Crítica: POUSADA REFÚGIO, direção Pedro Granato – Blog e-Urbanidade

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Pousada Refugio - Foto: Ana Alexandrino
Pousada Refugio - Foto: Ana Alexandrino
Pousada Refúgio – Foto: Ana Alexandrino

Com direção de Pedro Granato e texto de Leonardo Cortez, Pousada Refúgio volta em cartaz no Teatro Vivo. A saborosa e inquietante comédia traz um olhar duro sobre a geração que um dia acreditou nas promessas neoliberais. As contradições entre discurso e realidade na busca da realização pessoal, feita nessa produção muito bem executada, tornam a peça uma das boas opções teatrais do momento.

A trama apresenta dois casais que desejam construir um recanto no meio da natureza para fugir da vida angustiante da grande cidade. De um lado, os donos da casa, o publicitário Zé Carlos (Leonardo) e sua esposa Walkíria (Gláucia Libertini), recebem os amigos e sócios, o professor Pardela (Maurício Barros) e a psicóloga Cleide (Tatiana Thomé). A reunião no apartamento moderno, hipster, com eletrodomésticos de última geração, tem como disparador a apresentação da maquete feita pelo irmão de Walkíria, o perturbado Ronaldo (Daniel Dottori). A partir dai muita bebida, revelações e um texto afiado vão revelando a tragédia dessa geração.

Pousada Refúgio reúne, em primeiro lugar, uma dramaturgia bem delineada, jornadas bem construídas e reviravoltas que colaboram na construção de uma crônica contemporânea e real. O texto foi indicado ao melhor do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), após indicações em trabalhados anteriores, com destaque a peça de 2016, Sala dos Professores. Leonardo acerta na carpintaria dramatúrgica com diálogos e tiradas certeiras e um desfecho convincente.

A direção de Granato potencializa a dramaturgia com foco no texto, dando ritmo às falas e no apoio ao elenco. Os atores e atrizes apresentam humanidade nas mais diferentes situações e camadas. Mesmo com interpretações homogêneas, Maurício (indicado ao APCA como melhor Ator) e Daniel se destacam diante da força dramática das suas personagens e são eles os desencadeadores dos bons momentos.

Há ainda de se destacar os figurinos de Marichilene Artisevskis que conseguem explicitar, também, as contradições (e ironias) do universo da peça. A cenografia de Diego Dac é certeira, mas existem alguns problemas de acabamento em alguns mobiliários, o que não compromete a produção. 

O texto escrito e realizado por essa equipe jovem ilumina e dá ânimo sobre o futuro do teatro nacional. Assistir Pousada Refúgio, além de toda a qualidade acima descrita, é um texto contundente e necessário. Aquela juventude alimentada pela ambição de conquistar as contas publicitárias e os cargos mais altos é a mesma que destruiu o planeta e se entope de remédios de depressão (e impotência sexual). A pousada rodeada de verde representa aquela ilusão de que ainda vale a pena trabalhar de segunda a sexta nas empresas que buscam resultados desenfreados para curtir dois dias do fim de semana de felicidade. E neste mundo da inveja e salva-se-quem-puder não há como sair ileso, principalmente para quem aceita entrar nesse jogo.

Serviço: temporada até 18 de setembro de 2018 – terças-feiras, às 20h.

Ficha técnica:
Direção: Pedro Granato. Dramaturgia:  Leonardo Cortez. Elenco: Daniel Dottori (Ronaldo), Glaucia Libertini (Walkiria), Leonardo Cortez (Zé Carlos), Maurício de Barros (Pardela) e Tatiana Thomé (Cleide). Iluminação: Beto de Faria. Figurinista: Marichilene Artisevskis. Assistência de Direção e Cenografia: Diego Dac. Assistente de cenografia: Paulo Viel. Cenotécnico: José Roberto Tomasim. Fotos: Ana Alexandrino. Logomarca do Espetáculo: Lucas Sancho. Produção: Contorno Produções e Pequeno Ato. Direção de Produção: Jessica Rodrigues e Victória Martinez. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. Apoio: Rick Cuckierma e Brechó Frou Frou Vintage.

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