Crítica: Série Street Food: América Latina, Netflix | Blog e-Urbanidade

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Street Food: América Latina - Foto: Netflix
Street Food: América Latina - Foto: Netflix
Capa Street Food - Foto: Netflix
Capa Street Food – Foto: Netflix

Se o alimento reflete sobre as condições coletivas e materiais de um povo, parece que é na comida de rua em que as lutas de classes e sociais ficam ainda mais evidentes. E numa perspectiva quase poética, e de grande valor identitário, a série Street Food: América Latina, Netflix, torna-se uma boa opção para nos (re)conhecer.

Os criadores de Chef´s Tabel, também da Netflix, propõem-se a apresentar a boa gastronomia feita nos mercados e nas esquinas por essas bandas. E navegam por relatos pessoais, a partir dos ingredientes e processos, por Oaxaca (México), Salvador (Brasil), Buenos Aires (Argentina), Lima (Peru), Bogotá (Colômbia) e La Paz (Bolívia).

Disponível na plataforma desde o dia 22/07/2020, o roteiro dos episódios, de aproximadamente 30 minutos, é estruturado por uma história principal, entrecortada por outros ambulantes, com longa data no ofício de fazer comida popular.

Também, em cada capitulo, um ou mais chefs consagrados ou jornalistas de gastronomia do país-tema fazem suas considerações sobre os entrevistados. Tereza Paim faz as honras para o programa sobre a Bahia.

Street Food: América Latina - Foto: Netflix
Street Food: América Latina – Foto: Netflix

O grande trunfo do argumento de Street Food: América Latina está no ponto de virada das narrativas pessoais, a partir da comida. E é assim que a história de amor e perseverança de Dona Suzana, com sua moqueca de peixe no Ré Restaurante, em Salvador, no faz rir, emocionar e, com certeza, colocar na lista de afazeres na próxima ida a Bahia.

Graças a história e a tortilla de papas de Pato Rodrigues, no mercado central de Buenos Aires, que já no primeiro episódio o espectador é catapultado a uma provável maratona gastronômica.

Também tem as memelas da focada e solitária Dona Vale, no México. A quase freudiana trajetória de Tomas Matsufuji na sua “portinha” no Peru, com um delicioso combinado de ceviche, lulas a doré e arroz com frutos do mar.

Claro que em Bogotá a atenção fica para a cozinheira caribenha Luz Dary, com o reconhecido melhor ajiaco – a tradicional sopa colombiana. E, por fim,o destaque é dado ao bolo de batata frito recheado com carne, da cholita Dona Emi, nas ruas de La Paz.

Enquanto isso há acarajés, sanduiches, arepas, empanadas, tortilhas, piedrazos, choripans e muito mais, sempre são apresentados entre enredos de muito trabalho e reconhecimento vindo dos bons-de-garfos do povo. Então, as narrativas de falta de oportunidade e de preconceito de uma colonização trágica e excludente têm na comida de rua seu ponto de democratização e prazer.

Inclusive essas biografias de sucesso, ora romantizadas, ora de superação, dialogam muito com a linha dorsal das produções ficcionais da América Latina. Telenovelas, livros e filmes passam muito por esse lugar da mulher e do homem que vencem por seu próprios esforços. Claro que isso pode enviesar o olhar do assistidor ingênuo, afinal já estamos mais do que conscientes que as questões estão mais relacionadas a exclusão estrutural do que de individualidade.

Street Food: América Latina pode ser uma possibilidade de reconhecimento e autocontemplação do cidadão latino. Por isso, talvez incomode um pouco a fala da jornalista argentina Silvan Reusman em dizer, com certo orgulho, que a comida dos hermanos tenha grande influência europeia.

Afinal, o grande valor da série é o de nos encontrar nessa latinidade, com suas influências europeias e africanas, claro!. E sendo a comida de rua o reflexo daquilo que melhor nos representa, agrupa, democratiza e cria identidade.

Não deixem de ver!

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