Crítica: Trava Bruta, direção Gustavo Bitencourt

Espetáculo sobre a transexualidade marca os 25 anos de carreira de Leonarda Glück que teve trabalhos apresentados em vários países.

0
55
Trava Bruta - Foto: Alessandra Haro
Trava Bruta - Foto: Alessandra Haro

O Brasil é o país que mais consume pornografia transexual e que mais mata trans no mundo. A peça Trava Bruta, escrita e interpretada por Leonarda Glück, dirigida por Gustavo Bitencourt, não quer falar sobre essa estatística clichê. Mas trata sobre isso e muito mais, em uma palestra-espetáculo de quase sessenta minutos, que finalmente chega aos palcos.

Premiada a participar na 6ª Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos do Centro Cultural São Paulo, a montagem aguardou quase dois anos para estrear. Assim propõe um embate artístico com a existência dos corpos transexuais num texto contundente, em um sampling de imagens, falas e sons.

Se a transexualidade libera os corpos para assumir-se na sua essência, o texto de Glück impõe reflexões sobre os desafios e os muros sociais construídos para que tais identidades (não) surjam.

Os 3 pequenos atos trazem questões como anatomia (“comigo a anatomia ficou louca“), a relação com o divino (“sagrados sejam a faca e o enxerto e toda construção de mundo que do corpo sai“) e os limites entre do respeito e da repulsa social (“Não me querem viva, eu sei. Não posso respirar. Não posso existir. Mas eu vou“)

Segunda a dramaturga, o texto começou a ser escrito em 2018, após vinte cinco anos de carreira e uma decisão de abordar exclusivamente a questão das e dos trans em suas criações. “Me veio uma possível angústia repentina: a de talvez não ter conseguido em outro momento antes escrever tão intimamente sobre o assunto da transexualidade, e seus efeitos na minha mente e na vida social da qual faço parte”, conta a Glück.

Diante da fluidez e das possíveis representações da identidade transexual, Bitencourt propõe uma encenação de estética fragmentada tanto pelos elementos cênicos, quanto pelos limites da ficção e da realidade.

Na primeira parte usufrui de imagens diversas, criadas por Ricardo Kenji, similares das disponíveis nas redes sociais, para dissipar qualquer universalidade sobre as representações dos corpos. Pode ficar a questão: como podemos ser tão diversos em imagens pelas redes e tão pouco receptivos às diversidades identitárias?

Os dois atos seguintes tomam ares de palestra em que o encenador utiliza-se dos figurinos de Fabianna Pescara e Renata Skrobot, a trilha sonora de Jo Mistinguett e a luz de Wagner Antônio para criar recortes, pausas e ajudar na compreensão do texto. Sem dúvida, nessas duas partes a dramaturgia é melhor compreendida e aproxima o assistidor dos argumentos.

Dessa forma, Trava Bruta, a partir da transexualidade, toca na ferida da brutalidade presente na natureza humana. “Fui vendo o quanto esse texto também fala de muitas coisas que dizem respeito a todo mundo, e que era importante que a gente olhasse tanto pro que tem de específico nesse contexto do qual ela fala, quanto pra onde essa história se conecta com outras tantas”, conta Bitencourt.

A peça-espetáculo em cartaz no CCSP é um arrazoado sobre a crueldade social à transexualidade. E entender que para resistir é preciso ser dura e forte, ou seja, trava bruta. “Treinar a estupidez para a sua defesa. Brusca, tosca e natural.” E felizmente, a arte de Glück pode nos ajudar nesse processo: “Preciso sonhar. Se não eu não aguento“.

Serviço
De 7 a 12 de setembro, terça a sábado, 21h e domingo 20h.
Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho
18 anos.
60 minutos

FICHA TÉCNICA
Direção: Gustavo Bitencourt
Trilha original: Jo Mistinguett
Direção de produção: Igor Augustho
Luz: Wagner Antônio
Assistente de iluminação: Dimitri Luppi
Criação em vídeo e projeções: Ricardo Kenji
Figurino: Fabianna Pescara e Renata Skrobot
Design gráfico e identidade visual: Pablito Kucarz
Ilustração: André Costa
Fotografias e Registro Audiovisual: Alessandra Haro
Assessoria de imprensa: Pombo Correio (Douglas Pichetti e Helô Cintra)
Assessoria em marketing digital: Platea Comunicação e Arte Assessoria jurídica e contábil: Ivanes Mattos

Realização e produção: Pomeiro Gestão Cultural

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here