Crítica: Sônia – Um ato por Tolstói, direção Elias Andreato

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Provavelemente levaremos décadas passando a limpo determinadas histórias sociais e pessoais para compreender (e também expurgar) nossas estruturas autoritárias e patriarcais. Assim, a montagem Sônia – Um Ato Por Tolstói, monólogo com a atriz Mariana Muniz, direção de Elias Andreato e texto de Thiago Sogayar Bechara, examina a relação marido e mulher. Aqui entre Sônia (ou Sófia) e seu esposo Liev Tolstói.

Um Ato Por Tolstói - Foto: Claudio Gimenez
Um Ato Por Tolstói – Foto: Claudio Gimenez

Tolstói é autor de clássicos como Guerra E Paz e Anna Karênina, sendo esse último a história de uma mulher extremamente abafada pela sociedade machista. Logo, parece, no mínimo, curioso mergulhar no universo da mulher e mãe de treze filhos que ladeava o autor dessas ficções.

Se o autor russo escreveu “fale de sua aldeia, estará falando do mundo”, a dramaturgia de Bechara parte exatamente daí. Mergulha-se neste lugar ínfimo e secreto da mulher e da relação do casal para desvelar significados simbólicos universais. Saí da idealização da ficção e cai-se na vida ordeira.

“Não o amor idealizado em perfeição e equilíbrio estável, mas o amor concreto, construído e minudenciado dia após dia, reforçado com doses de concessão mas também de autoritarismo, ciúmes, posse, e todos os componentes da falibilidade humana que tornam uma relação, inevitavelmente, um laboratório de emoções e investigações sobre a espécie”, revela o dramaturgo.

Tratando-se de uma gravação apresentada com hora marcada, a montagem abre mão do “ao vivo”, mas aposta no encontro com hora marcada. Assim, vá-se fazendo teatro, nestes tempos de reclusão, escolhendo e abandonando possibilidades tanto das artes cênicas como do cinema.

Assim, Sônia – Um Ato Por Tolstói, em linguagem cinematográfica, é um plano sequência com enquadramento em primeiro plano. E aí, Andreato que vem se exercitando e se experimentando em monólogos durante este período de teatro não presencial, a encenação é construída com poucos elementos em cena, apoiada basicamente nas flexões do texto e no gestual da atriz. Por ser 45 minutos de apresentação, a experiência fica na medida.

Nessa sobreposição entre teatro e cinema, a cenografia simples é denominada nos créditos de “ambientação” e assinada também por Andreato. Ao fundo a foto de Tolstói que Sônia conversa e dirige-se várias vezes.

Muniz assume a personagem com grandeza e singeleza, entre ciúmes e orgulhos, raiva e amor e por aí vai. A atriz ganha volume na interpretação à medida que o assistidor aprofunda-se no mundo pessoal dela. Sai-se do lugar misógino de que “atrás de todo grande homem, há uma grande mulher”, para a exposição de uma identidade completa e, obviamente, única.

Sônia – Um Ato Por Tolstói ganha a dimensão correta para o cineteatro. E com a anulação de alguns efeitos técnicos e cênicos, acertadamente escolhidos, a encenação conta com assistência de direção e sonora de Pedro Scalice e videomaker de Rafael Petri.

Portanto, é muito importante que os novos tempos revisitem seus ícones para desconstruir narrativas e perceber como alguns estratos sociais foram (e são) construídos. É muito comum notar como diálogos e até posicionamentos triviais de algumas peças, filmes e inclusive telenovelas produzidas há poucos anos soam, hoje, preconceituosos, racistas, machistas, homofóbicos, etc.

Sendo assim, encontrar Sônia tem um efeito catártico de reconhecimento dessas estruturas, numa relação trivial, entre marido e mulher, mas que ganha potência quando estamos tratando de uma importante voz da literatura mundial. Daí, essa senhora reverbera e exige para si uma identidade, mas também a coloca no lugar macro da humanidade. E o corolário “fale de sua aldeia, estará falando do mundo” evidencia-se mais uma vez.

Serviço
De 13 a 22 de abril – terças, quartas e quintas às 20h. (Clique aqui para acessar a agenda do canal)
Indicação etária: 14 anos
Grátis
45 minutos

Ficha técnica
Interpretação e Figurino: Mariana Muniz
Texto: Tiago Sogayar Bechara
Direção e Ambientação Cênica: Elias Andreato
Assistente de Direção e Operação de Som: Pedro Scalice
Edição de Trilha Sonora e Vídeomaker: Rafael Petri

Livros de Liev Tólstói

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