Crítica: Papa Highirte, direção Eduardo Tolentino de Araújo

Espetáculo é uma fábula de um ditador populista de um país fictício sul-americano que deseja voltar ao poder. O texto foi escrito em 1967/1968, ano do AI-5, e acabou sendo proibido pela censura.

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Papa Highirte - Foto Ronaldo Gutierrez
Papa Highirte - Foto Ronaldo Gutierrez

Um dos textos mais potentes de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, e proibido pela censura da ditadura militar, ganha montagem do Grupo Tapa, com direção de Eduardo Tolentino de Araújo.

A história do ditador populista deposto da fictícia Alhambra é protagonizada por Zécarlos Machado. Lembranças e a tentativa de voltar ao poder, sempre apoiado por militares, expõem os limites e as incongruências dos estados de exceção e que atualiza-se nesse Brasil atual. Papa é um herói negativo no fim da vida, depois de viver três anos de exílio, quando pesam o abatimento e a melancolia.

O anti-herói de Vianinha

Esse anti-herói de Vianinha é consumido pelas reminiscências do poder, asilado na também fictícia Montalva, com sua empregada Grissa (Isabel Setti) e o guarda Morales (Adriano Bedin). Os conchavos e tramoias são compartilhadas com Perez y Mejia (Eduardo Semerjian), Menando (Mauricio Bittencourt) e o Estrangeiro (Fulvio Filho).

Lá pelas tantas a prostituta Graziela (Camila Czerkes) chega à casa e traz consigo um novo motorista, Diego (Bruno Barchesi). Por sua vez, o novo empregado tem segredos e segundas intenções para vingar a morte de Hermano Arrabal, o Manito (Caetano O’Maihlan).

O protagonista é uma mistura dos traços característicos dos ditadores presentes na América Latina, com seus mecanismos de poder e exploração. Populistas, eloquentes e bárbaros. O título da montagem faz alusão ao ditador haitiano que governou de 1957 a 1971, François Duvalier, conhecido como Papa Doc.

Dessa forma, passado e presente se misturam numa dramaturgia nítida, ora revoltante, ora comovente. Segundo Sábato Magaldi, “Papa Highirte já é obra da maturidade, consagrando um dos dos talentos mais legítimos da dramaturgia brasileira“*.

A peça significou a renovação da dramaturgia e do teatro no sentido estético e político nas montagens do Teatro de Arena de São Paulo, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC), e o grupo Opinião, do Rio de Janeiro.

Escrita em 1967/1968, ano do AI-5, ganhou os palcos somente em 1980, após a anistia, no Teatro dos 4 e direção de Nelson Xavier. Tin Urbinatti dirigiu uma versão no Grupo de Teatro de Ciências Sociais da USP, em 1975. Ainda, no final dos anos 1980 teve uma produção com direção de Reinaldo Maia

Encenação

A encenação de Tolentino de Araújo põe todos os atores em cena, em arena, espalhados pela sala de apresentação. Traz a consciência dos fatos e as complexidades das personagens numa cadência de sentimentos e suspense, culminando num desfecho forte e impactante. Tudo numa estética sombria e que aproveita as portas, paredes e escadas do espaço, como se o espectador fosse um observador em tocaia.

A luz realista de Wagner Pinto ajuda o assistidor na compreensão e marcação do presente e passado. Já os figurinos em cinza e preto reforçam a plástica taciturna, com inspirações dos anos de 1960. Ainda Cassio Cöllares colabora nas coreografias sugeridas pela dramaturgia, e que traz um pouco de lirismo à dureza das histórias apresentadas.

Elenco

Com um diretor experiente à frente, o extenso texto, de quase duas horas, chega por um elenco homogêneo e regular, mesmo que as sequências de Vianinha não sigam uma lógica crescente e óbvia. Todos atores e atrizes são humanos, vivos, não caricatos e reconhecíveis no estrato social e nas configurações de pessoas gestadas e criadas em meio às ditaduras.

Bittencourt, Semerjian e Fulvio Filho ganham seus espaços e alcançam a ironia dos poderosos nos governos totalitários, feitos de homens maus, duros, covardes e ricos. Setti é a empregada de poucas falas, mas traz a emoção e o traço de subserviência necessário à manutenção desse comando. Ela está presente em muitos quartinhos dos fundos dessa estrutura coronelista e da Casa Grande do Brasil (e América Latina).

Czerkes tem a exuberância e o terror das mulheres que transitam entre os limites do poder sexual e político, afinal eles são quase biunívocos. Já O’Maihlan traz o vigor e a utopia dos revolucionários com potência. E Bedin assume a persona do feitor com destreza e traz um riso bestial e bruto que acrescenta à dramaturgia e sua personagem.

Barchesi assume a complexidade de Pablo Maris /Diego com assertividade e emoção. Acerta tanto ao fraquejar quando percebe um Papa humano após a ligação da filha do político, quanto ao reconhecer o constructo vil do ex-ditador, o que o leva a decisão derradeira.

Machado é um Papa Highirte atormentado pelo passado e por um futuro que nunca chega. Ganha humanidade em muitas sequências e mostra-se extremamente perspicaz ao ironizar os discursos díspares e inconsequentes dos populistas. E aí, o grande acerto de Vianinha, e que o intérprete alcança, é o de deixar o espectador ora afeiçoado, ora execrando o personagem-título.

As veias abertas da América Latina

Por fim, a montagem em cartaz no Galpão Tapa é uma oportunidade do público reviver as (i)lógicas das tiranias políticas, expostas nas veias abertas da América Latina. Entender como muitos constructos e estruturas estão presentes tanto nos governos recentes, quanto na forma de se viver do nosso país, nas relações de cada dia.

Tem lá também uma oportunidade de reconhecer-se na política e estrutura que transita pelas lutas da esquerda e da classe trabalhadora latino americana. E revelar como não é possível suprimi-la sem exterminá-la de fato, mesmo decepcionados pela sua resistência e capacidade de retornar com novos e velhos discursos.

Papa Highirte é visceral, por isso essencial, formativo e oportuno.

Serviço

De 20 de maio a 17 de julho – Sexta e sábado, às 20h, domingo, às 18h.
14 anos.
120 minutos.

FICHA TÉCNICA
Autor: Oduvaldo Vianna Filho. Direção: Eduardo Tolentino de Araujo. Elenco: Adriano Bedin (Morales), Bruno Barchesi (Pablo Mariz / Diego), Caetano O’Maihlan (Hermano Arrabal / Manito), Camila Czerkes (Graziela), Eduardo Semerjian (Perez y Mejia), Fulvio Filho (Estrangeiro), Isabel Setti (Grissa), Mauricio Bittencourt (Menandro) e Zécarlos Machado (Papa Highirte). Desenho de Luz: Wagner Pinto. Assistente de Iluminação: Gabriel Greghi. Design Gráfico da Divulgação: Mau Machado. Fotógrafo: Ronaldo Gutierrez. Redes Sociais: Bianca Nóbrega. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Assistente de Produção: Nando Barbosa. Produção Executiva: Nando Medeiros. Direção de Produção: Ariel Cannal.

*MAGALDI, Sábato. Moderna Dramaturgia Brasileira: primeira série/ Sábato Magaldi – São Paulo: Perspectiva, 2010.

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