Crítica: Partida, filme e direção de Caco Ciocler | Blog e-Urbanidade

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Partida - Foto: Divulgação - Cisma Produções / Primeiro Plano
Partida - Foto: Divulgação - Cisma Produções / Primeiro Plano

A atriz Georgette Fadel, numa das primeiras cenas de Partida, reflete o sentimento de parte da população brasileira quando se concluiu a contagem dos votos para eleição à presidência da república, em 2018. E é no frescor desse espanto que o diretor Caco Ciocler faz um road movie, num ônibus, de São Paulo ao Uruguai para encontrar o ex-presidente de lá, Pepe Mujica.

Georgette, com sua habilidade aos jogos cênicos, domina a cena no encontro com seus colegas de viagem: Caco, Léo SteinbruchPaula Cesari e Sarah Lessa. E é no borrado do que é ficcional e real, o espectador é levado por uma jornada pelo Brasil polarizado, tendo como fio da meada uma possível candidatura da protagonista à presidência em 2022.

O diretor informa que as improvisações são livres: basta chamar as equipes de filmagens que vão com eles. Mas, também indica algumas cenas pelo WhatsApp.

A chegada ao acampamento instalado na Polícia Federal, em Curitiba, onde Lula esteve preso, expõe uma das camadas da película. Georgette e Léo jogam com os discursos extremados entre direita e esquerda, incluindo a incapacidade de escuta mútua.

O tom sanguinolento e beligerante que vai tomando os embates soa óbvio demais, principalmente diante da capacidade comunicativa de Georgette. E aí, mesmo que a direita tenha lá seus argumentos pouco fundamentados e torça-se pelo seu aniquilamento, Léo-personagem caí numa falta de complexidade.

Já Sarah Lessa vai no registro do brasileiro titubeante. Olha com certo asco os discursos extremistas, procura não se posicionar, abstém-se de qualquer protagonismo. São os insentões!

Paula está na trupe por ser analista e apresenta-se nas sessões de costas para o público. Assim, parece que a viagem também é um espaço de suspensão e de escuta ao espectador, ainda perplexo com àquela eleição (e com os dias que vieram depois).

Até Caco é colocado à prova por “vender-se” à televisão (e Rede Globo). Talvez até soe radical, mas dialoga eficazmente com a premissa de Mujica.

Algumas cenas inesperadas são potentes, como do câmera português sobre os motivos do Brasil sempre explorar seu povo. O filme podia acabar ali! E subir os créditos com Aluga-se, de Raul Seixas.

Tá na hora agora é free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá pra alugar

Partida ganha originalidade e lógica dramatúrgica quando a cena final inesperadamente acontece.  Mesmo diante de uma jornada tão cheia de discussões, embates e verdades, é como se o espectador encontrasse a utopia. Possível! Sim, o filme ali emociona.

É verdade que o filme tem uma linguagem muito próxima do teatro performático, por meio dos jogos entre verdade e ficção. E por isso, o roteiro mostra-se inventivo e comunica com a estética documentarista, sem grandes enquadramentos, fechada no microcosmo: o ônibus.

E vale a pena esperar a última sequência. Além de alinhavar a jornada, indica a redenção para o assistidor pela utopia da afetividade e do valor do outro. E assim, é possível, (tentar!) voltar para casa e encarar esse Brasil.

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