Crítica: Terra Medeia, direção Bim de Verdier

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Terra Medeia - Foto: João Caldas
Terra Medeia - Foto: João Caldas

Quem seria Medeia em tempos de MeToo? A clássica história da mãe que mata seus próprios filhos para se vingar do marido que a deixou por outra tem versão atualizada pela sueca Sara Stridsberg. Com direção da também sueca Bim de Verdier, a montagem Terra Medeia aprofunda-se no complexo pelo viés do não-lugar imposto aos exilados.

Na versão on-line, com apresentação ao vivo, a peça humaniza as personagens, a partir da expulsão de Medeia do seu território, quando a filha de Creonte, o todo poderoso, passa a viver com o Jasão, o marido.

Terra Medeia - Foto: João Caldas
Terra Medeia – Foto: João Caldas

Pelo ponto de vista de Chico Buarque e Paulo Ponte, em Gota D’Água, no ano de 1975, a tragédia designava-se partir da luta de poder; em 1997, Consuelo de Castro explorou em Memórias do Mar Aberto – Medeia conta a sua história a traição política; já Stridsberg propõe-se a investigar as consequências dos forçados a escapar da sua terra, os refugiados.

Assim, Medeia é perseguida e expulsa do seu grupo social. Sem chão, o corolário da dramaturgia é: pessoas sensíveis, em situações extremas, tomam atitudes perturbadoras.

Numa estética descomplicada, em fundos preto ou branco, a direção explora os diálogos em quadros isolados, com o elenco em lugares diferentes: Brasil, França e Suécia. Ainda utiliza imagens gravadas para reforçar o universo alucinante da protagonista. E explora com acertos as possibilidades e impossibilidades do teatro remoto.

E mesmo com diálogos não impostados, a montagem explora o tom trágico e, às vezes, afetado, mesmo que o teatro on-line (assim como a tv e o cinema) exija mais economia dos intérpretes. Todavia a proposta funciona, tem clima de clássico e compõe-se na medida com a dramaturgia.

André Guerreiro, Verdier, Daniel Ortega, Renato Caldas e Rita Grilo acertam nas participações. Nicole Cordery, como Medeia, entrega-se à protagonista sem restrições.

Cordery apresenta-se no estúdio do fotógrafo João Caldas, que assina a precisa direção de arte de Terra Medeia. E provavelmente a atuação da atriz ganha volume tanto pela experiência no teatro presencial, como nestes novos tempos. Afinal, desde o início do isolamento social tem vivenciado constantes e diferentes possibilidades nesse vigente teatro remoto.

Terra Medeia dialoga com outras produções. Por exemplo, Bela Vingança, de Emerald Fennell, ou até mesmo Pieces Of A Woman de Kornél Mundruczó. Ambos filmes indicados em diferentes categorias do Oscar 2021 e investigam os reflexos do machismo estrutural no perdão aos desatinos constantes dos homens e no papel social da mulher-mãe.

Sem dúvida, precisamos rever clássicos e autores por novos olhares para perceber como reforçam preconceitos e visões de uma sociedade anacrônica. Enquanto vários homens são capazes de abandonar seus filhos por um novo relacionamento ou até mesmo diante de uma oportunidade profissional, ainda ficamos boquiabertos e julgamos Medeia.

Obviamente qualquer possibilidade de tirar a vida de outrem é um absurdo, mas Medeia precisa ser revisitada, nestes tempos de MeToo, pelo ponto de vista da opressão social histórica sobre o feminino. Ora pelas relações de poder, políticas ou de apátrida. Por isso, Terra Medeia (e tantas Medeias que possam ainda vir) mostra(m)-se relevante(s) e necessária(s).

Obs.: A peça encerrou temporada on-line em 13/06/21.

Ficha técnica 
Texto: Sara Stridsberg
Tradução: Bim de Verdier e Nestor Correia
Direção: Bim de Verdier
Elenco: André Guerreiro Lopes, Bim de Verdier, Daniel Ortega, Nicole Cordery, Renato Caldas e Rita Grillo.
Direção de Arte, Fotografias e Filmagens: João Caldas
Equipe de Captação de imagens, edições e Transmissão: Marcela Horta, João Caldas e Andréia Machado
Operação de Vídeos ao Vivo: Marcela Horta
Contrarregra: Madu Arakaki
Composição Original de Trilha sonora: Leo Correia de Verdier
Direção de produção: Selene Marinho
Produção executiva: Marcela Horta
Designer Gráfico: Leonardo Miranda
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Produção: SM Arte Cultura / Cordery e Viana Produções Artísticas
Consultoria de Figurino: Julia Correia de Verdier
Execução vestidos Medeia: Flávio Mothé
Participação especial (Voz da Princesa): Anna Zepa
Consultoria em Áudio: Alexandre Martins

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