Crítica: Pacarrete, direção Allan Deberton | Blog e-Urbanidade

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Pacarrete - Foto:: Luiz Alves
Pacarrete - Foto:: Luiz Alves
Pacarrete - Foto:: Luiz Alves
Pacarrete – Foto:: Luiz Alves

Pacarrete, estrelado por Marcélia Cartaxo, dirigido por Allan Deberton, levou 8 prêmios no Festival de Gramado 2019, finalmente começa a aparecer nas programações dos cinemas. A história inspirada na professora de ballet que viveu em Russas (Ceará) é uma bela e atual fábula sobre a loucura e o Brasil que desvaloriza a velhice e seus artistas.

A primeira cena já se abre pela perspectiva fantasiosa da professora e bailarina clássica, que gosta de ser chamada de Pacarrete – “margarida” em francês. Deberton – que assina o roteiro também com André Araújo, Samuel Brasileiro e Natália Maia – deixa explícito ali que seguirá pelo mundo delirante da protagonista.

Personagem real, nascida e criada em Russas, Pacarrete alimentou desde criança o sonho de ser artista. Mudou-se para a capital cearense para torna-se bailarina clássica e professora de ballet. De volta à cidade natal, para cuidar da irmã, a jornada do longa inicia-se quando a dançarina decide apresentar-se nas comemorações de duzentos anos do município.

Ela é muito culta: toca piano, fala francês e tem um corpo que fala todo o tempo. Foi um grande desafio de resistência e enfrentamento e fiquei muito feliz porque isso me mostrou que, se eu me esforçar bastante, consigo chegar bem longe”, conta Cartaxo, que tem levado os prêmios de melhor atriz em vários festivais onde o filme tem participado. Em 1985, a atriz ganhou como Melhor Atriz, no Festival de Berlim, com A Hora da Estrela de Susana Amaral.

O tom um pouco postado e excêntrico de Cartaxo incomoda em algumas cenas, mas a escolha corajosa funciona. E ao dizer que fala e grita pelas ruas da cidade porque tem muitas palavras na sua cabeça arremata o universo esquizofrênico da protagonista.

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No episódio #31, o Rolê Urbano fez sua agenda temática sobre a loucura. Lá no programa tem dicas de filmes, séries, livros e um rolê por manicômios pertos de São Paulo. Para ouvir no player do blog, clique aqui.

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Dessa forma, o roteiro e a direção trilham pelas sinuosas bordas da sanidade e da loucura. Seria ela uma artista mal compreendida ou uma alienada? Talvez, em certa altura, o espectador já consiga se desprender da definição racional de quem é Pacarrete. Mas ai pouco interessa. Afinal, já está posto que os delírios dela brotam exatamente nestes atritos e superposições de desejos e repressões, muito comuns entre os indivíduo e o mundo externo.

Diretor Allan Deberton - Foto: Luiz Alves
Diretor Allan Deberton – Foto: Luiz Alves

Este é o primeiro longa de Deberton, depois de dirigir curtas premiados, como Doce de Coco (2010), O Melhor Amigo (2013), Os Olhos de Arthur (2016), que juntos participaram de mais de 100 festivais nacionais e internacionais e conquistaram 49 prêmios.

Segundo o diretor, ele conheceu a personagem principal na sua cidade natal, Russas, e que diz muito sobre a força repressora do estado, principalmente com os artistas. “Pode ser uma vizinha, uma tia, ou um senhor excêntrico. Pacarrete pode ser um estado de espírito. É quando a gente vive quem a gente é”, completa ele.

No elenco ainda estão as atrizes paraibanas Zezita Matos (das novelas Velho Chico e Amor de Mãe) e Soia Lira (Central do Brasil, Abril Despedaçado), e os cearenses Rodger Rogério (Bacurau) e Samya de Lavor (Inferninho). E numa participação pra lá de especial e cativante, o ator baiano João Miguel (O Céu de Suely, Estômago) vive a paixão platônica da bailarina. Vale dizer que o ator também tem levado alguns prêmios de melhor ator coadjuvante pelo papel.

Também a trilha Sonora de Fred Silveira é um dos destaques. Ganha genialidade na cena em que entra We Don’t Need Another Hero, com Tina Turner. Sem dúvida, uma das mais criativas e belas sequências.

Pacarrete é um filme de sensações e da fragilidade que habita nos limites da insanidade e da razão. Seriam ambos o aceite ou não aos códigos e condutas de uma determinada sociedade? E talvez seja por isso que o filme tenha conquistado crítica e plateia por onde passa: na vulnerabilidade dos que querem realizar seus desejos. E que felizmente é feito por Deberton pelo ponto de vista do lirismo.

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