Crítica: Pós-F, direção de Mika Lins

O solo é inspirado em Pós-F, Para Além do Masculino e do Feminino, a primeira obra de não-ficção de Young, que venceu o Prêmio Jabuti 2019.

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PosF - Foto: Bob Wolfenson
PosF - Foto: Bob Wolfenson

Maria Ribeiro e Fernanda Young: uma combinação explosiva e visceral, como já era de se esperar com o encontro de duas grandes artistas. Ou melhor: de três grandes, já que Mika Lins é a terceira parte da tríade, assinando a direção de Pós-F.

A peça, um monólogo, chega finalmente aos palcos após um período de temporada online, realizada no Teatro Porto Seguro durante o auge da pandemia e sem plateia. Mas que agora vem finalmente encontrar o público.

O espetáculo é uma adaptação do livro Pós-F, Para além do masculino e do feminino, de Young, vencedor do Prêmio Jabuti em 2019, três meses depois da morte inesperada da autora, aos 49 anos, que deixou um legado de escrita questionadora, divertida, instigadora e ao mesmo tempo apaixonada. O livro reúne textos autobiográficos e ilustrações da própria Fernanda que fomentam o debate sobre o que
significa ser um homem e uma mulher nos dias de hoje.

Maria Ribeiro dá voz às muitas experiências do livro e à Young, vítima de uma crise de asma seguida de parada cardíaca. “Onde queres descanso, sou desejo”, escreveu Fernanda Young em seu último post no Instagram, tornando-se quase um epitáfio.

No playbill da peça, Maria Ribeiro escreve que devorou o livro no mesmo dia em que o comprou. Logo depois, mandou mensagem para Young pedindo seu aval para fazer uma peça inspirada nele. Ambas até chegaram a trabalhar juntas no projeto, primeiro com os ensaios e reuniões, resultando em uma única apresentação dividindo o palco.

Assim, acaba sendo praticamente impossível falar de Pós-F e não falar de Fernanda, até porque Lins e equipe realizam uma montagem que incrivelmente visitam o universo da escritora. Tanto pela atuação impecável, intensa e livre de Maria Ribeiro, como pela cenografia e uso sábio de elementos cênicos, bem como trilha sonora. Trata-se de uma liberdade e criatividade intensas, como defendia Fernanda.

Na peça, Young se revela como uma das tantas personagens femininas criadas por ela, sempre livre para fazer o que quiser, amar quem quiser e viver à sua maneira, porém cercada por um sentimento intrínseco de inadequação. Esse constante deslocamento faz com que Fernanda seja capaz de observar tanto o feminino como o masculino em todas as suas potencialidades.

Uma cenografia condutora a um universo

A cenografia onírica também assinada por Lins leva o espectador para a cabeça de Young e seu universo, composta por diversos elementos pendurados, como desenhos, pôsteres e escritos. A luz de Caetano Vilela é predominantemente roxa, e acrescenta à atuação de Maria Ribeiro, nesse lugar provisório e de reverberação.

Maria Ribeiro em sua máxima potência

Com uma atuação intensa, com potente utilização da expressão corporal, voz, tempo de texto e composição do espaço cênico, Ribeiro nos presenteia com 60 minutos de uma acertada performance, quase incorporando Young. A maneira de falar e a forma como se movimenta no palco – fortíssimas, diga-se de passagem – trazem ao público a dimensão da força e da potência de Young.

O texto adaptado por Vilela, Ribeiro e Lins utiliza trechos do livro onde são debatidos muitos questionamentos sobre o feminino e o masculino em nossa sociedade. É muito provável que em muitas das falas de Ribeiro, muitas mulheres se vejam representadas naquilo a que somos condicionadas desde crianças. Tais como sonhar com um príncipe encantado, salvador ou resgatador de algo.

Assim, o texto dá excelentes chacoalhadas sobre alguns lugares-comuns do pensamento social. E Fernanda-Maria, aqui quase que como numa simbiose, esfregam na cara do público esses e muitos outros questionamentos sobre o universo masculino e feminino.

Assim, Pós-F nos transporta a uma visão de mundo riquíssima, com excelente interpretação e com um texto que nos pega em cheio. Tudo isso diante de um mundo tão radicalmente polarizado, onde cada vez mais o ato de opinar vem carregado massivamente da falta de inteligência. Por isso, não deixem de mergulhar nesse universo cheio de tantas boas reflexões.

Serviço

De 29 de abril a 26 de junho – Sextas e sábados às 20h e domingos às 19h. (saiba mais aqui)
14 anos
50 minutos.

Ficha Técnica
Texto: Fernanda Young. Com Maria Ribeiro. Direção e cenografia: Mika Lins. Adaptação: Caetano Vilela, Maria Ribeiro e Mika Lins. Iluminação: Caetano Vilela. Figurino: David Pollack. Trilha Sonora: Estela May, Maria Ribeiro, Mika Lins e Caetano Vilela. Ilustração: Fernanda Young, Estela May e Mika Lins. Cenotecnia e Direção de Palco: Alejandro Huerta. Fotos: Bob Wolfenson. Coordenação de Comunicação: Vanessa Cardoso. Assessoria de imprensa: Factoria Comunicação. Designer: Luciano Angelotti. Assistência, programação e operação de luz: Nicolas Caratori. Coordenação técnica: Helio Schiavon Jr. Operação de Luz: Marcel Rodrigues. Operação de Som: Hayeska Somerlatte. Captação de imagens e edição: Paula Mercedes. Visagismo: Marcos Padilha. Assistente de Produção: Rafaella Blat. Produção executiva: Camila Scheffer. Produção: Dani Angelotti.Realização: Cubo Produções.

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