Crítica: Seguindo Todos Os Protocolos, de Fabio Leal

Filme trata sobre o desejo no período de isolamento social e traz diversos questionamentos sobre os efeitos da pandemia.

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Seguindo Todos os Protocolos - Foto Divulgação
Seguindo Todos os Protocolos - Foto Divulgação

Sair de casa e encontrar fila para entrar no supermercado, devido ao controle de capacidade para evitar contaminação. Máscaras de pano, álcool gel, quarentena. “As máscaras cirúrgicas devem ser usadas somente pelos profissionais da saúde“, escutamos. O som frenético de ambulâncias que, ao mesmo tempo, se misturavam com o silêncio da rua, em virtude da maioria dos estabelecimentos comerciais estarem fechados. A volta do mercado e o medo da contaminação no elevador.

Chegar em casa, tirar os sapatos, higienizar as compras. Fazer pão e outras receitas vistas no YouTube e no Instagram. Tentar fazer um dos mais de dez cursos inscritos durante a pandemia, só para passar o tempo e na tentativa de tirar o foco do terror cotidiano. Mais postagens no Instagram. Regar as plantas. Silêncio. Solidão. Tédio. Angústia. Choro. Vídeo chamadas, relações que terminam, outras que começam. Um baita cansaço tecnológico. Notícias. Desemprego em massa, hospitais lotados. Fica em casa. O pronunciamento do ministro da saúde todos os dias na televisão. E mais angústia sem fim, em um país completamente desgovernado por uma necropolítica.

O conteúdo dos parágrafos anteriores te parece familiar? Ele foi vivido por nós de forma unânime, e ao mesmo tempo, com muitas diferenças devido aos diversos problemas sociais de nosso país. Esse foi o ano que sequer sonhávamos com vacinas e jamais saberíamos até quando duraria o inferno da pandemia — que sim, ainda continua. Também revelou um abismo social imenso entre aqueles que poderiam de fato permanecer em casa e entre aqueles que não tinham escolha, que ficavam entre a cruz e a espada entre ter que sobreviver, ao mesmo tempo em que tentavam não se contaminar.

Assim, a narrativa relatada no início deste texto é abordada pelo cineasta pernambucano Fábio Leal, que realiza seu primeiro longa solo Seguindo Todos Os Protocolos, tratando da pandemia na fase mais aguda, quando o personagem central da trama, Francisco, quer transar após 10 meses de quarentena. Mesmo com todo o terror que vivemos, hoje conseguimos ter um certo respiro ao conseguir rir de nossas atitudes e costumes durante o período. Não sabíamos lidar com o vírus, tivemos muitos comportamentos precipitados devido ao medo, como a desinfecção dos produtos no supermercado, por exemplo.

E é através da reconstrução do cotidiano de 2020, que Leal consegue colocar um espelho diante do espectador, quando nos deparamos com alguns comportamentos do personagem Francisco e até nos identificamos. Leal aborda o período mais crítico da pandemia com humor, mas sem deixar de lado a importância dos sentimentos que muitos de nós vivemos naquele ano, como melancolia, tristeza e o crescimento dos casos de depressão.

Se o longa tivesse estreado antes de 2020, teríamos um filme de humor distópico, beirando o absurdo. Mas com a realidade imposta pelo vírus, Seguindo Todos Os Protocolos acaba nos fazendo reviver uma realidade e sentimentos de uma época marcante na humanidade.

O medo do sexo na pandemia

A solidão de Francisco, interpretado pelo próprio diretor, mostra o sentimento compartilhado por muitos de nós durante o ápice da pandemia. Após dez meses de isolamento um rapaz de classe média, quer transar. Já não aguenta mais ficar apenas com a pornografia e com o sexo virtual, pelo contrário, necessita cada vez mais do toque corporal. Mas como resolver o impasse de atender o próprio desejo sem se contaminar?

Para isso, Chico elabora estratégias para receber amantes em casa. Primeiro, recebe um ex-namorado, que devido à pandemia, teve que virar entregador de delivery. Depois, tenta com um médico, que a seu ver, seria uma das pessoas naquele momento que mais se protegeria da doença.

Interessante notar como a profissão de cada um impacta também na escolha da parceria amorosa, com o intuito de sobreviver em um mundo pandêmico. Além disso, a personagem de Franscisco se revela como alguém realista, mas também exagerada em alguns momentos, praticamente ranzinza, chata, já que não aceita sequer um elogio do parceiro após a relação, criando uma discussão cansativa sobre algo que poderia ter sido simples e prazeroso.

A personagem é tão bem construída, que em alguns momentos, chega até a irritar o espectador. Por outro lado, Francisco se revela muito humano, porque o que tem é empatia e consciência, além do medo da morte, não só dele mas de pessoas queridas, sentimento compartilhado por muitas pessoas naquele período.

No fim, acabamos até por “perdoar” a personagem, pois quem viveu a época sabe muito bem dos sentimentos de medo, da angústia de imaginar perder amigos e familiares, e sem ao menos saber direito o que era o vírus e sem qualquer esperança de uma vacina.

Portanto, Leal nos mostra um personagem que conquista não pela sua simpatia – que aqui é praticamente nula, ainda mais diante de um contexto tão difícil – mas que conquista por sua imensidão humana, que por trás de tanto medo, pulsa a vontade de viver e de satisfazer os seus desejos, ainda que de forma desastrada e que arranca muitas risadas.

Outro ponto interessante é a fotografia do filme, que foi realizado todo em um apartamento, com pouquíssimas cenas externas e que traz a atmosfera claustrofóbica e tensa que vivemos na época. Há também a exploração livre do corpo dos atores em cenas mais explícitas, mostrando que todos os corpos devem buscar sua pulsão de vida, não importa o contexto e muito menos se correspondem a padrões estéticos e estereótipos.

Leal faz com que nos coloquemos no lugar de sua personagem, com um misto de cenário claustrofóbico, com as cansativas chamadas pelo Zoom, com os silêncios e enquadramentos que variam a nossa mirada, diante de um Francisco que representa muitos de nós. Assim, temos um filme muito interessante refletindo sobre o cotidiano pandêmico e que nos lembra da importância de cedermos aos nossos desejos, mesmo quando tudo parece estar perdido.

Assista o trailer:

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Fábio Leal
Produção: Fábio Leal, Juliana Soares
Produção Executiva: Juliana Soares
Direção de Arte: Manuela Antonino
Direção de Fotografia: Gustavo Pessoa
Edição de Som: Nicolau Domingues
Mixagem: Nicolau Domingues
Montagem: Matheus Farias, edt; Pedro Giongo, edt
Empresa Produtora: Áspera Filmes
Elenco:  Fábio Leal, Paulo César Freire, Marcus Curvelo, Lucas Drummond, Vitória Liz, Bruce de Araújo

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