Crítica: Um Picasso, direção Eduardo Tolentino de Araújo

Grupo Tapa apresenta Um Picasso na reabertura presencial do Teatro Aliança Francesa.

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Um Picasso - Foto: Ronaldo Gutierrez
Um Picasso - Foto: Ronaldo Gutierrez

Se historiadores recomendam distanciar-se de uma época para compreendê-la melhor, então o Grupo Tapa propõe-se a olhar para o passado para alcançar os absurdos atuais à cultura. Isso acontece pelo encontro ficcional criado pelo dramaturgo norte-americano Jeffrey Hatcher, entre uma agente do Ministério da Propaganda Nazista e Pablo Picasso, durante a ocupação nazista de Paris, em 1941.

Hatcher roteirizou sucessos para o cinema como Casanova (2005), A Duquesa (2008) e A Grande Mentira (2019) e para o teatro tem várias criações, tanto para a Broadway quanto, off-Broadway. Um Picasso foi escrito em 2005 e chega a primeira vez aos palcos brasileiros, após o diretor Eduardo Tolentino de Araújo montar este texto com a Companhia de Teatro de Braga, Portugal, em 2014.

Inspirado em fatos reais envolvendo a destruição das denominadas obras degeneradas pelos nazistas, Fraulien Fischer (Clara Carvalho) leva Picasso (Sérgio Mastropasqua) a um depósito para obter a autenticação de três obras confiscadas. Assim, Hatcher propõe um jogo de embates sobre o valor da arte, poder e sedução.

A dramaturgia apoia-se em diálogos precisos, em que o jogo das palavras aponta para a escabrosa lógica dos intolerantes e ditadores. Mesmo sendo Fischer uma admiradora do pintor tem a tarefa de destruir suas obras, mas tem um objetivo final: que ele renegue a criação de Guernica. A pintura a óleo de 1937 que retrata o bombardeio à cidade de Guernica na Guerra Civil Espanhola que aconteceu entre 1936 e 1939, e considerara uma emblemática obra anti-guerra, com uma potente crítica ao fascismo alemão.

Tolentino explora o embate para dar ritmo a encenação, na batalha psicológica entre inquiridora e artista. Ela uma mulher charmosa, forte e determinada, ele, um artista dúbio, fecundo e considerado degenerado. Tudo isso numa estética taciturna e descomplicada em que a primazia é dada ao texto e no jogo entre dois atores experientes e precisos.

Para reforçar o lugar sombrio e incógnito colaboram a iluminação acertada de Nicolas Caratori e as roupas austeras e alinhadas com a cena de Judite Lima e Miguel Arrua. Além disso, mostram um cuidado do encenador ao trazer para cena adereços pinçados por Jorge Luiz Alves.

Carvalho e Mastropasqua reforçam a parceria longínqua e, nesse retorno ao teatro presencial, assisti-los capitaneados pelo Grupo Tapa soa esperançoso. Mesmo que outros coletivos e produções esforçaram neste retorno gradativo em 2021, parece que Um Picasso de Tolentino marca uma modificação formal da cena teatral paulistana.

Por fim, assistir esse encontro fictício após 70 anos nos aponta como discursos moralistas são formas de destruir o diferente, o contraditório. E diante de um governo federal que enxovalha as políticas públicas em nome de uma arte considerada “mais” nobre, destruindo a visibilidade de identidades diversas, o fascismo devastador alemão, italiano e até espanhol tem muito a nos dizer dos dias que vivemos.

Os porões do autoritarismo estão sendo reabertos a cada guerra travada, vinda em fake news, censuras e ditadura elogiada. Se o distanciamento histórico não nos permite ainda delimitar a magnitude da destruição da cultura atualmente, Um Picasso pode nos ajudar a considerar os padrões e narrativas assumidas em outros tempos.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

O filme Caçadores de Obras-Primas de George Clooney, com também Matt Damon e Bill Murray, de 2014, é um bom começo para ampliar seus conhecimentos sobre a época. Aqui no longa-metragem 13 especialistas reúnem-se para reencontrar obras roubadas durante a Segunda Guerra Mundial, após o declínio de Adolf Hitler. A discussão sobre a arte e a censura dos governos fascistas está muito bem apresentado no roteiro.

O Mistério de Picasso é um doc de 1955 e é para quem conhecer melhor a mente e a motivação do pintor espanhol. Faz 20 telas para o diretor francês Henri-Georges Clouzot e o filme levou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, em 1982.

Serviço
De 19/08 a 26/10 – de quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 17h. (Clique nos links para mais informações)
Indicação etária: 14 anos.
80 minutos.

Ficha Técnica
Texto: Jeffrey Hatcher. Direção: Eduardo Tolentino de Araujo. Assistente de Direção: Ariel Cannal. Iluminação: Nicolas Caratori. Elenco: Sergio Mastropasqua e Clara Carvalho. Redes Sociais: Bianca Nóbrega. Design Gráfico: Mau Machado Costureira: Judite Lima. Alfaiate: Miguel Arrua. Fotos: Ronaldo Gutierrez. Adereços: Jorge Luiz Alves. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Assistente de Produção: Rafaelly Vianna. Direção de Produção: Ariel Cannal.

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