Crítica: Sede, de Eugene O’Neill e direção André Garolli

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A Cia Triptal apresenta no canal do Centro Cultural São Paulo a peça Sede, do dramaturgo Eugene O’Neill (1888-1953). A encenação gravada tem jeito de Titanic, já que foi escrita 2 anos depois do naufrágio, com três personagens à deriva em uma balsa, sem comida e água. A luta humana cotidiana de não se tornar um animal predador é retratada no estrato social representado por um Cavalheiro, uma Bailarina e um Marinheiro.

Sede - Foto: Carla Gobbi e Catherine Gobbi
Sede – Foto: Carla Gobbi e Catherine Gobbi

Sede foi escrito em 1914, na chamada primeira fase da dramaturgia do norte-americano O’Neill, com personagens complexos inspirados em Dostoievski, Conrad, Zola e Melville. Aqui o realismo próprio do escritor toma ares de naturalismo, influenciado pelos textos no norueguês Henrik Ibsen (1828-1906).

Acredita-se que essa visão trágica tenha forte influência da própria relação do autor com a vida. Filho de um ator ordinário que passou décadas fazendo o mesmo personagem na Broadway, O’Neill foi expulso de escolas e universidades, tornando-se autodidata. Teve uma relação familiar complicada, mãe viciada em morfina e um irmão hedonista. E demorou para encontrar um rumo profissional.

Morou na rua e deslocou-se em grandes viagens de barco, por isso tais personagens sempre aparecem em seu rol, incluindo a relação entre negros e brancos. Definiu-se assim: “Estou sempre e sempre tentando interpretar a Vida em termos de vidas, não apenas vidas em termos de caráter. Mantenho-me sempre muito consciente da Força que está por trás de tudo – Destino, Deus, nosso passado biológico criando nosso presente, não importando o nome que se dê a isso – Mistério, com certeza – e da eterna tragédia do Homem em sua luta gloriosa, autodestrutiva para fazer com que essa Força dê expressão a ele, em vez de fazer que seja apenas, como um animal, um incidente infinitesimal da expressão dessa Força“.*

Dito isso, Sede tem tudo isso: é a pura tragédia humana. A tríade vai do verniz social até o abandono desses símbolos para se mostrarem e revelarem os animais que verdadeiramente somos.

A encenação de André Garolli absorve o realismo numa estética de isolamento, e que dialoga com os cuidados sanitários necessários em tempos de Covid-19. Em três bancos altos e distantes entre si, a Bailarina e o Cavalheiro buscam reminiscência para provar a sua dignidade. E ai, entram em jogos psicológicos e amorosos para tomar as prováveis água e comida que o Marinheiro negro tenha guardada.

É verdade que não há lirismo no texto de O’Neill, o que Garolli felizmente imprimi na cenografia de Julio Dojcsar; iluminação potente – também de Garolli; nos figurinos compatíveis de Telumi Hellen Yamanaka; e reforçados no visagismo e maquiagem de Beto França. Talvez essa intervenção plástica torne o texto naturalista mais palatável.

Afinal, Garolli parece acertar neste olhar estético ao encenar textos do realismo clássico com pitadas oníricas. Como aconteceu, em 2020, em Inferno – Um Interlúdio Expressionista, de Tennessee William. Talvez possa dizer que o diretor apropria-se do que foi Ziembinski (1908-1978) para a crueza desconhecida do público até então de Nelson Rodrigues (1912-1980), em 1943. Afinal, utilizar elementos cênicos para revelar poesia na opressão e no desfortuno de cada dia, que é de todos nós, é um exercício de originalidade nem sempre tão imediato.

Inferno - Um Interlúdio expressionista - Foto: Alexandre Inserra
Inferno – Um Interlúdio expressionista – Foto: Alexandre Inserra

Camila dos Anjos e Fabrício Pietro repetem a parceria de Inferno, também com o diretor, e mostram-se à vontade em suas personas. Anjos é sempre milimétrica no texto, emoções e corpo. Vê-la nos palcos tem sido cada vez mais imperdível! Pietro traz a maturidade do homem comum, segue no tom acertado e humano alcançado com Frank, seu personagem em Jardim de Inverno, em 2019.

O ator Diego Garcias tem poucas oportunidades na dramaturgia de O’Neill, mas aproveita o quanto pode. É verdade que o texto trata de racismo e do jogo histérico de supremacia própria da branquetude, mas aqui o protagonismo narrativo é dos brancos. O que obviamente não desmerece a provocação.

Por fim, o cineteatro Sede nasce nessa precariedade do teatro possível nestes tempos pandêmicos, entre cinema e artes cênicas. E que dialoga com a solidão e o grande barco náufrago que tornou o mundo diante da Covid-19, quiçá o Brasil!

Segundo a Folha de SP, dia 25/04/2021, o consumo de ricos durante a pandemia fez os bilionários mais bilionários. Sendo que nas áreas mais periféricas chegaram a ter três vezes mais mortes causadas pelo coronavírus do que em outras regiões. Portanto, a premissa do dramaturgo estava correta: a tragédia que nos tornamos como sociedade.

*CARGILL, O. et al. (Ed.) O’Neill and his plays: four decades of criticism. New York: Harper and Row, 1989. Citado em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142010000300014

Serviço
De 23 a 30 de abril às 21h30.
(Clique aqui para acessar todo o serviço)

Ficha Técnica
Autor – Eugene O’Neill
Direção Artística – André Garolli
Elenco – Camila dos Anjos – Fabrício Pietro – Diego Garcias
Voz off: Denise Weinberg
Cenografia: Julio Dojcsar
Figurino: Telumi Hellen Yamanaka
Assistente de figurino: Mariana Morais
Visagismo e maquiagem: Beto França
Desenho de Luz: André Garolli
Técnico de luz: Rodrigo Alves (Salsicha)
Técnico assistente de luz: Rafael Augusto Moreno Parra
Produção executiva: André Garolli e Fabrício Pietro

Equipe Audiovisual
Kroon – produção
Diretor de produção: Felipe Janowsky
Produtor executivo: Evandro Ragonha
Coordenadora sr. de produção: Mariana Milanez
Produtor: Bruno Sechini
Assistente de produção: Eloah Sat
Assistente de produção – Felipe Agresta (Milk)
Coordenadora de pós produção: Beatriz Hatori
Editor: Andreas Couto
Garagem filmes – suporte técnico
Diretor de fotografia: Tato Vilela
Desenho de luz: Sendi Morais
Operador de câmera: Felipe Agresta (Milk)
Operador de câmera: Arthur Machado
Técnico de som: Ivan Muniz
Greyhound media – transmissão
Diretor de transmissão: Mário Costa Junior

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