Crítica: Silvio Santos Vem Aí!, direção Fernanda Chamma e Marília Toledo.

Comédia musical Silvio Santos Vem Aí!, com texto de Marília Toledo e Emílio Boechat, volta em cartaz no 033 Rooftop, após dezoito meses.

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Silvio Santos Vem Aí! - Foto: Adriano Dória
Silvio Santos Vem Aí! - Foto: Adriano Dória

Fato: Sílvio Santos é uma lenda. Contudo quando se entra no 033 Rooftop, onde está em cartaz Silvio Santos Vem Aí!, a conexão é imediata com as referências e estética singular que marcaram décadas da televisão brasileira. O musical despretensioso e divertido, tão necessário nesses tempos pós-pandemia, é sobre o Brasil, brasileiros, criação nacional e, claro!, muita nostalgia.

A história é do empresário Senor Abravenal, Sr. Silvio Santos (intepretado por Velson D´Souza), desde a infância, passando pela vida de camelô, até chegar ao Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), em 1981. Diante desse personagem histórico, rodeado por ícones que atravessaram gerações, a dramaturgia de Marília Toledo e Emílio Boechat mostra-se original.

Então, é durante o tratamento de um tumor nas cordas vocais do protagonista que a vida dele é passada a limpo. Há uma cronologia previsível no roteiro, mas graças aos efeitos arvorados dos remédios do tratamento, Toledo e Boechat aproveitam para zapear pelas personagens, programas e cenários que formaram a plástica do apresentador e do canal.

A partir daí, a direção musical de Marco França estabelece-se pelas canções clássicas, desde Silvio Santos É Coisa Nossa a Meu Pintinho Amarelinho. E desencadeia-se por novas composições que se entrelaçam na desvairada, mas bem resolvida, dramaturgia.

É verdade que alguns personagens ficam soltos, como de Iris (de Bianca Rinaldi), e ainda boa parte deles e delas são apresentados dentro dos seus registros caricatos. Obviamente isso acontece por causa das próprias limitações do que se contar, o que aproxima do formato de Teatro de Revista, com esquetes próprias para mostrar essas identidades. 

O texto aponta fragilidade ao humanizar o protagonista, passando rápido demais por alguns momentos centrais na história do homem comum, como a morte de Cidinha, primeira esposa,, e o casamento com Iris.

D´Souza apoia-se nos trejeitos característicos do apresentador, mas felizmente fica longe do caricatural. O que é um baita desafio, já que Sílvio Santos é uma figura largamente imitada por diferentes comediantes e artistas. 

O elenco verdadeiramente se diverte em cena. Ivan Parente e Juliana Bógus, que vivem Pedro de Lara e Aracy de Almeida, respectivamente, funcionam como pícaros e apoiam a jornada musical junto com Silvio. 

Adriano Nunes impressiona diante das diferentes personagens entregues a ele, como Nahim, mas entrega-se à lendária Velha da Praça com inspiração. Vale o ingresso!

O elenco é gigante e tem Hebe Carmargo (Daniela Cury), Bozo (Lucas Colombo), Mara Maravilha (Gigi Debei), Manuel de Nóbrega (Léo Rommano), Elke Maravilha (Juliana Flaibann), Roque (Roquildes Junior), Rosana (Ju Romano) Gugu e Sérgio Mallandro (ambos feitos por Vinícius Loyola) e até a estrela de Qual É A Música: Pablo (Thiago Garça).

As encenadoras Fernanda Chamma e Marília Toledo mergulham na estética dos auditórios dominicais que Silvio tanto brilhou. Sem usar o palco italiano, a cenografia de Bruno Anselmo monta-se e desmonta-se na frente da plateia. 

Os figurinos de Eliana Liu são fiéis à época e o desenho de luz de Nils Xuxa cria camadas e dão volume à cena. Também o visagismo de Emi Sato e Marcos Ribeiro, com a perucaria de Mari Souza, Matheus Gadelha e Rafael Hungria completam as proporções e devaneios daquela geração.

É preciso dizer que Silvio Santos conseguiu consolidar o Sistema Brasileiro de Televisão após uma relação próxima com o movimento ditatorial brasileiro. Hoje, está aí em proximidade constrangedora com o atual questionável governo brasileiro. Mesmo assim, seu valor à formação de uma cultura nacional é inegável.

Segundo a produção, Silvio Santos Vem Aí! é um musical 100% nacional. Não se trata de mais uma franquia importada e é feita de músicas e artistas daqui. Obviamente, não poderia ser diferente diante de uma pessoa tão brasileira.

Seus gostos, deboches, vexames, hostilidades, brincadeiras e visão empreendedora têm muito do Brasil. País que interessa mostrar, falar, por vezes orgulhar-se e até de envergonhar-se para mudar. 

Não tenha dúvida: aos primeiros acordes o espectador, acima dos vinte anos, imediatamente transfere-se para o sofá de alguma sala, ao lado de avós, pais e amigos assistindo Silvio Santos. 

Por isso, Silvio Santos Vem Aí! é muito bom de ser visto como entretenimento e até para reflexão. Tanto para nos levar a esses tempos saudosos quanto para nos reconhecermos brasileiros, já que Silvio representa tão bem nossa complexidade nacional. 

Serviço
15 de outubro a 21 de novembro de 2021
Sextas-feiras às 20h30, sábados às 15h30 e às 20h30, domingos às 15h e às 20h.

FICHA TÉCNICA
Texto: Marilia Toledo e Emílio Boechat
Direção: Fernanda Chamma e Marilia Toledo
Direção Musical: Marco França
Cenografia: Bruno Anselmo
Realização: Paris Cultural

Elenco por ordem alfabética:
Adriano Tunes – Velha da Praça, Nahim
Andreas Trotta – Leon
Bianca Rinaldi – Íris
Bruno Kimura – Anestesista, Bailarino Russo
Daniela Cury – Rebeca Abravanel, Hebe Camargo
Diego Montez – Wagner Montez, Sidney Magal, Boni
Gigi Debei – Mara Maravilha, Telemoça
Giselle Lima – Sônia Lima, Cidinha
Gustavo Daneluz – Silvio Jovem
Hellen De Castro – Gretchen, Telemoça
Ivan Parente – Pedro de Lara
Jú Romano – Rosana, Telemoça
Juliana Bógus – Aracy de Almeida
Léo Rommano – Atrasildo, Manoel de Nóbrega Alternante
Lucas Colombo – Bozo
Paula Flaibann – Elke Maravilha
Pedro Passari – Swing
Rafael Aragão – Alberto Abravanel, Silvio Alternante
Roquildes Junior – Roque
Thiago Garça – Pablo, Bailarino Russo
Velson D’souza – Silvio Santos
Verônica Goeldi – Boneca, Bolinha de Sabão, Telemoça
Vinícius Loyola – Gugu Liberato, Gilliard, Sérgio Mallandro

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