Crítica: The Boys In The Band, direção Joe Mantello | Blog e-Urbanidade

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The Boys In The Band - Foto: Divulgação/Netflix
The Boys In The Band - Foto: Divulgação/Netflix
The Boys In The Band - Foto: Divulgação/Netflix
The Boys In The Band – Foto: Divulgação/Netflix

The Boys In The Band, lançamento da Netflix e direção de Joe Mantello, é um filme memorável e que permite boas reflexões. Além de ser a adaptação do sucesso teatral de Mart Crowley, de 1968, na off-Broadway, recorta, apresenta e disseca as relações entre homens gays, antes que siglas como LGBT (ou LGBTQi+) e lutas sobre direitos civis começavam a despontar. Em que ser discreto, não dar “pinta” era uma qualidade e, possivelmente, um método de sobrevivência.

Michael (Jim Parsons) abre seu apartamento para comemorar o aniversário do amigo, ou arqui-inimigo, Harold  (Zachary Quinto). Vão chegando Donald (Matt Bommer), Larry (Andrew Rannells), Hank (Tuc Watkins), Emory (Robin de Jesús), Bernard (Michael Benjamin Washington) e até um michê Cowboy (Charlie Carve). E para engrossar o caldo, Alan (Brian Hutchison), um antigo colega de quarto de faculdade de Michael, casado/enrustido, chega à festa.

Em certo momento, o espectador fica com a impressão que poucas coisas faltam ao leque das possibilidades das relações afetivas, expostas na acidez costumas nos encontros de homossexuais daquela geração.

Alan abre a arena. Ali, expõe-se a camada do gay discreto versus afeminado, explorada na estampa de Emory, contrastada com Hank. A adaptação para o cinema avança e impõe a discussão sobre àquela geração que até hoje insiste e desclassifica afeminados.

Mesmo que o longa não aprofunde muito, e deixe a discussão muito mais no espectro do “orgulho gay”, dialoga com outros produtos culturais que vêm jogando luz sobre esse tema. Como numa das cenas da última temporada da série Crônicas de San Francisco, também da Netflix.

Lá um jantar entre homossexuais com mais de cinquenta anos, que podiam ter saído desse filme, pega fogo. Ben, interpretado por Charlei Barnett, com pouco mais de vinte anos, incomoda-se com esse olhar preconceituoso e machista dos senhores gays sobre os garotos afetados.

Ainda para avançar, e ajudar no diálogo sobre tal proposição, vale recomendar o documentário Bixa Travesty. Lynn da Quebrada declara o quanto quer, inclusive com seus parceiros, romper com esse estereótipo do gay cisgênero (e sóbrio).

Depois dessa primeira palheta de discussões, Michael propõe um jogo: ligar para alguém que ama e declarar-se. Importante lembrar que estamos falando de década de 1970, quando as relações entre pessoas do mesmo sexo ainda eram crime em muita regiões dos Estados Unidos da América.

Abre-se ai novas camadas, como a monogamia, um elemento típico das relações heterossexuais. E o racismo, a partir da ligação de Bernard, evidenciando o viés da branquitude e negritude. Naquele conceito de Djamila Ribeiro dos brancos objetivarem e reduzirem negros em papeis de subserviência, em contraposição ao fetiche de virilidade imposta aos homens pretos.

Mais uma vez reforça-se, diante de tantos temas, não espere discussões aprofundadas no filme da Netflix. Porém avança no propósito do produtor Ryan Murphy em tornar a plataforma mais diversa e com importantes produções sobre as identidades LGTBQi+.

Para quem chegar até os créditos finais, vale prosseguir no documentário The Boys In The Band: Um Olhar Pessoal. O doc entrevista o dramaturgo Crowley, que faleceu no início deste ano, 2020, e ressalta o componente político da montagem nas duas gerações. Hoje, inclusive por ter um elenco de estrelas assumidamente gays e fora do armário.

Michael, por fim, decide ir rezar e pergunta-se por que são tão duros uns com os outros. Talvez porque a acidez dessa geração tenha muito da dificuldade de se aceitar?

Não há dúvida que o filme é um importante registro de uma época e de suas conquistas. Assim, não podem ser negadas ou consideradas irrelevantes para a geração que, de alguma forma, tenha avançado.

Por outro lado, é uma possibilidade de reflexão para aqueles e aquelas em que ser discreto era (ou é) uma qualidade. Continuar classificando e reduzindo a sexualidade e suas exterioridades em ativas x passivas, afeminadas x discretas, pão-com-ovo x ricas e por ai vai, corroboram muito ainda na estrutura machista que se deseja romper.

E esta aí o valor de The Boys In The Band: avançar, rompendo com a misoginia estrutural, sem desconsiderar relevante e importante o que passou. Numa produção com elenco e direção afinadas e acertadas.

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