Crítica: Sertão Sem Fim, direção Donizeti Mazonas | Blog e-Urbanidade

Vivências de mulheres do interior baiano inspiram espetáculo que ocupa Teatro Sérgio Cardoso, em apresentações presenciais.

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Sertão Sem Fim - Foto: Keiny Andrade
Sertão Sem Fim – Foto: Keiny Andrade

O sertão é espaço, lugar, região, mas é também modo de ser, de pensar, de resistir. Nessa perspectiva, o monólogo com Tertulina Alves, Sertão Sem Fim, parte da vida de uma de suas mulheres, Bastia, para retratar as tragédias gestadas da luta na terra e pela terra. Assim, as desigualdades do chamado Brasil profundo denunciam fragilidades, mas também revelam obstinação.

A dramaturgia épica de Rudinei Borges dos Santos toma partido da pesquisa feita por Alves, em conversas com mulheres sertanejas de diferentes idades. E Bastia é uma dessas sobreviventes: teve o marido vaqueiro assassinado, após conquistar honestamente, e pelo trabalho do casal e dos filhos, mais de sessenta cabeças de gado.

A protagonista é acompanhada desde o nascimento até a viuvez num estado de espírito de resistência. Mas que fique claro que o sertão de Santos está mais para o universo menos árido e de grandeza de Bacurau do que para aquele imaginário ríspido de Deus E O Diabo Na Terra Do Sol.

Por sua vez, a direção de Donizete Mazonas usufrui do corpo da atriz para apoiar a dramaturgia, propondo outras camadas. O encenador com experiência também em dança, tem um olhar cinestésico para a jornada de Bastia que ora acrescenta elementos, ora exagera.

Sertão Sem Fim mostra originalidade nessa construção estética apurada e ganha notoriedade no trabalho cenográfico (e de figurino) do artista plástico Eliseu Weide. Completam a estética o desenho de luz acurado de Hernandes de Oliveira e a trilha sonora de Gregory Slivar

Sertão Sem Fim - Foto: Keiny Andrade
Sertão Sem Fim – Foto: Keiny Andrade

Com poucos objetos e a partir de elementos comuns do sertão, a montagem torna-se ao mesmo tempo vulnerável e, por outro lado, provocativa. Fragilidade ao reforçar itens e artefatos que repetem aquela visão do sertão seco, árido e caricato. Mas felizmente suscita e instiga por um novo olhar artístico para estes objetos. 

Alves é uma atriz inteira em cena, tanto no reconhecimento da lida dessas mulheres, graças a sua pesquisa que sustenta a dramaturgia, quanto pelo o entendimento da sua função como narradora. Assim, dramaturgia, direção e atriz se mostram hábil no teatro épico.  

A peça, ora em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, aponta para uma perspectiva além do geográfico, como o proposto no  36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão, que ocupou o MAM São Paulo, em 2019. Assim, o sertão é um sentimento vasto, de pensar, agir, ser, resistir e, principalmente, criar. Dessa forma, o sertão está dentro de todos nós. 

Bastia é uma mulher comum, portanto não se está no campo das heroínas! Os dramas dela, do dia a dia, são de todos e todas, nesse exercício de exaustão ordinário da aflição da humanidade. Portanto, o grito final dela é o urro de toda gente, nesse sertão sem fim que habita lugares e não-lugares. 

Serviço
De 5 a 22 de fevereiro de 2021 – Segundas, terças, quartas, quintas e sextas, às 19h. (Clique aqui para saber mais)
Indicação Etária: Livre

FICHA TÉCNICA
Idealização, Pesquisa e Interpretação: Tertulina Alves
Dramaturgia: Rudinei Borges dos Santos
Direção: Donizeti Mazonas
Cenografia e Figurino: Eliseu Weide
Desenho de Luz e operação: Hernandes de Oliveira
Designer Gráfico: Hernandes de Oliveira
Música: Gregory Slivar
Operação de som: Viviane Barbosa
Fotos: Keiny Andrade
Produção Executiva: MoviCena Produções (Jota Rafaelli)
Assistente de Produção: Leandro Dias
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto
Mídias sociais: Agência CLOCKWORK
Costureira: Benê Calistro
Artesã: Cida Souza

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