contam com ritmos e canções bem modernas e atuais. Como você seleciona a setlist?

M.G.: Sou bem eclética na setlist das aulas. Busco músicas que me ajudem a desenvolver as sensações que eu quero provocar nelas. Nessa premissa, procuro selecionar as músicas de acordo com o que está tocando no momento e também com as sugestões que elas me enviam. Desta forma a aula fica bem dinâmica e consigo prestigiar quase todos os gostos musicais.

#4 – Todo o projeto SEXagenárias, desde o nome até a escolha das músicas, remete a essa ideia de que mulheres mais velhas podem continuar se sentindo atraentes. Você pode contar alguns exemplos de mulheres que tiveram as vidas transformadas por conta das aulas?

M.G.: O que mais me tocou quando comecei a dar as aulas foi a mudança tão rápida das alunas, como fazer as unhas e pintar os cabelos. Outras mais animadas começaram a sair para dançar juntas. São atitudes muito simples, mas que mudaram completamente a vida dessas mulheres.

Mariana Gallindo - Foto: Karen Gadret
Mariana Gallindo – Foto: Karen Gadret

#5 – Com as suas aulas, sentiu que algumas das alunas mais velhas passaram por uma desconstrução de pensamentos e práticas machistas?

M.G.: O machismo é muito arraigado na nossa sociedade e acho que falar sobre desconstrução seria muita pretensão minha. Mas acho que é um passinho bem pequenininho sim.

Uma mulher de 60 anos que se permite não ser apenas vovó, permite-se dar um tempo na sua rotina para experimentar seu corpo, suas possibilidades, conversar com novas amigas, isso já é uma desconstrução. Mesmo que pra isso acontecer ela tenha deixado o jantar pronto, a mesa posta, a roupa passada e um bilhetinho avisando tudo isso na porta da geladeira.

#6 – As aulas de dança, principalmente para a terceira idade, parecem empoderar muito as alunas. Como você se sente sendo responsável por essa mudança no estilo de vida e na forma como elas se veem?

M.G.: Eu me sinto parte disso. Esse trabalho de empoderamento é minha luta diária. É um lida de autoconhecimento, autoaceitação, de ter um olhar mais generoso comigo. Também de permitir-me ousar, experimentar, errar, de vibrar com as conquistas. 

Além disso, brinco que as SEXagenárias é um projeto quase que egoísta, porque penso em abrir caminhos agora, para melhorar a minha vida futura. Quero ser uma vovó feliz, sexy e poderosa.

#7 – Como foi a criação do projeto da Casa Henriquieta?

M.G.: A criação da Casa Henriquieta veio através do projeto das SEXagenárias. Eu precisava de um lugar para dar aulas e minha avó Henriqueta cedeu a casa dela. Comecei a dar aulas lá e deu muito certo, então decidi oficializar um espaço, com o mesmo propósito de autoconhecimento, socialização. Um refúgio onde as pessoas queiram passar o tempo.

Então ano passado, coloquei as mãos na massa e arrumei tudo, preservei essa cara de casa de vovó, com jardim enorme, decoração com bordados, crochês e tudo que remeta à infância na casa da avó. Lá temos aulas de crochê, canto, dança, teatro musical para idosos, rodas de leitura e outras atividades artísticas que visem o autoconhecimento e a troca de experiências.

Este ano, por conta da pandemia, vamos inaugurar o espaço devagarinho, com turmas super reduzidas e com todos os protocolos de segurança recomendados, já que trabalho principalmente com idosos. Cuidei de tudo pessoalmente, de cada detalhe e espero do fundo do coração que as pessoas que realizam as atividades lá sintam o mesmo carinho que eu sinto quando estou lá.

#8 – Você se formou em ballet e dá para ver que a parte da música e dança é muito presente em sua vida. Esse background te influencia de alguma forma na hora de criar personagens que não são “musicais”, como Zade em Gênesis?

M.G.: Com certeza me ajuda muito! Consigo compor com mais facilidade o tom de voz, o corpo da personagem, mesmo não dançando e não cantando naquele momento. Creio que para qualquer profissão, quanto maior seu conhecimento, mais ferramentas você tem à sua disposição para alcançar seu objetivo e isso ajuda muito.

#9 – Como você faz para conciliar os trabalhos na TV, teatro, aulas de dança, canal de YouTube e agora também com a Casa Henriquieta?

M.G.: Organização. As pessoas têm a ideia de que artista é muito solto, faz as coisas quando dá vontade, espera inspiração chegar, mas não é verdade. Apesar de não ter rotina, procuro criar uma rotina semanal com todas as tarefas que tenho para fazer. Organizo tudo e já deixo um plano B e C na manga, caso o cronograma mude.

Coloco horário para fazer exercício, para escrever, para administrar, até para entrar nas redes sociais, caso contrário não consigo fazer tudo o que eu quero. Ano passado, no meio disso tudo, ainda terminei uma pós-graduação à distância. Até eu fiquei chocada que consegui.

#10 – Até hoje, qual foi o papel ou trabalho mais desafiador da sua carreira?

M.G.: Acho que o mais desafiador foi Elke Maravilha no Chacrinha O Musical. A Elke é uma das personagens mais icônicas do nosso país, conhecida por sua exuberância, suas roupas, perucas, maquiagem, um pulo para ser estereotipada, o que eu não queria fazer. Eu queria muito mostrar sua essência e o medo de isso não acontecer me tirava o sono.

Tive o privilégio de conhecê-la e conviver com ela no tempo do musical, pude entender um pouco seus pensamentos por meio de suas histórias e seu jeito singular de se apresentar perante a vida. Depois de muito ensaio, conversa e inspiração direta da fonte, pude colocar a Elke no palco. Para minha alegria, a personagem teve grande aceitação do público, da crítica e principalmente da própria artista. 

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