Entrevista com a artista Guma Joana

0

Pelo 12º ano consecutivo, o Brasil é o país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo todo — dados compilados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). O país também é o 4º maior produtor de lixo no mundo e, consequentemente, um dos piores exemplos de descarte residual adequado.

A performer Guma Joana / Foto: Sladká Meduza

É através desses dados que a artista travesti Guma Joana desenvolve desde 2020 o (r)e_c0L3t4: C40S P4R4D0XAL, estabelecendo uma triste relação entre o descarte de materiais e de corpos.

Para a criadora, não é apenas coincidência que o Brasil seja o líder mundial nos rankings de países que mais matam a população trans e também dos que mais descartam lixo de forma inapropriada.

A artista que se expressa através das artes visuais e corporais faz uma metáfora sobre como os corpos trans são tratados em nossa sociedade, utilizando em sua performance materiais como plástico, papel, metal e alumínio por serem afiados, cortantes e resistentes.

A artista também apresenta D3SD1T4 #02, uma performance curta composta por oito pessoas trans (travestis, transmasculinos e não bináries) que desfilam vestindo cerca de 30 peças criadas por Guma a partir de materiais recicláveis e designs não-convencionais.

A luta para inserir pessoas trans em toda cadeia de produção artística também se tornou o assunto central que vai guiar a série de lives Representatividade Trans e Trajetória Corpa-Política, entre Guma Joana e a equipe criativa do projeto, assinada integralmente por pessoas trans.

Em meio aos lançamentos da artista, o e-Urbanidade conversou com Guma Joana sobre autorrepresentação e visibilidade, corpos como ferramenta de comunicação e os desafios na carreira.

#1 – Blog e-Urbanidade: Quando o projeto (r)e_c0L3t4: C40S P4R4D0XAL e D3SD1T4 #02 foi pensado e idealizado?

Guma Joana.: Ambos trabalhos foram pensados depois das primeiras edições, nomeadas (r)e_c0L3t4 e D3SD1T4 #01, sendo que o meu desejo já era dar continuidade de uma forma mais “abrangente”. Já a idealização veio da minha parceria com o produtor cultural Jota Rafaelli, da MoviCena Produções.

Sempre gostei do trabalho dos meninos da produtora e ao saber que o Jota também curtia meu trabalho, escrevemos esse projeto pro Expresso Lab e iniciamos uma parceria. Assim, consegui pegar essas questões que estavam já mais intensas e transformar nas minhas novas criações. Foram mais de 6 meses contando com escrita, realização e pesquisa. 

#2 – Gostaria que você falasse um pouco sobre autorrepresentação e visibilidade de pessoas trans e travestis, sobretudo no mundo das artes. Há espaço?

G.J.: Estes espaços estão começando a aparecer, junto das nossas questões. Tive vontade de trabalhar com autonomia ao perceber que eu até poderia ser convidada a participar de trabalhos artísticos, mas geralmente tinha uma curiosidade e uma quase obrigação de trazer muito intensamente as minhas questões, como se eu não fosse uma pessoa/artista como todos os outros do elenco. Sinto que estes espaços serão preenchidos, mas ainda há um caminho enorme para realmente entenderem nossos corpos e saberem lidar com as nossas existências em um ambiente de trabalho. 

#3 – De onde surgiu a ideia de unir esses dois temas? Corpos trans e o meio ambiente? 

G.J.: Primeiro, meu trabalho tinha apenas o meio ambiente e o lixo como investigação. Após algumas vivências e caminhos, percebi que a sociedade lidava com corpos como o meu da mesma forma que lidam com o lixo. Usam, se aproveitam daquilo tudo e depois descartam. 

#4 – Você tem DRT específico de bailarina e estudou aulas de balé clássico e hip hop. Você vê o corpo como uma ferramenta de comunicação e expressão?  

G.J.: Com certeza. Considerando que quem sou hoje é resultante de tudo que fui, estas aulas que estudei e a minha formação com o balé clássico, por exemplo, transformaram a minha forma de movimento e me trazem questões até hoje. Ao invés de me formar (colocar em uma forma, um jeito de fazer já existente) atualmente me desmonto para poder existir e fazer um trabalho que diga sobre mim verdadeiramente. 

#5 – Até hoje, qual foi o trabalho mais desafiador da sua carreira?

G.J.: Sem dúvidas, “(r)e_c0L3t4: C40S P4R4D0X4L”. Desafiei níveis muito maiores que em qualquer outro trabalho que eu já tenha feito. Mesmo já trabalhando com diretores com um trabalho muito desafiador e “punk” de fazer, sinto que estou a muito tempo querendo desenvolver algo que mostre os desafios e a coragem que é necessária para existir sendo uma travesti no Brasil, com todos os riscos e conceitos afiados. E este trabalho diz sobre as minhas vivências como travesti. Existem milhares de pessoas trans que ainda sofrem muito mais que eu. A vida destas pessoas é mais desafiadora que qualquer trabalho artístico, sem dúvidas.  

SERVIÇO
Exibições gratuitas pelo Youtube da Movicena Produções: https://www.youtube.com/movicenaproducoes
 
(r)e_c0L3t4: C40S P4R4D0XAL
De 17 a 22 de junho, às 20h
Duração: 30 minutos | Recomendação: Livre
 
D3SD1T4 #02
De 2 a 4 de julho, às 20h
Duração: 5 minutos | Recomendação: 14 anos

Lives: Representatividade Trans e Trajetória Corpa-Política

De 27 de junho a 1 de julho, às 21h

No Instagram do Movicena: @movicena_producoes

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui