Crítica: Pandas ou Era uma vez em Frankfurt, direção e adaptação de Bruno Kott | Blog e-Urbanidade

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Pandas - Foto: Divulgação
Pandas - Foto: Divulgação
Pandas ou Era uma vez em Frankfurt - Foto: Bruno Kott
Pandas ou Era uma vez em Frankfurt – Foto: Bruno Kott

O encontro inusitado de um saxofonista com a namorada que aparece na sua cama numa manhã é o ponto de partida da adaptação do chamado “experimento teatral” que chega a plataforma Zoom. A versão e direção de Bruno Kott dá conta do texto original do dramaturgo romeno Matéi Visniec, reconhecido com um dos sucessores do teatro do absurdo.

Em cena (ou na tela) aparecem o ator Mauro Schames e a atriz Nicole Cordery numa encenação que dura, no máximo, quarenta minutos. Mas, e aí, quem seriam eles? Por que estão juntos? Por que ela está com pressa? Que lugar estão? Em que época?

As incongruências assemelham-se ao encontro de Arquiteto e o Imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, que como Eugène Ionesco e Samuel Beckett, partem do teatro absurdo para expor a solidão e o desamparo humano.

Já aqui o costumaz tom engajado e mais reconhecido de Visniec parte para uma jornada íntima e pessoal. E diante da definição dos realizadores em tratar-se de uma experimentação teatral é que o texto escolhido parece cair como luva. Nessa indefinição de tantos elementos e do encontro inusitado proposto pela dramaturgia, ora adaptada.

E se a tal moça possa ser a morte, a jornada traz uma perspectiva poética para o luto que virou rotina na pandemia. Assim, negociar desejos e criar perspectivas para além da vida parece estar muito mais no mote do factível do que do ficcional nesses tempos. Afinal, quem não parou para pensar na sua finitude e nas escolhas de vida desde que o COVID-19 tornou-se pauta?

Sem dúvida, conferir Pandas ou Era uma vez em Frankfurt tem efeito pedagógico para o profissional de teatro. O ineditismo de uma proposta teatral sem a reunião em um lugar físico, mas por uma plataforma virtual, tornou-se uma das possibilidades. E experimentá-la é uma necessidade.

E aqui o universo construído funciona tanto pela direção dos atores, como pela estética em simulacro, proposta nas projeções tipicas do Zoom, nos objetos de cena e nos figurinos.

Kott definiu, no debate após a apresentação, que esse experimento cênico é um exercício fundamentado na intimidade entre atores e público. E nem o teatro e o audiovisual conseguem dar conta deste viés. Por isso, Nicole conclui, na entrevista dada ao Blog e-Urbanidade: “é e não é teatro”.

Posto isso, provavelmente as questões conceituais, próprias dos artistas de teatro, devem passar despercebidas para grande parte do público. Afinal, talvez seu objetivo principal seja o de encontrar, em cumplicidade, uma história.

É nisso que está a grande potência da encenação: no encontro. Perceptível na grande parte dos espectadores que ficam após as velas da última cena serem apagadas. Ficam ali, sem apertar o “leave”. Querem algo mais. Querem se ver. Querem falar, conversar. Prolongar-se no encontro. Ficam íntimos, sem toques, mas pelas janelas abertas das suas casas. É e não é intimidade.

Pandas ou Era uma vez em Frankfurt não é apenas a experimentação, a história, as projeções, a sonoplastia, a luz e a direção de atores, mesmo que sejam bem cuidadas e realizadas com êxito. Prevalesse o teatro como a arte da junção de pessoas em torno dos seus dilemas. Portanto, é teatro sim. É essencialmente comunhão.

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