Crítica: Um Inimigo Do Povo, direção José Fernando Peixoto de Azevedo

José Fernando Peixoto de Azevedo dirige texto do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Com Rogério Brito, Clara Carvalho e grande elenco.

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Um Inimigo do Povo - Foto: Ronaldo Gutierrez
Um Inimigo do Povo - Foto: Ronaldo Gutierrez

O professor da Escola de Arte Dramática da USP e diretor José Fernando Peixoto de Azevedo depois das peças Navalha na Carne Negra e Mãos Sujas e reclusão da pandemia volta aos palcos de São Paulo numa montagem singular. Um Inimigo Do Povo põe o encenador diante do clássico de Henrik Ibsen (1828-1906) e em parceria com membros de um dos coletivos mais tradicional de São Paulo, Grupo Tapa.

O autor norueguês de Heda Gabler (1890), Casa de Bonecas (1879) e Peer Gynt (1867) levou Um Inimigo Do Povo aos palcos, pela primeira vez, em 1883 no Teatro de Oslo. Seu texto, mais uma vez, investiga e põe em xeque as estruturas e hipocrisias da sociedade. Dessa vez, conta a história do médico Thomas Stockmann (Rogério Brito) que transmuta de herói a antagonista da comunidade local ao denunciar a contaminação das águas da cidade-balneário e que os banhos são a principal fonte de renda.

No longo texto, de encenação de quase 3 horas, as consequências das decisões do Dr. Stockmann são quase todas passadas a limpo. No primeiro plano estão as relações domésticas: com a esposa Sra. Stockmann (Clara Carvalho) e a estabilidade financeira familiar; a figura mítica do pai idealizada pela filha Petra (Lilia Regina); as ligações fraternas e políticas com o irmão e prefeito da cidade, Peter (Sérgio Mastropasqua); e, por fim, os arranjos do sogro e padrasto da sua esposa, fundamental no fechamento da trama, Morten Kiil (Augusto Pompeo).

Um Inimigo do Povo - Foto: Ronaldo Gutierrez
Um Inimigo do Povo – Foto: Ronaldo Gutierrez

Entram nessa batalha as tramoias e jogos políticos do “moderado” Aslaksen (Cesar Baccan) e os representantes da imprensa, o editor do jornal local Hovstad (Raphael Garcia) e o dissumulado e sub-editor Billing (Rodrigo Scarpelli). E ainda conta com o Capitão Horster (Thiago Liguori) que tem a função de auxiliar o protagonista na evasão do ato final.

Um clássico de verdade

À vista disso, Um Inimigo Do Povo é um clássico efetivo ao poder se atualizar pelas várias congruências com os dias atuais. Obviamente está ali a relação entre a saúde pública e os interesses financeiros tão presentes, destacados e discutidos na pandemia da covid-19. Assim, Aslaksen toma ares de Roberto Justus e Luciano Hang ao defender seus bens e pontos de vista em emblemáticas aparições durante a recente reclusão do novo coronavírus.

A imprensa também tem função central no que é dito ou não sobre Dr. Stockmann, e ganha relevância hodierna nesses dias em que redes sociais, canais, TikTok e WhatsApp avançam na criação de fake news e narrativas diversas. Azevedo atualiza a discussão de Ibsen colocando smartphones nas mãos dos atores e incluindo a transmissão online da assembleia do quarto ato.

Portanto, quando Ibsen se autodenominou de pessimista por não acreditar nos ideais humanos, Um Inimigo Do Povo é uma imersão na fluidez das convicções dos indivíduos modernos e liberais. E completa o encenador que o dramaturgo elabora aqui uma visão crítica, “flagrada na dimensão violenta de um cotidiano todo ele cifrado em regras de exceção“.

A encenação

Ao ser convidado para dirigir o espetáculo produzido por Baccan e Ullman, incluindo no elenco Carvalho e Mastropasqua, Azevedo sugeriu a presença de artistas negros em cena. “Na intenção de deixar ver, com Ibsen, o que acontece quando pessoas negras vivem um radical processo de mobilidade“, completa. Então, como encenador que sempre parte dos encontros, da conquista coletiva no jogo da cena, a convergência desses profissionais traz um desdobramento artístico e criativo dos mais potente, frutífero e, portanto, imperdível.

Certo ar de terror presente na estética tem inspiração no filme A Noite dos Mortos Vivos (1968), do estadunidense George A. Romero. Lá um protagonista negro tenta sobreviver numa sociedade feita de pessoas da classe média branca que se transformam em zumbis, por conta de uma epidemia.

Outro elemento fundante e sempre presente nas encenações do diretor é o uso de câmeras. A montagem usufrui de marcações rígidas para propiciar novas imagens captadas ao vivo por André Voulgaris.

Um Inimigo do Povo - Foto: Ronaldo Gutierrez
Um Inimigo do Povo – Foto: Ronaldo Gutierrez

Reforça a perspectiva do diretor no que foi dito em entrevista, em 2019, ao e-Urbanidade, “entendo que a câmera está ali para compor, e com ela, torna-se possível perspectivar a cena, multiplicar os pontos de vista. Eventualmente sublinhar ou assumir um, num procedimento de deslizamento entre a presença e a imagem: multiplicando os espaços, transitando por temporalidades, estabelecendo dinâmicas narrativas, revelando dimensões fisionômicas do gesto, produzindo outras corporalidades.

Leia a entrevista do e-Urbanidade com José Fernando Peixoto de Azevedo em 2019.

Logo, a cena acontece no palco, fora dele, amplia ou reduz as perspectivas do assistidor. E até certo ponto é possível perceber como os múltiplos enquadramentos também tiram o foco da intrincada narrativa e diálogos milimétricos.

Ainda revela como a profusão de imagens pode tornar uma nuvem de fumaça para a realidade. Tão bem utilizadas e fundamentais no método dos atuais homens e mulheres de poder, em que escondem questões estruturais com fotos, vídeos e matérias falsas com pautas conservadoras. Então, as redes sociais se enfurecem com centenas de milhares de mensagens e cancelamentos e nada se faz como as pessoas que comem osso e dormem nas ruas.

Elenco e estética

Há uma uniformidade excepcional do elenco, desde os personagens pequenos até às grandes falas de Brito. Elogiar um (uma) ou outro (outra) é cair no erro.

Inclusive está no palco Tatah Cardozo com o texto em mãos, para ajudar o elenco como “ponto”. Assim, quando qualquer ator ou atriz se perde no emaranhado dos diálogos, basta levantar o braço que ela auxilia. Adiciona-se com originalidade, dessa forma, mais um elemento antidramático à cena.

A cenografia de Douglas Caldas propõe uma sala de ensaio, em que os móveis e objetos movimentam-se pela caixa preta para propiciar diferentes perspectivas ao universo realista de Ibsen. Portanto, eles funcionam muito mais para gerar distintos pontos de vista ao assistidor, do que acrescentar novos elementos à cena.

Os figurinos de Anne Cerutti tiram os personagens da atualidade e os levam para os anos de 1960 e 70. E a luz naturalista de Gabriel Greghi e Wagner Pinto reforçam o microcosmo tanto da sala de ensaio, quanto da cidade pequena, real e que poderia estar logo ali.

Outro destaque é a direção musical e live-electronics de Thiago Liguori. Funciona desde a marcação incidental na entrada dos personagens até o elenco tocando instrumentos musicais ao vivo, e reforça o clima de criação coletiva e experimentação de som, imagem e texto.

Ainda vale chamar a atenção para a adição de Pompeo, Regina e Carvalho como intérpretes de canções comoventes e emblemáticas.

O homem mais forte do mundo

Um Inimigo Do Povo é, sem dúvida, um clássico revisitado com perspectivas que se atualizam em uma encenação genial. Ver atores, atrizes, equipe técnica e diretor experientes, de origens artísticas tão ricas e diversas, torna a montagem um dos grandes deleites das artes da cena nesse momento pós-pandêmico e distópico.

Desde Nelson Rodrigues, em Boca de Ouro, até Dias Gomes, em O Berço do Herói, dramaturgos já beberam da fonte do pessimismo ibseniano presente nas estruturas sociais. Por isso, se ater ao universo de Dr. Stockmann é esclarecedor e ajuda a compreender do que é feito o tecido social contemporâneo, que se atualiza com as fake news e guerras de narrativas.

Afinal, a frase final do médico é irrefutável: “o homem mais forte do mundo é o que está mais só“.

Serviço

DE 7 de abril e 1 de maio. Quinta a sábado às 20h. Domingo às 18h. (Mais informações aqui.)
12 anos.
180 minutos (com intervalo)

Ficha Técnica

Texto: Henrik Ibsen
Tradução: Pedro Mantiqueira
Revisão de tradução: Karl Erik Schøllhammer
Dispositivo de cena e Direção: José Fernando Peixoto de Azevedo
Elenco: Augusto Pompeo, Cesar Baccan, Clara Carvalho, Lilia Regina, Lucas Scalco, Raphael Garcia, Rodrigo Scarpelli, Rogério Brito, Sérgio Mastropasqua e Thiago Liguori
“Ponto” em jogo: Tatah Cardozo
Direção Musical e Live-Electronics: Thiago Liguori
Câmera e edição de imagens: André Voulgaris
Desenho de luz: Gabriel Greghi e Wagner Pinto
Figurino: Anne Cerutti
Assistente de Direção: Lucas Scalco
Preparação corporal: Tarina Quelho
Cenotécnico: Douglas Caldas
Operador de luz: Gabriel Greghi e Jonas Ribeiro
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Programador Visual: Rafael Oliveira
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Estágio de direção: Tatah Cardozo
Diretor de Produção: Cesar Baccan
Produtor Executivo: Marcelo Ullmann
Assistente de Produção: Lúcia Rosa
Assistente de Produção: Rebeca Oliveira
Co-Produção: Kavaná Produções
Produção e Realização: Baccan Produções

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