Crítica: Reunião De Condomínio – Uma Assembleia Cômico Extraordinária, direção Daniel Warren

Reunião de Condomínio, de Franz Keppler, tem Andrea Dupré, Daniel Tavares, Ed Moraes, Nilton Bicudo, Patrícia Gasppar e Rafael Primot.

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Reunião de Condomínio - foto: Divulgação
Reunião de Condomínio - foto: Divulgação

O que pode ser mais representativo em tempos de brigas, confusões, bipolarização e egoísmo do que os encontros entre vizinhos? Por esse mote parte Reunião de Condomínio – Uma Assembleia Cômico Extraordinária, peça escrita por Franz Kepler (Brian ou Brenda) e direção de Daniel Warren.

Seis personagens estão reunidos para tratar do cheiro de podre do apartamento no centrão do imóvel (piada pronta!) e da infestação de cupins que tomam conta do Edifício Bandeirantes. O nome do prédio ajusta-se bem com essa discussão de homenagens e estátuas de sanguinários que há muito tempo são considerados heróis.

Pois bem, convocam para a assembleia remota o síndico, corrupto e coach, interpretado por Rafael Primot. Na tela do aplicativo estão Maria Clara (Andrea Dupré), uma advogada de índole questionável, mas bem comum de encontrar por aí; o marido Diogo (Ed Moraes), um empresário que se conecta de Buenos Aires; Plínio (Nilton Bicudo), um jogador de tarô que sabe tudo sobre todos; Judith (Patrícia Gasppar), a divertida e habitual vizinha que te pega de papo na porta do elevador; e filho dela, Gil (Daniel Tavares), que mora no mesmo prédio com seu marido Ivan.

A dramaturgia chega por identificação imediata com espectador ao tratar-se de um tema tão ordinário. Quem um dia esteve em qualquer reunião do tipo, assimila de bate-pronto a dinâmica: vizinhos conversando sobre assuntos gerais e que prosseguem nas reclamações de atrasos e tolerância com os retardatários, antes de adentrar na pauta.

Kepler aplica-se a revelar as camadas de polimento e sordidez característica da classe média. Alfinetam-se, traem-se, corrompem-se, mentem e são altamente moralistas. Reunião de Condomínio é uma crônica descomplicada da sociedade branca, cisgênera e liberal. Com suas qualidades, defeitos e desastres estruturais.

Assim, a encenação segue por uma linha realista. Diante das pesquisas e experiência de Warren em clown, ele apoia o elenco numa dramatização naturalista, veloz e espontânea. O encenador investe acertadamente no jogo dos atores, já que a dramaturgia explora o embate em diálogos divertidos e ininterruptos.

E aí, a facilidade à comédia do elenco segura o espectador nos menos de quarenta minutos. Bicudo e Gasppar divertem e divertem-se na sua caixa do Zoom. Valem o ingresso, tanto pelos personagens como pelas atuações.

Dupré assume com perfeição a persona daquela mulher liberal, moralista, mas sem ética. Primot adequa-se ao coach e reforça bem o descrédito contemporâneo ao homem, branco e heterossexual. Tavares e Moraes reforçam o tom da comédia, dentro das possibilidades dadas a eles pela dramaturgia.

Em formato de cineteatro, Reunião de Condomínio traz importantes considerações sobre a tragédia social que nos metemos quando desejamos viver em comunidade. Tudo isso em uma sociedade marcada pela revolução tecnológica e altamente egoísta, num mundo fragmentado por redes sociais e pós-verdade.

Portanto, não há remissão aqui e provavelmente nem seja essa intenção, já que as crônicas do cotidiano servem para isso. Apresentam-se como um jogo de espelhos sobre o que está aí. É trágico, mas aqui, felizmente, é cômico.

Serviço
De 23 de julho a 23 de agosto (mais informações e ingressos, clique aqui)
Indicação etária: 14 anos.
40 minutos.

Ficha Técnica
Texto: Franz Keppler
Direção: Daniel Warren
Editor: Marcelo Moraes
Elenco: Andrea Dupré, Daniel Tavares, Ed Moraes, Nilton Bicudo, Patrícia Gasppar, Rafael Primot
Produção: Fábio Rise / Assistente de Produção: Alexandre Fioravante

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