Crítica: Soul, da Disney Pixar, direção de Pete Docter | Blog e-Urbanidade

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Soul, da Disney Pixar
Soul, da Disney Pixar
Soul, da Disney Pixar
Soul, da Disney Pixar

2020 quase chegou ao fim sem um grande lançamento da Pixar. É verdade que a parceira da Disney lançou Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica em março, mas sua estreia foi tão morna, e em um momento tão conturbado, que nem pôde ser levada em consideração. Foi só em 25 de dezembro que a Pixar lançou o aguardado Soul, longa-metragem com direção do aclamado Pete Docter (responsável por sucessos como Divertida Mente, Up e Monstros S.A.).

Soul é um filme de primeiras vezes, a começar por sua distribuição. Em meio a pandemia, o longa não pôde ir para os cinemas, foi lançado diretamente no Disney+, marcando a primeira produção da Pixar a estrear neste formato.

Também é o primeiro grande lançamento da plataforma em que os brasileiros assistiram junto com o público estadunidense (já que o Disney+ só chegou por aqui em novembro de 2020). E, mais importante, é o primeiro filme da Pixar a ter um protagonista negro.

Soul é um filme de muitas camadas e fazer uma crítica sobre ele sem mencionar cada uma dessas camadas é quase impossível. Então fica aqui o aviso: se você quer assistir ao filme completamente no escuro, essa crítica pode conter alguns spoilers inevitáveis.

Soul conta a história de Joe Gardner, um professor de piano que sonha em viver de música – mais especificamente de jazz. Justo no dia em que achou que sua carreira ia decolar, o pianista sofre um acidente que o manda direto para o além-vida. Lá ele conhece 22, uma alma rebelde e que não tem nenhum interesse em vir para a Terra, e juntos eles embarcam em uma jornada para unir o corpo de Joe com sua própria alma.

Só pela sinopse já dá para perceber a produção segue a já famosa fórmula Pixar: usar a animação para discutir temas profundos sobre vida, morte, sonhos e propósito – e ainda aproveitar para dar o toque de representatividade muito bem vindo no catálogo de produções do estúdio.

Soul, da Disney Pixar
Soul, da Disney Pixar

Uma das maiores críticas que as pessoas fazem à Disney é a falta de personagens negros em suas obras e Soul veio para limpar a barra do estúdio. A equipe estudou desde o formato dos cabelos crespos até a forma como a luz reflete na pele negra, e tudo isso pode ser visto em vários detalhes durante todo o filme.

Soul é dividido em dois ambientes: Nova York e o “Grande Antes”, o local onde as almas ficam antes de serem mandadas para a Terra. Essa divisão é evidente nas cores usadas para representar os dois locais. Nova York é repleta de tons quentes, como vermelho, laranja e amarelo. A cidade é viva, e apesar de caótica, só de olhar já dá vontade de viver nela.

Já o Grande Antes é composto por tons de rosa e azul pastel, trazendo um ar etéreo e mágico. Ao contrário da Terra, esse ambiente à primeira vista parece calmo e confortável, mas sua monotonia vai causando um desconforto conforme o tempo passa. Isso faz com que a gente se sinta como o Joe, desesperado para voltar ao mundo real.

A qualidade da animação não era exatamente uma preocupação de qualquer fã da Pixar, já que o estúdio sempre supera expectativas. O mesmo não pode ser dito sobre o roteiro, que desde antes do lançamento do filme já deixou muitas pessoas apreensivas. Além do desafio de falar sobre morte, a Pixar ainda enfrentou um problema prático: as edições e cortes finais do filme foram feitos remotamente, já que a equipe estava trabalhando de casa durante a pandemia.

A qualidade da história acabou prejudicada pelo trabalho à distância. Não é que Soul é ruim, longe disso, mas soa um pouco bagunçado. No começo, você acha que o filme vai falar sobre a jornada de Joe após a morte; depois, acredita que Joe vai se tornar um mentor para a 22, a verdadeira protagonista da história; e pouco tempo depois, a história se torna um Se Eu Fosse Você, em que 22 acaba no corpo de Joe, e o músico reencarna em um gato.

O filme é sobre todas essas coisas, e por isso mesmo, acaba sendo sobre nenhuma delas. Soul não tomou tempo suficiente para desenvolver com a qualidade cada um desses enredos. O resultado é um filme com um ritmo bem oscilante.

Sem contar que o longa deixa algumas pontas soltas, que podem estragar a experiência de um telespectador mais passivo. Por exemplo: quando Joe entrou no corpo do gato, vemos a alma do felino indo para o além; no entanto, quando Joe voltou para o além, o gato simplesmente despertou em sua alma habitual, como se ela estivesse esse tempo todo em stand-by, só esperando uma conveniência de roteiro. É claro, podemos pensar que essa é uma piadinha com o fato de os gatos terem sete vidas, mas até isso poderia ter sido melhor explicado.

Soul também não possui um “elenco” – se é que podemos chamar assim – tão forte quanto outros longas da Pixar. Joe e 22 são extremamente carismáticos, mas os outros personagens secundários (como a mãe de Joe, a Dorothea Williams e o Bicho-Grilo Estrela) tornam-se completamente esquecíveis.

As cores vibrantes do Grande Antes
As cores vibrantes do Grande Antes

Outro desafio foi falar sobre morte. Esse não é exatamente um tema novo – sociedades discutem o pós-vida há séculos. Mas será que dá para tratar desses assuntos com um público infantil? Esse questionamento deixou muitos fãs apreensivos, e após o lançamento do filme, muitos críticos bateram o martelo de que Soul não é, de forma alguma, um filme para crianças.

Antes de rebater essa teoria, é preciso deixar claro que animações são, simplesmente, filmes feitos não com gente de carne e osso, mas sim com técnicas de computação e desenho. Um erro comum das pessoas é achar que toda animação é feita para entreter apenas o público infantil. Se olharmos para além da superfície Disney, encontraremos um mar de animações extremamente adultas e complexas, que apenas aproveitam da liberdade estética que a computação gráfica oferece.

Então, caso a Pixar tivesse optado por fazer, pela primeira vez, uma animação adulta, este não seria um problema. Só que o caso foi outro. Ao mesmo tempo em que discute temas sérios, o filme é cheio de referências e piadinhas dispensáveis

É claro que crianças muito pequenas não aproveitam tanto o longa quanto os maiores, mas mesmo os mais jovens conseguem se divertir com as piadinhas e o enredo mais “prático” do filme. Assim como todos os longas da produtora possui diversas camadas, que vão desde temas mais concretos, até mais abstratos.

Soul também parece não ser aquele longa com grande apelo comercial, que vende bonequinhos dos personagens e ganha seu próprio parque na Walt Disney World (como disse há pouco, o filme só possui dois protagonistas marcantes). Ele guinou para um lado não exatamente experimental ou artístico, mas com certeza diferente de blockbusters como Toy Story e Carros.

Em uma linha de maturidade dos longas do estídio, podemos dizer que Soul está pendendo mais para o lado de Wall-E, do que de Monstros S.A. Ele não é exatamente fácil, mas a jornada vale a pena.

Apesar das críticas ao roteiro e a polêmica envolvendo a classificação do longa, Soul é um filme necessário. Ele discute morte, propósito, dom, vocação e traz uma mensagem importante sobre aproveitar os pequenos momentos da vida. Esses temas podem sim ser mais latentes para os adultos, mas também são lições importantíssimas para o público infantil. Mais do que entreter, a animação faz refletir, e isso sim é livre para todas as idades.

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