Crítica: Para Duas, direção Elias Andreato | Blog e-Urbanidade

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Para Duas - Foto: Kim Lee Kyung
Para Duas - Foto: Kim Lee Kyung
Para Duas - Foto: Kim Lee Kyung
Para Duas – Foto: Kim Lee Kyung

Karin Rodrigues, Chris Couto e Cláudio Curi voltam com o espetáculo Para Duas. Depois da temporada digital, chega presencialmente no Teatro Sérgio Cardoso, seguindo todos os protocolos de biossegurança. Assim, o público pode conhecer Anete e Tula, mãe e filha que se encontram após anos de ausência, em uma montagem cheia de qualidades em que o trágico cotidiano é o motor.

A distância entre elas é tão estridente que Tula não a reconhece, na primeira cena, quando a mãe finge vender enciclopédia à sua porta. O contrassenso inicial, em dias em que coleções de livros, inclusive com dvd´s, são coisas de museu, reverbera em elementos do teatro do absurdo de Beckett. Cômico e trágico como o Nagg e Nell, em Fim da Linha.

Enquanto Samuel Beckett explora a não ação, inerente ao sofrimento humano, relacionada à ideia de extinção e infelicidade, o baiano Ed Anderson vai além e aposta na incongruência em uma das relações mais cultuadas em nossa sociedade: mãe e filha. Então, ao tirar potência do vínculo entre elas, o texto apresenta conflitos subjetivos e intrapsíquicos. Não há reviravoltas, nem catarse, nem heroínas. A vida segue seu curso, apesar disso, e é feita de pessoas ordinárias.

Ainda sob o texto, o encontro lembra Nora, a clássica personagem, de 1879, de Henrik Ibsen, que abandona os filhos para seguir seus desejos. E que há pouco o norte-americano Lucas Hnath imaginou, também no teatro, um reencontro de Nora com a filha e o marido. Ambas montagens propõem fazer uma crônica do drama da vida cotidiana, em que o efeito catártico não é mais uma premissa.

Desse modo, Anderson explora certo embotamento nessas relações: são simpáticas e corteses, se alfinetam aqui ou ali – em diálogos saborosos -, jantam, marcam novos encontros, imaginam se  matando e sendo mortas – em uma cena curta expressionista. O que mete medo não é mais a morte, mas o reconhecimento da solidão e, pior!, também revelada nos outros.

É verdade que Para Duas aposta em alguns elementos secundários e que parecem pouco dialogar com o texto, como o universo cinematográfico do pai, separando as cenas (ou quadros) em takes. Ficam dúvidas! Em tal caso, o genitor ali, ao fundo, evidencia que tudo aquilo é um delírio? Ou a fantasia do cinema as ajudou a sedar aquela não-relação? Estariam ele e elas num além-vida? De fato, o que fica evidente é que o assistidor precisaria ouvir mais sobre o pai, além da curta cena.

Elias Andreato reforça seu apurado olhar e direção focada no texto. Sem grandes firulas, é um encenador que se ampara nos diálogos, rubricas e entendimento integral do e das intérpretes.

Couto é certeira ao assumir as falas irônicas e consegue trazer uma certa comicidade no absurdo do encontro. Mostra aprumo na mulher comum e tem tudo para repetir os elogios e prêmios de A Milionária.

Rodrigues tem o tom da mãe hedonista, perplexa com o fim da vida. Ora soa arrependida, ora convicta. Vale o ingresso! Curi fica em cena o tempo todo, observa tudo, fala pouco e, como já dito, precisava dizer mais. Mas, parafraseando Sábato Magaldi ao criticar, certa feita, Marília Pera: é melhor ver Curi falando pouco do que não vê-lo no teatro.

A produção da Nosso Cultural ainda conta com o cenário e figurino de Fábio Namatame, trilha sonora de Jonatan Harold e iluminação de Cleber Eli.

A nova temporada é ainda uma oportunidade de retorno ao teatro presencial, tão prejudicado pelo distanciamento social. Dessa maneira, o público e criativos vão aos poucos assumindo a possibilidade de conviver com o novo coronavírus.

Ademais é uma oportunidade para mergulharmos nas possibilidades da dramaturgia moderna e nas vicissitudes da perda e infelicidade próprias do sujeito contemporâneo. E aí, observar a não vinculação numa das mais inflamadas relações sociais tem muito a dizer do exílio humano. E que poderia ser pessimista, mas Anderson, em Para Duas, nos faz rir disso, em alguns momentos.

Serviço
De 8 de janeiro a 1º de fevereiro. Sexta e sábado, às 19h. Domingo e segunda, às 20h. (clique no link para ter acesso a agenda do blog).
Capacidade Sala Paschoal Carlos Magno: 58 lugares (40% da capacidade total da plateia, conforme estabelecido pelo protocolo do Governo do Estado e da Prefeitura da capital).
Indicação Etária: 12 Anos.

MORADORES DO BIXIGA E BELA VISTA
50% de desconto nos ingressos*
No Teatro Sérgio Cardoso os moradores do Bixiga e da Bela Vista podem adquirir ingressos pela metade do preço. Vá até a bilheteria do teatro com um comprovante de residência e verifique as condições e disponibilidade de ingressos promocionais. (Até dois ingressos por CPF).

Ficha Técnica
Texto: Ed Anderson. Direção: Elias Andreato. Assistente de Direção: Rodrigo Chueri. Elenco: Chris Couto, Claudio Curi e Karin Rodrigues. Cenário e Figurino: Fábio Namatame. Assistente de figurino: Juliano Lopes. Trilha Sonora: Jonatan Harold. Iluminação: Cleber Eli. Comunicação Visual: Alexandre Brandão. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Produção: Nosso Cultural. Direção de Produção: Ricardo Grasson. Produtor Executivo: Heitor Garcia. Gestão de Projetos: Lumus Entretenimento. Fotos: Kim Lee Kyung.


Confira a entrevista da atriz Chris Couto sobre Para Duas para o Rolê Urbano” 

A atriz Chris Couto participou do episódio #25 – Derrubando Estátuas do Rolê Urbano, falando sobre a peça Para Duas. Ouça a entrevista completa no nosso player: Clique aqui.

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